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Paulo Chaccur

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quais os efeitos da altitude no sistema cardiovascular?

Todo o nosso corpo passa por alterações quando mudamos de altitude e vamos para cidades muito acima do nível do mar, como La Paz - iStock
Todo o nosso corpo passa por alterações quando mudamos de altitude e vamos para cidades muito acima do nível do mar, como La Paz Imagem: iStock
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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do VivaBem

10/04/2022 04h00

Você já deve ter notado que quando um time de futebol brasileiro vai disputar um jogo na Bolívia, Colômbia ou Peru, por exemplo, muitas vezes os jogadores precisam chegar à cidade com dias de antecedência? E sabe qual é a razão?

A recomendação é feita para que o organismo tenha tempo de se acostumar com a altitude, que além de afetar o desempenho físico dos atletas, ainda pode trazer danos à saúde. O fato é que todo nosso corpo passa por alterações quando mudamos de altitude, especialmente quando ela aumenta demais. As variações fisiológicas ocorrem de acordo com cada organismo e com a altitude ao qual somos expostos.

É possível que o coração dispare, o pulmão fique sem ar, o sangue se torne mais espesso e a cabeça comece a doer. Podemos listar diversos sintomas aqui, no entanto, primeiro vamos entender porque exatamente isso acontece.

O corpo e as diferenças de altitude

De modo geral, é a partir de 2.300 metros acima do nível do mar que o organismo inicia seus ajustes. Para dar uma ideia do que estamos falando, como referência, a cidade de São Paulo está localizada em média a 760 metros acima do nível do mar, Cusco (Peru) a 3.400 metros e La Paz (Bolívia) a mais de 3.600 metros.

As alterações são feitas para compensar a menor densidade do ar (que é proporcional à altitude), a menor pressão atmosférica e a menor pressão parcial de oxigênio (O2). Em outras palavras: no alto, a pressão atmosférica (o peso do ar sobre nós) é menor, o que deixa o ar mais rarefeito e com menor circulação de oxigênio --em grandes altitudes, a quantidade de moléculas de oxigênio disponíveis diminui.

E quanto mais alto subimos, piores são os sintomas e a probabilidade de consequências para o corpo. Fumantes, sedentários, pessoas com problemas cardíacos, respiratórios ou asma, podem sofrer ainda mais.

Subindo...

Os sintomas, geralmente, têm início cerca de quatro horas depois de alcançarmos os 2.300 metros. A frequência cardíaca aumenta --sinal de que o organismo está fazendo esforço extra para continuar captando o oxigênio, o pulmão passa a trabalhar mais e começamos a sentir dificuldade para respirar. Na sequência, outros desconfortos podem surgir: dor de cabeça, náuseas, vômitos, insônia, cansaço generalizado, falta de apetite e sangramento do nariz.

Com mais de 5 mil metros qualquer um vai sentir, pelo menos, uma ou mais reações. Não há, inclusive, como viver permanentemente em um local assim. Isso porque nosso corpo não é capaz de se adaptar a tal altitude durante longos períodos, uma vez que o aproveitamento de oxigênio cai para 50%. E os alpinistas, você deve estar pensando? Mesmo acostumados e treinados, eles usam equipamentos de oxigênio na grande maioria dos casos.

Ao passar os 6 mil metros, a umidade e a pressão do ambiente se tornam muito baixas. Aumentam os riscos de desidratação. A radiação ultravioleta cresce 4% a cada 300 metros e é possível que provoque queimaduras. Depois o cenário só piora: aos 7 mil metros o frio é intenso (atingindo até -70 ºC) e o ar tão seco que as partes internas do corpo menos protegidas chegam a congelar. A falta de oxigênio é ainda mais crítica.

Ao atingir 8 mil metros, o corpo humano, por mais aclimatado que esteja, morre aos poucos. O aproveitamento do oxigênio cai para 30%. O coração dispara para suprir a falta de ar, o que pode causar arritmia e até uma parada cardíaca. Alpinistas profissionais, por exemplo, assumem o risco de sofrerem edemas pulmonares ou cerebrais ao tentar escalar o Everest, que tem aproximadamente 9 mil metros de altitude.

Entenda o que acontece com o coração

Os efeitos da altitude sobre a saúde cardiovascular podem ser diferentes para aqueles com ou sem doenças preexistentes e outros fatores de risco. Entretanto, de modo geral, estão associados a diversas questões que atingem o funcionamento desse sistema. No caso de uma exposição mais longa às altitudes elevadas, o sistema cardiovascular é afetado especialmente pela diminuição do oxigênio no sangue, o que chamamos de hipóxia aguda —a hipóxia em alta altitude está relacionada a um trabalho extra para o miocárdio (músculo do coração).

