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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como a qualidade do ar afeta nossa saúde cardiovascular?

Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Imagem: Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo
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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

10/10/2021 04h00

A OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciou, no fim de setembro, limites mais rígidos para os principais poluentes atmosféricos, a primeira atualização das diretrizes para a qualidade do ar desde 2005. E não é difícil imaginar a razão.

Os dados revelam que a poluição só tem crescido e segue ampliando sua influência em diferentes aspectos da saúde, sendo responsável por cerca de 7 milhões de mortes prematuras por ano, além de causar danos sérios ao organismo e reduzir o tempo de vida de indivíduos saudáveis.

Os limiares se referem, sobretudo, aos chamados poluentes clássicos: as partículas transportadas pelo ar (material particulado), ozônio, dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre e monóxido de carbono. O fato é que cada vez que se respira em uma cidade grande, levamos para dentro do corpo uma combinação de poluentes, que podem entrar nos pulmões e até mesmo chegar à corrente sanguínea.

E se engana quem imagina que isso reflete apenas em mortes por complicações respiratórias. O coração está entre as principais causas. Segundo a OMS, na população adulta, a cardiopatia isquêmica e o AVC (acidente vascular cerebral) são as causas mais frequentes de mortes prematuras atribuídas à poluição do ar.

Também estão surgindo evidências de outros efeitos, como doenças neurodegenerativas e o diabetes, outro fator que tem forte influência no sistema cardiovascular. Para as crianças, os impactos incluem a diminuição do crescimento e das funções pulmonares, infecções respiratórias e asma grave.

Por isso, a morbidade atribuída à poluição atmosférica está hoje no mesmo nível de outros riscos sérios para a saúde, como a dieta insalubre e o tabagismo.

Poluição e o sistema cardiovascular

As consequências mais significativas da exposição aos diferentes poluentes para o coração envolvem resposta inflamatória pulmonar, alterações na coagulação, isquemia cardíaca (redução do fluxo sanguíneo para o coração impedindo que ele receba oxigênio suficiente), elevação da pressão arterial, alterações na frequência cardíaca (arritmias) e disfunção da anatomia do órgão. Essas alterações geradas aumentam, inclusive, o risco de um ataque cardíaco ou infarto agudo do miocárdio. E para isso temos alguns cenários possíveis.

Uma vez no sistema respiratório, os poluentes inalados podem causar uma inflamação intensa nos pulmões, além da constrição dos seus vasos. A consequência segue em efeito cascata: vasos mais estreitos reduzem a entrada do oxigênio no sangue; o coração passa a receber então menos oxigênio e começa a trabalhar mais para compensar; se sobrecarregado de forma contínua, crescem as chances de um ataque cardíaco.

A probabilidade de um infarto também fica maior quando a substância entra na corrente sanguínea. Primeiro, ela deixa o sangue mais viscoso, ampliando os riscos de formação de pequenos trombos (coágulos) nos vasos. Esses coágulos podem obstruir a artéria coronária, aumentando, consequentemente, a ameaça de um ataque cardíaco.

Há ainda outra forte possibilidade. Em resposta ao elemento estranho que está na corrente, as células de defesa do sangue começam a agir. Isso, por sua vez, favorece a aterosclerose —acúmulo de placas de gordura no interior das artérias coronárias—, podendo causar a redução do seu calibre ou até a interrupção do fluxo sanguíneo e, desta forma, desencadear um infarto agudo do miocárdio.

Realizado durante uma década na Universidade de Washington, com financiamento da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA), o Estudo Multiétnico de Aterosclerose do Ar (MESA Air), trouxe ainda mais evidências sobre a ligação entre a poluição do ar e a aceleração do processo de aterosclerose —e assim a probabilidade de eventos cardiovasculares.

De acordo com o levantamento, indivíduos saudáveis expostos à poluição por partículas do ar por um período prolongado apresentam quadros de envelhecimento prematuro dos vasos sanguíneos, uma acumulação mais rápida de cálcio na artéria coronária e assim quadros de aterosclerose acelerados, a ponto de alguns participantes terem a possibilidade de infarto aumentada. Os investigadores descobriram que quanto maior o nível de exposição, mais rapidamente a aterosclerose progride.

E os problemas não param por aí. Estudos recentes apontam uma alteração no tamanho das estruturas cardíacas em indivíduos expostos à poluição em concentrações altas. A exposição a poluentes —principalmente vindos dos automóveis movidos a gasolina ou diesel—, como o dióxido de nitrogênio ou o monóxido de carbono, provoca o aumento nas dimensões das duas cavidades ventriculares, esquerda e direita.

