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Paulo Chaccur

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Rir faz muito bem à saúde do coração, é de graça e não tem contraindicação

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

15/08/2021 04h00

Você já deve ter ouvido muito por aí que "rir é o melhor remédio" para grande parte dos nossos problemas. Mesmo que às vezes pareça frase de livro de autoajuda, acredite, é verdade! E talvez mais até do que um remédio, é possível dizer que se trata de um eficiente método de prevenção para diversas doenças, inclusive as cardiovasculares.

É fato que o cenário em que vivemos atualmente não está fácil com tantas notícias preocupantes na economia, política e, especialmente, em função do coronavírus. Porém, mesmo em meio as dificuldades, encontrar motivos para sorrir pode valer a pena.

A maneira como reagimos aos episódios do dia a dia interferem não só na nossa saúde mental, mas também têm reflexos no corpo. Ter um ataque de riso, daqueles que enchem os olhos de lágrimas, traz uma série de benefícios para o coração. E há respaldos científicos que validam isso.

Estudos realizados ao longo dos últimos anos apontam que o riso e o bom humor atuam, por exemplo, na melhora da ventilação pulmonar, função vascular e circulação sanguínea. Quando damos uma boa gargalhada diversos estímulos são gerados no organismo, provocando desde alterações na produção de hormônios até mudanças biológicas no sistema cardiovascular.

Rir faz muito bem ao coração!

Como se sabe, muitas das doenças e problemas que afetam o coração são causados por um estreitamento ou obstrução dos vasos sanguíneos, a aterosclerose. Pois saiba que gargalhar promove o relaxamento das paredes das artérias, efeito que se prolonga por até 45 minutos depois da risada. Artérias relaxadas ficam mais flexíveis e dilatadas, permitindo um melhor fluxo sanguíneo.

O ato de sorrir (com vontade, claro!) alivia a tensão física e o estresse, o que ajuda a reduzir a produção de hormônios, como o cortisol e a epinefrina, substâncias que estimulam o ganho de peso e a obesidade, além de uma série de reações inflamatórias que levam ao acúmulo de gordura e colesterol nas artérias coronárias, a constrição desses vasos sanguíneos e, por consequência, a riscos de AVC (acidente vascular cerebral) e infarto do miocárdio.

Quando rimos, o ritmo cardíaco aumenta e respiramos profundamente. Isso significa que mais sangue oxigenado passa a circular pelo corpo, melhorando a função vascular. Podemos dizer ainda que o riso é um exercício para o coração, especialmente para aqueles que não conseguem realizar outras atividades físicas. Ele impulsiona o bombeamento do órgão e a queima de uma quantidade de calorias por hora semelhante ao de caminhar a um ritmo lento a moderado.

A vantagem de enxergar os pontos positivos

Mulher otimista, otimismo, alegria, felicidade - iStock - iStock
Imagem: iStock

De modo geral, aqueles que enxergam motivos para sorrir são também os que encaram a vida e os desafios do dia a dia com otimismo. E neste sentido, estudos já revelaram que emoções e pensamentos influem na química, nos hormônios e no funcionamento do organismo.

Eles podem exercer influência sobre o colesterol, o metabolismo, as doenças coronárias, a hipertensão, os problemas gástricos e de pele e o sistema imunológico. Um estudo realizado por especialistas da Universidade de Harvard e do Hospital Monte Sinai (EUA) aponta que o otimismo reduz em 35% o risco de sofrer um evento cardiovascular, como infarto ou AVC.

O otimismo está relacionado também com a longevidade, uma vez que pessoas que conseguem ver o lado bom das coisas tendem a ter uma vida mais longa e com mais qualidade. O que se tem observado é que ter uma mente positiva encoraja comportamentos saudáveis.

Geralmente, os otimistas são pessoas fisicamente ativas, que se preocupam mais com aquilo que colocam no prato e são menos propensos a fumar. O resultado é uma pressão mais controlada, melhores índices de massa corporal, níveis de açúcar e colesterol no sangue. O bom humor auxilia até na capacidade de resiliência. Pessoas bem-humoradas tendem a se adaptar e lidar mais facilmente com situações adversas.

Quer mais motivos para colocar um sorriso no rosto? Sorrir e manter o bom humor contribui para estimular e fortalecer o sistema imunológico (ao elevar o número de células produtoras de anticorpos), aumenta a energia e é ainda um antídoto para as dores.

Diversos levantamentos apontam que dar uma boa risada ajuda a reduzir a sensação de dor. Depois do riso, hormônios como endorfina e serotonina são liberados na corrente sanguínea, o que proporciona bem-estar.

Por que a gente chora de tanto rir?

Um estudo realizado por especialistas da Universidade de Yale (EUA) avaliou a razão pela qual experimentamos certas reações físicas em situações emocionais. Segundo o levantamento, evidências sugerem que o cérebro tem dificuldade em distinguir entre as emoções intensas. Isso porque tanto o choro como o riso são controlados pela mesma área —a amígdala registra a emoção e envia um sinal ao hipotálamo, o responsável por regular essas emoções e sinalizar o sistema nervoso.

No entanto, o hipotálamo não diz ao sistema nervoso o que exatamente experimentou. Então choramos quando gargalhamos porque o corpo está procurando retomar um nível regular de funcionamento, em resposta ao forte estímulo —e ambas as reações, rir e chorar, podem ser desencadeadas para expressar emoções intensas.

Há ainda indícios de que o choro durante uma boa risada acontece devido à pressão em torno dos canais lacrimais. Estas lágrimas, chamadas reflexas, ocorrem também quando os olhos entram em contato com algo irritante, como vento ou uma cebola recém-cortada.

Rir não tem preço nem contraindicação

Claro que não basta sorrir ou manter o pensamento positivo para ter uma boa saúde cardiovascular. É preciso cuidados com a alimentação, redução do estresse, a prática de exercícios e hábitos de vida saudáveis. Devemos considerar um conjunto de fatores para a formação de uma doença, como a genética, aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

Nem ao menos negar ou negligenciar tudo que está acontecendo no mundo ou fingir que estamos sempre bem. Sorrir e manter o bom humor não significa uma alegria permanente e de aparência. Porém, podemos tentar nos cercar de uma pitada de humor, ler ou assistir coisas que nos façam dar boas gargalhadas, conversar e manter por perto quem nos traz alegria, procurar enxergar perspectivas favoráveis nas situações do cotidiano e ter em mente que tudo passa, inclusive os momentos difíceis.

Ser saudável não significa apenas não apresentar doenças. A saúde é um estado geral de bem-estar físico, mental e social. Então que tal começar agora? Abra um sorriso! Quem busca viver de bem com a vida tem o coração mais saudável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL