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Rico Vasconcelos

Testagem e tratamento podem erradicar a hepatite C

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Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

06/11/2020 04h00

Até o começo dessa década, a pandemia de hepatite C parecia ser um problema sem solução.

Com mais de 70 milhões de pessoas infectadas globalmente e com cerca de 25% delas progredindo para cirrose hepática em decorrência dessa infecção, a hepatite C foi por muitos anos a principal causa de transplante hepático no Brasil e no mundo. Hoje, no entanto, erradicar a transmissão desse vírus é algo possível e os estudos mostram que estamos no caminho certo.

Ao longo da história, foi possível identificar que os casos de hepatite C no Brasil se concentraram na maioria das vezes entre pessoas que compartilhavam contextos específicos de vida e vulnerabilidade. Na década de 1990 e início dos anos 2000, por exemplo, a maior parte dos casos ocorria entre usuários de drogas injetáveis ou que tinham recebido transfusão sanguínea.

Com a diminuição do uso de drogas injetáveis e o início da triagem sorológica em todas as bolsas doadas nos bancos de sangue, houve no país uma mudança no perfil dos indivíduos diagnosticados com hepatite C.

Nos últimos anos, a transmissão sexual da hepatite C começou a ganhar mais importância, situação que não ocorre facilmente, mas que tem como exemplo de fatores de risco a infecção simultânea por HIV e o uso durante as relações sexuais de drogas como o poppers, o GHB, a cocaína e a metanfetamina, fenômeno conhecido como Chemsex.

Entretanto, com o desenvolvimento de novos medicamentos antivirais de ação direta contra o vírus da hepatite C (conhecidos pela sigla do inglês DAA), nos últimos 5 anos vimos uma verdadeira revolução acontecer no enfrentamento dessa epidemia. O tratamento com os DAAs consegue curar quase todos os pacientes com hepatite C, interrompendo, dessa forma, não só a progressão da doença para cirrose hepática, mas também a transmissão epidêmica desse vírus.

Os pesquisadores da área acreditam inclusive que o controle da epidemia a partir do diagnóstico, tratamento e cura das pessoas infectadas pode ser ainda mais rápido quando se trata de uma epidemia concentrada em grupos específicos, como o das pessoas com os fatores de risco para a transmissão sexual.

Foi isso que demonstrou um estudo publicado no mês passado na respeitada revista científica Clinical Infectious Diseases. A pesquisa realizada na cidade de Melbourne, na Austrália, rastreou os casos de hepatite C entre os homens gays e bissexuais vivendo com HIV. Todos os casos diagnosticados foram encaminhados para tratamento com DAA.

Entre os anos de 2016 e 2018 foram diagnosticados cerca de 200 casos de hepatite C nesse grupo, sendo que até o final do estudo 186 tinham iniciado o tratamento. Dos tratados, 98% atingiram a cura da doença. E o mais interessante do estudo foi o impacto desse tratamento na incidência de hepatite C entre os homens gays e bissexuais da cidade.

Segundo os dados divulgados, entre os anos de 2015 e 2019, houve uma redução de 83% no número de indivíduos com hepatite C ativa, fenômeno que foi atribuído ao tratamento e cura dos casos diagnosticados no rastreamento utilizando os novos DAAs.

Outro achado interessante do trabalho foi que independente do serviço em que os pacientes fizeram seu tratamento, seja ele especializado ou na atenção primária, as taxas de cura da hepatite C foram semelhantes.

O trabalho australiano nos mostra que a erradicação de hepatite C é algo possível e que ela não depende do julgamento nem da marginalização dos mais vulneráveis a essa infecção. Ela depende apenas do acolhimento e da ampliação de acesso ao que temos de mais moderno e potente na medicina contra esse vírus.

No Brasil, o Ministério da Saúde lançou em 2018 o Plano de Erradicação da Hepatite C até 2030, que prevê a ampliação da testagem e o tratamento com DAA para todos os indivíduos diagnosticados, independente do estágio da doença.

O plano é bom e podemos dizer que estamos no caminho certo. Só falta agora conseguirmos passar por cima da discriminação existente em relação aos mais vulneráveis à hepatite C e de fato colocar o plano em prática. Faça sua parte e se teste.

Errata: o texto foi atualizado
A versão inicial desse texto dizia que, mundialmente há 180 milhões de infectados. O número correto é mais de 70 milhões. A informação foi corrigida.