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OPINIÃO

O que pode acontecer com a saúde do coração ao cortar glúten sem precisar

Imagem: iStock
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Paulo Chaccur

Colunista do UOL

16/01/2022 04h00

Como já aconteceu no passado com outros alimentos, de uns tempos para cá parece que o glúten se transformou num grande vilão. De repente um crescente número de empresas passou a incluir em sua linha alguns produtos sem o ingrediente.

Assim, o que era encontrado apenas em determinados estabelecimentos, agora está presente na maioria dos mercados. E mesmo sem ter intolerância ou entender exatamente a razão, cada vez mais pessoas estão optando por reduzir ou cortar o glúten da dieta. Mas por que isso vem ocorrendo e quais as consequências desta escolha?

Antes, porém, de entrarmos na questão dos benefícios ou prejuízos para a saúde de manter ou tirar o glúten do menu no dia a dia, vamos entender do que estamos falando. Afinal, você sabe o que é glúten? Trata-se de um tipo de proteína encontrada em grãos, como a cevada, o trigo e o centeio.

O que dizem por aí...

Você já deve ter ouvido dizer que uma dieta restrita ou sem glúten pode fazer de tudo, desde comer de forma mais saudável, ajudar no controle de peso, ter mais energia e até melhorar o humor. O fato é que o glúten, normalmente, não é um problema para a maioria das pessoas. E na realidade, nenhuma destas razões apontadas deveria ser considerada motivo suficiente para uma mudança radical.

O problema é que os pesquisadores ainda não confirmaram se esses indícios são realmente verdadeiros. O que precisa ficar claro, entretanto, é que algumas pessoas têm uma boa —e medicamente necessária— razão para excluir o glúten da alimentação.

Os principais motivos, apoiados pela ciência e recomendados pelos médicos, são: para tratar a doença celíaca ou para evitar sintomas de uma alergia ao trigo. Há também quem o restrinja por conta de uma Síndrome do Intestino Irritável (SII) ou ainda por frequentes quadros de constipação, diarreia, inchaço ou gases, porém, todos para avaliação e investigação de uma possível dificuldade do organismo em entrar em contato com o ingrediente. Em casos assim, de fato, o glúten pode ser perigoso —e um vilão para a saúde.

A doença celíaca

A doença celíaca é séria e realmente precisa de cuidados e atenção. Estamos falando de uma condição autoimune em que o consumo de glúten pode provocar danos graves ao organismo, inclusive aos órgãos em longo prazo.

Quando um indivíduo que sofre da disfunção consome produtos que contêm glúten, o sistema imunológico ataca e danifica o revestimento dos intestinos. Isso mesmo quando a ingestão é de pequenas quantidades. Com o tempo, danos severos podem ocorrer à parede intestinal. O processo provoca uma inflamação local, que pode afetar também outras partes do corpo, entre elas o coração.

Pessoas diagnosticadas com a doença celíaca, quando ingerem glúten, podem apresentar: problemas digestivos, como inchaço, gases, diarreia ou constipação, deficiências nutricionais que causam anemia e perda de peso. Comer glúten para este grupo também pode acarretar em erupções cutâneas, problemas neurológicos, depressão e ansiedade.

A doença celíaca não deve ser confundida, no entanto, com uma reação alérgica. A alergia começa a se manifestar em segundos ou minutos após o consumo do alimento, podendo originar falta de ar e outros sintomas súbitos, potencialmente graves ou mesmo fatais. A doença celíaca costuma ser mais lenta e silenciosa, com sinais que vão de leves a intensos e permanecem por um longo período.

Como o coração é afetado?

A inflamação identificada em pessoas com doença celíaca está associada a vários tipos de condições relacionadas ao coração, incluindo rigidez na artéria aórtica, bem como a formação precoce de placas.

A miocardite, inflamação do músculo cardíaco, também tem sido observada naqueles com doença não controlada e tratada. Isso porque, além do sistema imunológico atacar os intestinos, um processo similar atinge o tecido muscular do coração, que causa lesão e a inflamação.

