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Rico Vasconcelos

Tratamento injetável de longa duração para HIV já pode ser usado na Europa

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Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

15/01/2021 04h00

2020 definitivamente não foi um ano perdido. No seu apagar das luzes, dia 21 de dezembro, enquanto estávamos todos com a cabeça na covid-19 e em como seriam as festas de final de ano no meio de uma pandemia, a agência europeia que regulamenta o uso de medicamentos concedeu a autorização para a venda e início do uso do esquema de tratamento de HIV com antirretrovirais injetáveis de longa duração. Antes da União Europeia, apenas o Canadá já tinha autorizado isso.

A decisão já era esperada há algum tempo, mas a sua oficialização serve como um marco na história do tratamento do HIV/Aids e inaugura uma nova era na vida das pessoas que vivem com esse vírus. Uma vida sem comprimidos.

Os dois antirretrovirais utilizados nesse esquema são o Cabotegravir e a Rilpivirina, drogas que devem ser administradas por via intramuscular a cada um ou dois meses para que sejam mantidos seus níveis terapêuticos entre as injeções.

O novo esquema já foi avaliado em uma série de ensaios clínicos que compararam a sua eficácia terapêutica com a do esquema clássico, que utiliza comprimidos diários. No mais recente, publicado em 2020, foram recrutados 618 indivíduos com o HIV indetectável em tratamento regular habitual. Depois de incluídos no estudo, foram sorteados para trocarem o tratamento para o injetável ou seguirem com os comprimidos.

O acompanhamento dos dois grupos mostrou que independente do tratamento realizado, a porcentagem de indivíduos com a carga viral indetectável se manteve estável e semelhante. Não importando também se as injeções eram aplicadas a cada 1 ou 2 meses.

O principal efeito colateral do esquema foi a dor no local das injeções, relatada por 83% dos participantes que as receberam. Em 99% das vezes, a dor foi classificada como leve ou moderada, durando em média 3 dias. Apenas 1% dos participantes que reportaram esse sintoma optou, por causa dele, por interromper o tratamento injetável.

Mesmo com essas reações relacionadas com as injeções, ao fim de 1 ano de acompanhamento, 86% dos participantes continuavam preferindo esse esquema ao com comprimidos diários, o que mostra a elevada aceitabilidade dele.

Até que uma cura tenha sido desenvolvida e esteja disponível, a melhor proposta de saúde para uma pessoa que vive com HIV é manter sua carga viral indetectável com o uso de antirretrovirais. E a diversificação das opções terapêuticas é um excelente caminho para adaptar o tratamento aos diferentes contextos de vida.

Comprimidos podem ser uma boa opção para alguns, assim como injeções podem ser para outros. Só não podemos achar que todas as pessoas são iguais e nem desconsiderar as peculiaridades de cada um.

Na Europa, essa questão está sendo levada a sério. No Brasil, não existe ainda a discussão da incorporação dessa tecnologia. Para que isso se torne um dia uma realidade aqui, além do registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), precisaríamos também de uma análise da operacionalização do uso da terapia antirretroviral injetável no nosso sistema público de saúde, inclusive com a avaliação de custo-efetividade.

Nesse assunto, as coisas ainda estão caminhando devagar por aqui, mas a decisão europeia certamente é um passo importante e que pressiona o Ministério da Saúde a começar a pensar nesse assunto.

Enquanto isso, vamos mantendo a carga viral indetectável com os antirretrovirais que temos disponíveis, o que, diga-se de passagem, não são nada ruins. Apenas são em forma de comprimidos diários.