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Rico Vasconcelos

Depois da PrEP, incidência de ISTs para de aumentar em estudo australiano

nito100/Getty Images/iStockphoto
Imagem: nito100/Getty Images/iStockphoto
Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

29/01/2021 04h00

Entre especialistas e pesquisadores da prevenção do HIV, não há quem discorde de que a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) foi a mais potente e importante ferramenta de prevenção desenvolvida até hoje contra essa infecção. Entre as questões que agora estão sendo mais bem compreendidas, está o impacto que a sua implementação em uma comunidade pode ter nas demais infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como sífilis, gonorreia e clamídia.

O raciocínio para a preocupação com esse assunto de fato é válido e coerente. Afinal, se as pessoas que tomam PrEP têm muito menos chances de se infectarem com o HIV, será que não vão perder o medo dessa infecção e terem uma desinibição dos comportamentos de maior vulnerabilidade? E mais, se ocorrer uma redução na frequência do uso do preservativo e um aumento do número médio de parcerias sexuais, não seria esperado uma explosão na incidência das outras ISTs não-HIV?

O argumento é válido e coerente, mas, como já disse aqui anteriormente, felizmente não é isso que os trabalhos que estudam o tema têm mostrado. Ao contrário, os estudos que avaliam as ISTs bacterianas em usuários de PrEP mostram que o que ocorre é exatamente o oposto de uma explosão. Recentemente, isso foi confirmado por mais um trabalho publicado no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA Network).

No trabalho, conduzido entre 2015 e 2018 na Austrália, um grupo de 2.404 pessoas que iniciou o uso de PrEP teve os resultados dos exames para ISTs bacterianas analisados desde 1 ano antes do início dos comprimidos da PrEP até 2 anos depois disso. Quase todos os participantes eram homens cisgênero gays e nenhum deles já havia usado PrEP na vida.

Os resultados mostraram que, desde antes do uso da PrEP, a porcentagem de participantes com resultados positivos para sífilis, gonorreia ou clamídia já era bastante alta (50%) e vinha crescendo ainda mais cerca de 8% a cada trimestre.

Depois de iniciados os comprimidos da PrEP e o acompanhamento médico regular, os pesquisadores identificaram a interrupção do crescimento dos casos de gonorreia e clamídia. Para sífilis, o início da PrEP não teve nenhum impacto na tendência já existente anteriormente. Nenhum participante se infectou com HIV.

Outra coisa que mudou quando comparados os períodos pré e pós-PrEP, foi a frequência de testagens anuais para ISTs realizadas pelos participantes, subindo de uma média de 3 para 4,5 por ano. Essa informação é fundamental para compreender o impacto no crescimento das ISTs pois, com mais testes, os casos de ISTs são diagnosticados e curados, interrompendo a transmissão dessas bactérias para novas pessoas.

A conclusão do estudo aponta para a importância de se levar em conta as tendências das epidemias de ISTs em uma localidade antes da implementação da PrEP para se analisar de forma correta o impacto dessa intervenção no controle ou descontrole dessas infecções.

Ainda que a PrEP possa provocar algum grau de desinibição nas práticas sexuais, isso não ocorre de forma universal entre os seus usuários, e nem mesmo é capaz de minar o potencial benefício no controle do HIV e das outras ISTs, como mostra esse e outros estudos.

Todos os estudos publicados dos últimos anos mostraram a mesma coisa: engajar a população mais vulnerável às ISTs em um acompanhamento de Prevenção Combinada, com testagem periódica e PrEP é atualmente a melhor alternativa para o controle dessas epidemias.

Evidência científica é o que não falta para guiar as ações de saúde pública nessa área. O que precisamos agora para controlar o HIV e as outras ISTs é de investimento e vontade do poder público de implementar as ações. Lembrando sempre de que a luta deve ser contra as ISTs e não contra o sexo.