Coágulos de sangue e seus agravamentos, ou seja, um possível infarto ou AVC (acidente vascular cerebral) estão ainda ligados à doença celíaca e as complicações inflamatórias por ela gerada.

Sensibilidade x Intolerância

Por outro lado, uma condição menos severa é a sensibilidade ao glúten, síndrome cada vez mais comum. Nestes quadros, o glúten não danifica os intestinos, mas gera sintomas desagradáveis —alguns semelhantes aos celíacos, a exemplo da fadiga, dores de cabeça, articulares e musculares, cólicas, dor de estômago e gases, diarreia e "mente nebulosa". Apesar do desconforto, na sensibilidade ao glúten, o corpo apenas reage mal à proteína.

A origem dos sintomas, geralmente, se dá por uma disbiose, isso quer dizer um desequilíbrio das bactérias no microbioma (conjunto de microrganismos que habitam as várias partes do nosso corpo).

Há diversas causas que desencadeiam a sensibilidade ao glúten via disbiose. Pode ser resultado, entre outros fatores, do uso de antibióticos, água clorada e uma dieta nutricionalmente pobre. O importante é saber que uma vez o problema tratado, é possível que o glúten possa ser adicionado de volta às refeições.

E quando o glúten não é um problema efetivamente?

Seguir a onda de tirar o glúten do menu, para a maioria apenas com o objetivo de consumir menos calorias, pode não ser a melhor saída. Além de não haver comprovação de que parar de comer a proteína do trigo emagrece, estudos recentes vêm mostrando que a falta do nutriente pode gerar problemas.

Quando alguém sem doença celíaca ou uma alergia ao trigo muda para uma dieta sem glúten se expõe a riscos nutricionais. Embora possa ter os ganhos desejados, é possível fazer isso por outros caminhos.

O fato que é ninguém deve sair cortando nada da dieta sem a orientação de um especialista. Muitas vezes, o glúten não é o problema, mas o número de alimentos processados que ingerimos, que além do glúten, têm químicos, conservantes, corantes, aditivos, entre outros.

Uma pesquisa publicada na revista científica BMJ (publicação periódica do Reino Unido) de estudiosos do Massachusetts General Hospital e da Universidade Harvard, ambos nos Estados Unidos, aponta que uma dieta livre de glúten —em pessoas que não têm uma razão médica para estar em uma— pode aumentar desnecessariamente as chances de doença cardíaca, especialmente se isso significar renunciar a grãos inteiros.

Em outras palavras, segundo os pesquisadores, muitas pessoas que eliminam o glúten do cardápio acabam comendo menos grãos integrais e outros alimentos fontes de fibras, que são essenciais na prevenção de problemas cardiovasculares. As fibras e fitoquímicos em grãos inteiros podem ajudar a reduzir os níveis de colesterol e diabetes.

É preciso investigar mais a fundo a relação entre a retirada do glúten do menu e o aumento do risco de eventos que afetam o coração. Entretanto, se você não é celíaco e pretende parar de comer a proteína do trigo, é bom consultar um médico ou nutricionista para fazer as mudanças corretas e de forma saudável.

Como saber se tenho sensibilidade ou intolerância?

Não há nenhum teste atualmente disponível no mercado para encontrar biomarcadores que indiquem a sensibilidade ao glúten ou ao trigo. No entanto, as desconfiar do problema, não hesite em procurar um especialista para investigação e possível diagnóstico. Para comprovar a doença celíaca é possível realizar um exame de sangue com anticorpos.

Lembrando que a doença celíaca é grave, como vimos, inclusive associada a um risco maior de doença coronariana —que pode ter como consequência um infarto ou AVC. Portanto, aqueles diagnosticados com a condição precisam seguir uma dieta rigorosa, livre de glúten. Não há cura, mas controle e tratamento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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