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Paulo Chaccur

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Surpresa! O que acontece no nosso corpo quando somos surpreendidos?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

04/07/2021 04h00

A surpresa é um sentimento de reação. Surge a partir de um acontecimento, um fato, alguma coisa inesperada e repentina. Pode ser positiva ou negativa, causar admiração ou espanto: a chegada ou a morte de alguém, um prêmio recebido, uma comemoração, uma notícia importante... É um estado passageiro, mental e fisiológico, experimentado pelo corpo como resultado deste imprevisto.

Podemos dizer que as surpresas têm diferentes níveis de intensidade e, dependendo do caso, causam até um congelamento físico, uma paralisia de 1/25 de segundo. Sabe aquele instante em que, no susto, você trava? São milésimos de segundo que parecem durar uma vida, mas nos impulsionam a ter alguma reação corporal: ficar ou fugir? Lutar ou correr?

Quando somos surpreendidos, de maneira agradável ou desagradável, nossas emoções se intensificam em até 400%. Se formos pegos de surpresa positivamente, o efeito posterior será prazeroso e irá desencadear de maneira mais intensa a sensação de felicidade, contentamento, êxtase e alegria.

Da mesma forma, quando algo negativo acontece inesperadamente, os sentimentos de raiva, medo, desespero ou tristeza são acentuados.

Como a surpresa é percebida pelo cérebro

A princípio não importa se você é atingido por algo que gere muita raiva ou extrema felicidade. Apesar de opostos, são estados de excitação que ativam processos na mesma região do cérebro. Ou seja, as reações do organismo tanto para as surpresas boas quanto para as ruins, em um primeiro momento, são as mesmas, de alerta.

Isso porque o elemento surpresa está, por natureza, associado a algo que você não tem registrado na memória ou não espera. Quando o cérebro recebe o sinal através de mensageiros químicos (os neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina), um processo de reconhecimento de objetos e situações já vividas é ativado para poder atribuir um valor emocional à circunstância. Desta forma, nosso comportamento é orientado, a partir de uma avaliação de risco/recompensa. Tudo em segundos!

À medida que o corpo não consegue classificar instantaneamente o estímulo recebido como positivo ou negativo (entre uma ameaça real ou percebida), ele simplesmente reage com objetivo de nos proteger de uma situação que possa colocar em risco à vida, o funcionamento do metabolismo.

No cérebro, é o sistema límbico o responsável por receber estas informações externas. A partir daí, um complexo sistema nervoso e humoral é ativado e, através de reações físicas e químicas, alterações são feitas para manter ou reequilibrar o funcionamento de vários órgãos, incluindo o coração. Isso quer dizer então que surpreender alguém com uma festa, por exemplo, mesmo na melhor das intenções, pode causar algum problema? Pode e sério! Vamos entender o porquê adiante.

Emoções e o coração

O fato é que o coração está em constante diálogo com o cérebro. Diante de uma surpresa, como falado acima, seja ela positiva ou negativa, dois processos são ativados no organismo. Um que envia sinais elétricos ao músculo cardíaco, influenciando no ritmo dos batimentos. O outro, com a produção de diversas substâncias químicas (em geral hormônios, como a adrenalina), que terão impacto nas estruturas do coração.

A circulação sofre mudanças repentinas e intensas no período de 3 a 5 segundos, a frequência cardíaca pode aumentar até o dobro do normal, e, dentro de 10 a 15 segundos, a pressão arterial chega a ser duplicada.

Diante deste cenário, os vasos sanguíneos se contraem para bombear mais sangue para os músculos e para o cérebro. Pode ocorrer também o aumento da frequência respiratória, dos níveis de glicose e a sudorese. Tudo para que o corpo esteja preparado para enfrentar um exato instante.

Assim, emoções intensas, como uma surpresa, podem desencadear um ataque cardíaco, especialmente em indivíduos suscetíveis, que já sofrem de outras condições cardíacas, têm predisposição ou fatores de risco para tal —como hipertensão, diabetes, obesidade, entre outros.

A intensificação do trabalho cardíaco e o estreitamento dos vasos ocasionam o infarto, sobretudo se já houver alguma artéria coronariana (aquelas que levam sangue ao coração) semiobstruída —com o entupimento total, o fluxo de sangue é interrompido e o infarto acontece.

Muitas vezes o indivíduo não tem conhecimento do problema e só descobre por conta de uma situação assim, após o estresse gerado pelo fato surpreendente.

Síndrome do coração partido

O choque emocional súbito pode levar ainda a uma condição que "imita" o clássico ataque cardíaco, mas com gravidade muito menor. A chamada síndrome do coração partido (ou Takotsubo) também gera uma insuficiência cardíaca, porém, reversível.

Neste caso, o excesso de adrenalina e outras substâncias químicas liberadas na corrente sanguínea em decorrência do estresse emocional repentino, ao invés de artérias bloqueadas (como no infarto), causa uma fraqueza no músculo cardíaco. O órgão mais fraco fica —temporariamente— também sem força suficiente para bombear o sangue para o corpo.

Ocorre então um acúmulo de sangue dentro do ventrículo esquerdo, o que confere ao órgão um formato abaulado, que dá a impressão do "coração estar partido ao meio", e por isso o nome da síndrome.

Os sintomas são semelhantes aos de um ataque cardíaco. O coração geralmente se recupera sozinho, no entanto, é importante sempre buscar atendimento médico para o diagnóstico.

Surpresa é legal, mas sem exagero

Ninguém é surpreendido todos os dias —pelo menos não deveria e por questões de saúde! Estas emoções intensas, se frequentes, criam uma reação em cadeia no corpo: os níveis de hormônios de estresse aumentam, os vasos sanguíneos se contraem e tem sua integridade comprometida, a pressão arterial sobe, os batimentos cardíacos ficam alterados e o sistema imunológico enfraquecido. O coração é obrigado a trabalhar mais.

Por isso, vivenciar constantemente uma situação surpreendente pode gerar tensão e consequências mais graves para a saúde cardiovascular. Porém, as chances de problema são grandes quando isso ocorre de maneira constante e não esporadicamente.

Até porque, vale reforçar, que ser surpreendido positivamente intensifica os sentimentos de afeto, compaixão, amor, carinho e felicidade, quadro que contribui para a eficiência do coração e o equilíbrio do sistema nervoso.

A surpresa pode ainda nos trazer mais vitalidade ao promover a atuação conjunta do cérebro, do coração e do metabolismo como um todo. Vale então aquela velha regrinha que sempre digo por aqui: para manter a boa saúde do coração, melhor evitar todo e qualquer exagero, ok?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL