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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

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O que acontece no intestino pode afetar o coração? Entenda a relação

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

21/11/2021 04h00

Você sabia que manter o intestino funcionando bem contribui para a saúde do seu coração? Pode parecer estranho, mas, sim, os órgãos têm relação —e ela é até maior do que muitos imaginam. O fato é que o intestino não funciona de forma independente do restante do corpo. Isso quer dizer: a saúde intestinal e a cardíaca estão intrinsecamente ligadas.

Mas aí vem a dúvida: então se tenho problemas gastrointestinais, refluxo gastroesofágico, má digestão, prisão de ventre, intestino preguiçoso, entre tantas outras questões e doenças inflamatórias que afetam o intestino, meu coração sofrerá as consequências?

A resposta é possivelmente sim, especialmente se isso acontece com frequência. Aliás, não só o coração. Pesquisas revelam que o desequilíbrio das bactérias intestinais pode causar danos no organismo, influenciando em condições bem distintas, tais como uma artrite, obesidade e depressão.

Várias evidências encontradas em levantamentos realizados ao longo dos últimos anos apontam ainda que problemas em ambos, coração e intestino, compartilham fatores de risco e muitas vezes apresentam sintomas semelhantes, a exemplo das dores no peito. Além do que, podem ocorrer simultaneamente, influenciando na precisão do diagnóstico.

Somos compostos por uma quantidade imensurável de bactérias

Boa parte desta correlação entre os órgãos vem da resposta inflamatória do organismo, ou seja, a forma como nosso sistema imunológico reage a uma lesão ou substância estranha. Isso porque cerca de 70% das células inflamatórias do corpo estão alojadas no tecido associado ao intestino. Portanto, as bactérias intestinais têm influência não só sobre o processo inflamatório do intestino, mas de todo o corpo.

Para entender melhor do que estamos falando, vale nos aprofundar um pouquinho. Para se ter ideia, a microbiota intestinal humana (ou flora intestinal, como se dizia antigamente) é composta por trilhões de microrganismos, principalmente bactérias, mas também fungos e outros organismos. Estima-se que em média uma pessoa tenha cerca de 38 trilhões de bactérias em sua microbiota, a maioria delas vivendo no trato digestivo —ou intestino.

Muitas são consideradas benéficas, com diferentes caraterísticas e funções no processo de digestão e na defesa do corpo. Há bactérias, entretanto, que podem não apenas perturbar a saúde digestiva, mas afetar negativamente essa proteção. Quando temos o intestino inflamado, o sistema imunológico ataca células saudáveis e benéficas —como o tecido intestinal e as bactérias amigáveis— como se elas representassem uma ameaça.

Assim, sem uma harmonia, tanto quantitativa como qualitativa, a microbiota intestinal não consegue atuar na prevenção das doenças cardiovasculares —muito pelo contrário. Este desequilíbrio, conhecido como disbiose, pode ocorrer por diferentes fatores, entre eles o uso imprudente de antibióticos e por doenças inflamatórias, em particular aquelas que causam constipação ou diarreia e, dessa forma, reduzem o contingente das bactérias protetoras.

Um intestino inflamado atua contra o coração

Intestino e coração - iStock - iStock
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Com o intestino inflamado, substâncias que ali permaneceriam, incluindo as químicas produzidas pelas bactérias intestinais não saudáveis, podem entrar na corrente sanguínea e causar uma reação inflamatória onde quer que elas cheguem.

Para se locomover pelo corpo, estas substâncias pró-inflamatórias viajam pelos vasos sanguíneos, inclusive podendo se alojar em suas paredes. Podemos dizer então que do mesmo modo que elas atacam as paredes do intestino, também prejudicam o revestimento das artérias —e o risco é independente de fatores de risco tradicionais, como pressão alta, tabagismo, diabetes e colesterol elevados.

O problema é que quando a inflamação atinge os vasos, eles perdem sua elasticidade. Se as células dos vasos não funcionam bem, o cenário para o desenvolvimento de placas e seu acúmulo nas artérias é preparado, abrindo a possibilidade para a aterosclerose e uma posterior interrupção do fluxo de sangue.

