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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

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Entenda como problemas na coluna podem provocar alterações cardíacas

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

03/07/2022 04h00

Muito se fala sobre certos fatores que interferem na saúde do coração, a exemplo do tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, obesidade, pressão alta, colesterol elevado e diabetes. No entanto, o órgão sofre influência de determinadas áreas do nosso corpo que nem todo mundo tem conhecimento. Uma delas é a coluna vertebral.

Sim, até mesmo a coluna desempenha papel importante no pleno funcionamento do coração e do sistema cardiovascular! E não apenas de uma forma, mas por algumas razões diferentes. Vamos então, primeiro, nos situar: o coração está localizado entre os pulmões, na região do peito, atrás e ligeiramente à esquerda do osso esterno. Uma membrana de dupla camada, ao qual damos o nome de pericárdio, envolve o órgão como um saco.

De forma resumida, a camada interna do pericárdio está ligada ao músculo cardíaco. Já a externa envolve o início de seus vasos sanguíneos e é conectada por ligamentos à coluna, ao diafragma e a outras partes do corpo. Assim, qualquer desalinhamento na coluna vertebral —denominada subluxação articular— pode levar a alterações na química do sangue e influenciar em outras regiões da nossa estrutura física.

E isso ocorre especialmente por meio de mudanças em uma pequena parte do cérebro, conhecida como hipotálamo —que apesar do tamanho, é de grande importância para o organismo: pode ser considerado um elo integrador entre os sistemas nervoso e endócrino.

Tudo está conectado

O sistema nervoso é responsável por manter o controle de todas as nossas funções voluntárias e involuntárias: de órgãos, músculos, tecidos, etc —incluindo a regulação cardiovascular (o aumento e diminuição da pressão arterial e da frequência cardíaca). É dele a função de enviar e receber mensagens do restante do corpo.

Assim, cérebro, medula espinhal (porção do sistema nervoso que se localiza no interior do canal vertebral) e nervos atuam nessa comunicação. Por isso, disfunções e desvios na coluna podem interferir e desequilibrar o organismo como um todo, dependendo da sua localização.

Voltando ao termo que nos referimos para apontar a redução de mobilidade ou o desalinhamento de uma (ou mais) vértebra da coluna, as subluxações vertebrais interferem, desta forma, na comunicação do sistema nervoso, dificultando a transmissão de informações do cérebro para o corpo e vice-versa.

Como tudo está interligado, elas atrapalham ou bloqueiam a transmissão de impulsos nervosos, impossibilitando processos naturais e impactando no funcionamento de órgãos, na saúde e bem-estar.

No caso do coração, essas questões na coluna podem gerar a compressão e danos em artérias e veias, além dos nervos que bloqueiam ou interferem nas mensagens enviadas entre o cérebro e o coração e vasos sanguíneos, podendo gerar sintomas, como palpitações, tremores, embaçamento, pré-síncope (sensação de desmaio), desmaios, falta de ar, dores no peito, insuficiência cardíaca, arritmias, entre outras consequências até mais graves.

Estresse e outras causas

As subluxações são causadas por diferentes razões, que incluem acidentes, quedas, lesões e traumas esportivos, má postura, excesso de peso, obesidade, estresse e conflitos emocionais. Geralmente, uma situação desse tipo provoca o aumento da liberação de hormônios ligados ao estresse no sangue. Surge então um efeito cascata.

Consequentemente, o coração entra em "modo de trabalho extra", sendo mais exigido do que normalmente. Os batimentos cardíacos e a pressão aumentam. A resposta é a elevação e sustentação do tônus simpático do sistema nervoso, uma das principais causas de eventos e doenças cardiovasculares —a ação simpática é a responsável por preparar o organismo para responder a situações de estresse e emergência (luta e fuga).

Portanto, a remoção dessas subluxações reduz o tônus simpático através de ajustes na coluna vertebral e também contribui para a manutenção do funcionamento do sistema cardiovascular. Nesse sentido, a quiropraxia pode ser uma grande aliada: cuidados quiropráticos podem corrigir desalinhamentos vertebrais, má postura, pressões e restrições na região, permitindo a normalização do ritmo e da frequência cardíaca.

Lesões medulares

Assim como as subluxações, lesões medulares podem interferir e aumentar o risco de problemas no sistema cardiovascular —as interrupções do controle cardiovascular após uma lesão estão relacionadas com seu nível e gravidade. Após uma lesão, as conexões na medula espinhal ficam interrompidas. Como resultado, áreas abaixo do nível do dano causado podem não mais enviar ou receber efetivamente a comunicação do cérebro.

Quando a conexão entre os centros autônomos do cérebro e segmentos da medula espinhal que controlam o ritmo cardíaco é danificada, a frequência dos batimentos sofre alterações (como explicado acima). Indivíduos com lesão medular, de modo geral cervical ou torácica, podem sofrer de taquicardia (frequência em repouso superior a 100 batimentos por minuto) ou bradicardia (frequência em repouso abaixo de 60 batimentos por minuto), parada cardíaca súbita e outros distúrbios do sistema de condução.

Escoliose

Aqui entra outro exemplo de relação entre a coluna vertebral e o coração. A coluna tem curvaturas que existem para proteger os órgãos internos e para sustentar o peso corporal. No entanto, algumas pessoas possuem desvios além do considerado fisiológico, como quem sofre com a escoliose. Em casos assim, a coluna vertebral tem alterações em seu alinhamento anatômico, assumindo o formato em C ou S, o que gera tensão muscular, dor e limitações de movimento.

Essas curvaturas podem provocar um comprometimento severo não apenas estético, mas também funcional, afetando ainda funções corporais com prejuízo a qualidade de vida. Pacientes escolióticos, comumente, sofrem de fadiga ao praticar esportes ou até ao realizar atividades cotidianas mais intensas, como subir escadas rapidamente.

A escoliose é avaliada em graus. Os efeitos e a gravidade dependem do ângulo da curvatura: até 20º são leves; de 20º a 40º moderadas; inclinações maiores que 40º ou 50º são consideradas graves.

Se não for tratada, a curvatura da coluna pode aumentar, comprimir e interferir no funcionamento de órgãos, especialmente do pulmão e do coração, e com isso em processos como a respiração —e por consequência na distribuição de oxigênio pelo corpo.

Isso porque para que cada etapa aconteça, todo o sistema respiratório precisa entrar em ação. A escoliose, dependendo do grau, limita o movimento do diafragma, não permite que a caixa torácica se mova como precisaria e impede a expansão necessária do pulmão.

Como resultado, o indivíduo não consegue respirar tanto oxigênio quanto deveria. Com o tempo, a capacidade respiratória é reduzida, gerando também efeitos graves na função cardíaca —as alterações são primordialmente pulmonares e num segundo estágio levam até a insuficiência cardíaca.

Tratamentos para escoliose incluem RPG, fisioterapia, pilates e outras modalidades para fortalecer a musculatura e melhorar a postura, além de intervenção cirúrgica nos casos mais graves.