A resposta inicial é caracterizada por um aumento no débito cardíaco, com a elevação dos batimentos (taquicardia). Mais glóbulos vermelhos, que transportam O2, são produzidos e vão para o sangue, que fica mais espesso --o que é um potencial problema para vasos finos e com riscos de obstrução. A pressão arterial pode subir ligeiramente.

Uma possível desidratação (por evaporação) também traz consequências. Conforme o corpo perde líquido e não tem a reposição necessária, os vasos sanguíneos vão se fechando para manter a pressão arterial dentro do ideal. O sangue fica mais grosso e a frequência cardíaca acelera ainda mais.

Com os níveis mais baixos de oxigênio e flutuações na pressão do ar, temperatura e umidade, a demanda sobre o coração também é maior, assim como a liberação de adrenalina e a pressão da artéria pulmonar. Atividades esportivas, como esqui, caminhadas intensas, ciclismo ou escalada, podem gerar mais estresse tanto ao coração como aos vasos sanguíneos devido ao esforço extra do exercício.

E se já tenho uma doença, cardiopatia ou diagnóstico de disfunção do coração?

Em resumo, de maneira geral, pacientes com complicações cardiovasculares devem evitar a exposição a altitudes elevadas, a menos que sejam liberados por seus médicos. É fundamental a avaliação individual dos riscos e complicações com base em sua condição física e gravidade da doença, considerando a altitude ao qual será exposto.

No caso de arritmias, hipertensão arterial sistêmica, doença arterial coronária, insuficiência cardíaca congestiva e doenças valvares, a recomendação vai depender do estado de saúde e do quadro de cada um --principalmente se a intenção for realizar exercícios físicos nesses lugares.

Vale reforçar que, exceto se o indivíduo permanecer por longos períodos em altitudes além daquelas que o corpo possa se adaptar (como descrito em mais detalhes acima) ou por complicações em consequências de problemas cardiovasculares prévios, o ritmo da frequência cardíaca, pressão arterial e outras mudanças no organismo tendem a voltarem ao normal no retorno a locais mais próximos ao nível do mar.

Assim como outros estudos, uma expedição ao Everest (2014) com a participação de pesquisadores italianos revelou que a pressão sanguínea se eleva à medida que as pessoas sobem a maiores altitudes. Nesse levantamento, os pesquisadores observaram que a elevação na pressão aconteceu imediatamente após a altitude ser atingida, persistiu durante a exposição e desapareceu com a volta ao nível do mar.

E em aviões?

Sim, eles também estão em altitudes elevadas. Porém, em aviões comerciais as condições de pressão são comparáveis a altitudes de 1.500 a 2.400 metros, onde a maioria dos pacientes cardíacos tolera sem dificuldade o estresse associado. As contraindicações para viagens aéreas ficam para condições cardíacas instáveis, intervenções ou um infarto do miocárdio recente ou com complicações. Todos os casos devem ser avaliados pelo médico responsável.

E quando descemos?

Se deslocar para lugares com altitude mais baixa não gera complicações como as descritas acima. Quando vamos para mais próximo do nível do mar, a pressão do ar sobre nós aumenta. Se você já desceu a serra para a praia, deve ter sentido o efeito nos ouvidos —a pressão no ouvido externo fica maior do que a do médio. Isso piora a audição temporariamente e dá a sensação de ouvidos "entupidos". O fenômeno também pode acontecer ao andar de avião ou mergulhar em grande profundidade.

É bom se preparar antes

Nem todo mundo apresenta sintomas quando vai para lugares de altitude, mas também não temos como prever quem vai ou não sentir alguma coisa. Como vimos, a intensidade pode variar e quanto mais alto, maior será a proporção de indivíduos com alguma alteração fisiológica aparente ou consequência grave. O importante é se preparar com antecedência para tentar minimizar os efeitos.

No caso do coração, avaliações periódicas, o acompanhamento e aconselhamento em caso de doenças e fatores de risco já conhecidos são fundamentais. Entre as recomendações gerais, especialmente em lugares de maior altitude, é importante também reservar um período para a aclimatação, que deve ser progressiva sempre que possível. Para alguns, é preciso até duas semanas nesse ambiente para adaptar-se totalmente.

Vale lembrar ainda que nem todos vão apresentar o mesmo nível de adaptação, o grau de condicionamento físico não garante proteção total contra problemas cardíacos decorrentes da altitude e, mesmo para quem já está acostumado com ambientes assim, ao retornar ao nível do mar, perde essa adaptação após duas a três semanas --um novo período será necessário para uma próxima viagem a lugares altos.

Além disso, em casos de viagens para locais de altitudes muito elevadas, a dica é tentar melhorar ao máximo o condicionamento físico meses antes. Atividades aeróbicas, por exemplo, ajudam a ampliar as capacidades cardíaca e pulmonar. Um especialista também pode elaborar uma dieta especial com alimentos que ajudam a preparar o organismo e a mantê-lo bem durante o tempo de permanência.