Localizados na parte inferior do órgão, os ventrículos são responsáveis por bombear o sangue para a artéria aorta (ventrículo esquerdo) e para a artéria pulmonar (ventrículo direito). Embora as alterações possam ser pequenas, não devemos descartá-las, uma vez que combinada a outros fatores, entre características genéticas, hábitos alimentares e estresse, essa mudança no tamanho dos ventrículos pode levar a um quadro de insuficiência cardíaca.

Queimadas: um fator de risco que merece atenção

Embora grande parte dos problemas quando falamos da poluição atmosférica seja em decorrência da queima de combustíveis usados em diversos setores —transporte, energia, indústria, agricultura, além das residências— é preciso destacar também os incêndios: as queimadas são outra fonte relevante de poluição.

De acordo com Centro Médico da UCLA - Universidade da Califórnia/EUA, a fumaça destes incêndios é potencialmente perigosa e exacerba condições cardíacas e pulmonares. Os poluentes presentes na fumaça são altamente tóxicos e têm efeitos agudos e crônicos.

A fumaça dos incêndios contém não só gases nocivos, como monóxido de carbono, mas também partículas finas, componentes pequenos o suficiente para viajar para os pulmões e a corrente sanguínea. E como já vimos acima, cenário que pode resultar em inflamação, coágulos de sangue e ataques cardíacos, entre outros problemas. Além disso, motiva a liberação do hormônio do estresse no corpo, o que eleva a pressão arterial, afeta o metabolismo da glicose, lipídios e insulina.

Um estudo de Pesquisadores do Departamento de Saúde da Califórnia e da Agência de Proteção Ambiental, publicado no Journal of the American Heart Association, analisou mais de 1 milhão de visitas a emergências durante 2015. Eles encontraram uma significativa ligação entre a exposição à fumaça e o risco de ataques cardíacos, derrames, agravamento da insuficiência cardíaca e embolias pulmonares.

No Brasil, uma pesquisa coordenada pela Fiocruz e pela ONG WWF avaliou o impacto da poluição emitida pelas queimadas na saúde da população. De acordo com o levantamento, 70% das internações hospitalares registradas de 2010 a 2020 em Mato Grosso, Pará, Amazonas, Rondônia e Acre têm relação com as altas concentrações de partículas de poluentes das queimadas na Amazônia. Segundo a pesquisa, a poluição do ar duplicou o risco de hospitalização (por diferentes complicações).

Sem chuvas volumosas temos ainda a baixa umidade do ar

E somada a poluição já conhecida das cidades e o aumento das queimadas (especialmente por conta do desmatamento acelerado), enfrentamos a que já é considerada a pior seca dos últimos 91 anos. Aí o cenário vira uma bola de neve: a seca só piora a dispersão de poluentes.

Quando enfrentamos longos períodos de pouca umidade, nossa saúde sofre mais do que imaginamos. Há riscos de desidratação, especialmente quando os níveis de umidade ao ar livre ficam muito baixos —de acordo com a OMS, a umidade ideal está na faixa entre 50 e 80%. O ar seco combinado à poluição deixa o organismo ainda mais suscetível às doenças virais e respiratórias, como a gripe e a pneumonia. A infecção causada por essas doenças pode alterar a frequência cardíaca, sobrecarregando o bombeamento de sangue pelo coração.

Além disso, assim que o organismo detecta a presença de agentes infecciosos, passa a produzir substâncias para tentar reagir. O problema é que essas substâncias são inflamatórias e nocivas ao sistema cardiovascular. Elas acabam na corrente sanguínea e, se o paciente já tiver alguma vulnerabilidade cardíaca, como comprometimento coronário, o processo é mais rápido e mais grave.

Existe ainda a possibilidade de uma doença viral gerar um processo de agressão ao músculo do coração e assim causar uma miocardiopatia, umas das causas mais comuns de insuficiência cardíaca (quando o coração não consegue mais bombear sangue suficiente para o resto do corpo) —quadro que também pode culminar em um infarto ou AVC. Por essa razão, a vacinação contra a gripe é tão importante, não só por evitar infecções respiratórias, mas também para proteger pessoas de eventos cardiovasculares.

Ações necessárias

Como dito, para aqueles que já têm alguma predisposição ou doença no coração, a probabilidade dos problemas surgirem em exposição aos poluentes são maiores, mas há registros de casos de eventos cardiovasculares inclusive em indivíduos sem sintomas ou fatores associados.

O fato é que nenhum de nós está completamente protegido da exposição à poluição do ar. Ela está presente, em maior ou menor concentração, nos mais diferentes ambientes. O Brasil tem, portanto, grandes desafios para reduzir a poluição atmosférica: o controle das queimadas, a geração de energia limpa e o investimento na redução de emissão de poluentes.

Isso só para citar algumas ações. Agora nos resta contribuir e cobrar que isso seja feito. Os riscos para a saúde, como vimos, se nada for feito daqui para frente, são grandes!