Logo, uma microbiota intestinal desequilibrada pode aumentar os riscos de ruptura dessas placas, reduzir a habilidade da artéria de se expandir e aumentar as chances de coágulos. A evolução do quadro acarreta em uma insuficiência cardíaca (quando o coração não consegue bombear sangue suficiente para atender às necessidades do seu corpo), além de graves eventos cardiovasculares, como infarto do miocárdio e AVC (acidente vascular cerebral).

Doenças inflamatórias intestinais

Entre as possibilidades de um revestimento intestinal comprometido, um dos quadros mais preocupantes é gerado pelas chamadas doenças inflamatórias intestinais (DII). As DIIs são um termo para designar dois problemas que atingem o tubo digestivo: a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. A primeira pode ocorrer em qualquer trecho entre a boca e o ânus e a segunda afeta principalmente o intestino grosso e o reto.

Alguns dos sintomas comuns entre elas incluem dor abdominal, diarreia, perda de sangue, fadiga e emagrecimento. A maioria das pessoas é diagnosticada antes dos 30 anos de idade. Fatores genéticos, ambientais e comportamentais estão entre as causas deste tipo de complicação.

Estas doenças inflamatórias são autoimunes e levam à inflamação, que por sua vez, como vimos acima, pode causar danos no revestimento dos vasos sanguíneos. Indivíduos com DII apresentam ainda altas taxas de sedimentação de eritrócitos, níveis de proteína C reativa de alta sensibilidade (CRP) e homocisteína, fatores também relacionados a doenças e complicações cardíacas.

Situações confirmadas em alguns estudos recentes. Uma revisão de 19 estudos sobre tema, publicada em 2017 no Journal of the American Heart Association, revela que o trimetilamina-N-óxido ou TMAO (marcador inflamatório produzido devido à presença de certas bactérias intestinais insalubres) elevado está associado a um risco acima dos 62% de eventos cardiovasculares importantes, como infarto e AVC.

Outro levantamento, realizado pelo Hospital Universitário do Centro Médico de Cleveland (EUA), aponta que pessoas com DII têm 23% mais probabilidade de sofrer um ataque cardíaco do que aqueles sem os distúrbios intestinais —e os mais jovens apresentam nove vezes mais risco. Os pesquisadores analisaram os prontuários (de 2014 a 2017) de 17,5 milhões de pessoas entre 18 e 65 anos.

Outros fatores associados

hipertensão - iStock - iStock
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Há indícios ainda que outros importantes problemas para o coração são indiretamente influenciados por uma microbiota desequilibrada, como diabetes, obesidade e hipertensão arterial. Alguns fundamentos, como a resistência à insulina, podem ser agravados por essa microbiota intestinal desregulada.

No caso da hipertensão, o padrão da microbiota pode determinar maior ou menor acúmulo de resíduos metabólicos, como sais e ácidos, que são responsáveis pela retenção líquida e aumento da pressão.

Medidas para melhorar a microbiota intestinal - e consequentemente a saúde do coração

Sabemos que há muito para descobrir sobre a conexão entre intestino e o coração, mas, como vimos, já se tem conhecimento de que processos relacionados às bactérias intestinais têm relação a um maior risco de eventos cardiovasculares.

Assim, é preciso reafirmar a importância de um acompanhamento médico para o coração daqueles que têm doenças inflamatórias intestinais. Com esse cuidado é possível analisar com antecedência alterações cardiovasculares e diminuir os riscos de uma complicação grave.

É importante também manter uma combinação de cuidados, que incluem a modificação da dieta, a tomada de suplementos (sempre com orientação médica) e a adoção de medidas para uma vida saudável. Uma alimentação rica em fibras auxilia na melhora do trânsito intestinal, colabora no controle glicêmico e ajuda no controle do colesterol, impactando diretamente o intestino e o coração —assim como a prática de atividades físicas regular, evitar hábitos pouco saudáveis (a exemplo do consumo exagerado de bebidas alcoólicas e o tabagismo) e a redução do consumo de alimentos processados, condimentados, gordurosos ou com muitos açúcares.

Vale reforçar que, embora boas práticas alimentares sejam determinantes no acúmulo de gordura nos vasos sanguíneos, notadamente a microbiota intestinal é essencial na metabolização e eliminação de resíduos.

Quando desequilibrada, mesmo com uma dieta balanceada, pode favorecer o desenvolvimento da aterosclerose e o risco de infarto e AVC. Portanto, reconhecer o papel da microbiota intestinal é extremamente importante para a saúde do seu coração.