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Rico Vasconcelos

Estudo avalia se vacina de HPV pode reduzir câncer de cabeça e pescoço

Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

23/10/2020 04h00

O HPV (Papilomavírus Humano) é provavelmente a infecção sexualmente transmissível (IST) mais frequente em todo mundo, infectando até 80% da população mundial sexualmente ativa em algum momento da vida.

A ampla disseminação desse vírus na população pode ser explicada por sua fácil transmissão quando há contato da pele entre duas pessoas, fazendo com que possa ser transmitida mesmo com o uso da camisinha, já que o látex não pode cobrir toda a pele de um indivíduo.

Na maioria das vezes, entretanto, a resposta imune de cada indivíduo é capaz de eliminar o HPV sem que ele cause maiores problemas à saúde. Quando isso não acontece, a persistência da infecção pode ser assintomática ou causar desde verrugas, conhecidas como condilomas, até o câncer, que pode ser de colo do útero, canal anal, vulva, pênis, boca ou garganta.

Existem descritos mais de 200 tipos diferentes de HPV, mas apenas um grupo pequeno está associado ao risco aumentado de neoplasias malignas.

Nos últimos anos, foram desenvolvidas vacinas específicas para esses subtipos com potencial cancerígeno e, em estudos científicos, já foi demonstrado que a vacinação é segura e pode reduzir a incidência de lesões pré-neoplásicas anais e genitais. Só falta agora avaliar se a vacina para HPV pode também proteger contra os cânceres de cabeça e pescoço.

Para isso, na Faculdade de Medicina da USP está sendo conduzido um ensaio clínico multicêntrico internacional, que pretende incluir 6.000 participantes para receberem 3 doses da vacina ou de placebo e serem acompanhados por 42 meses. Todos os participantes deverão ser homens cisgênero devido à maior prevalência de HPV em cavidade oral nessa população. A vacina utilizada será uma que produz imunidade contra 9 subtipos de HPV com alto risco de evolução para o câncer.

Os participantes, além de receber as injeções, deverão retornar semestralmente ao centro de pesquisa para realizar um bochecho para pesquisa do HPV em boca e garganta. O que se pretende demonstrar é que os indivíduos que receberem as doses verdadeiras da vacina terão um número significativamente menor de infecções persistentes por HPV, o que pode ser traduzido como risco menor de desenvolvimento de cânceres de cabeça e pescoço associados a esse vírus.

Os cânceres de cabeça e pescoço são um grupo heterogêneo de neoplasias malignas, que podem ocorrer em diferentes localizações anatômicas e ter inúmeros fatores de risco. Os clássicos são o tabagismo e o consumo excessivo de álcool, mas, nos últimos anos, foi verificado o aumento da proporção de cânceres, principalmente os de cavidade oral, causados pelo HPV.

Anualmente são diagnosticados mundialmente mais de 40 mil novos casos de neoplasias de cabeça e pescoço relacionados ao HPV, e dados da América do Norte e Europa indicam tendência de aumento dessa incidência.

Por fim, dada a baixíssima adesão à camisinha durante o sexo oral no mundo real e a dificuldade para o rastreamento dos cânceres de cabeça e pescoço causados pelo HPV, uma vez que não dispomos de um exame eficiente semelhante ao papanicolau para o câncer de colo de útero, uma vacina que previna essa complicação será muito bem-vinda.

Os interessados em participar do estudo devem ter entre 20 e 45 anos de idade e entrar em contato pelo WhatsApp (11) 93278-6719 ou pelo e-mail pec.agendamentos@gmail.com.

Divulgue e participe da pesquisa. Ajude a ciência a melhorar a vida sexual de todas as pessoas do mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL