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Paulo Chaccur

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bariátrica: cirurgia pode ter efeitos positivos muito além da perda de peso

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

23/05/2021 04h00

Estar acima do peso, como sabemos, é um dos fatores de risco para o coração. E as complicações se multiplicam quando a questão vai além de uns quilos a mais. A obesidade é uma doença grave, que merece muita atenção.

Isso porque o excesso de gordura corporal está diretamente ligado à saúde e o funcionamento do nosso organismo. Certos graus de obesidade podem comprometer seriamente órgãos como fígado, rins, pulmões e o coração, além de outros aspectos físicos e emocionais.

De modo algum devemos minimizar o problema. Em certos casos, apenas dietas, exercícios e até o uso de medicamentos não são suficientes. Dependendo do quadro é preciso buscar alternativas, especialmente quando há comorbidades e outros comprometimentos.

Muitas vezes nem mesmo as melhores intenções e fortes motivações são suficientes para as pessoas perderem peso. Em situações assim, a saída pode ser uma cirurgia bariátrica, uma abordagem mais simples, segura e eficaz do que na década de 1990, quando surgiu.

A cirurgia bariátrica

A bariátrica é um tipo de cirurgia no qual o sistema digestivo é alterado. O objetivo é diminuir a quantidade de comida tolerada pelo estômago e/ou modificar o processo natural de digestão, de forma a reduzir a quantidade de calorias absorvidas, facilitando assim a perda de peso.

Em geral, é uma opção para aqueles com obesidade grau 3 ou obesidade mórbida, ou seja, que apresentam IMC (Índice de Massa Corporal) 40 ou mais (o IMC traz a relação entre peso e altura) e que não apresentaram resposta ao tratamento clínico.

Pode também ser recomendada para indivíduos com graus menores de obesidade: IMC de 30 a 34,9 (obesidade grau 1) ou IMC de 35 a 39,9 (obesidade grau 2), porém, que têm sérios problemas de saúde relacionados ao peso, entre eles diabetes tipo 2, pressão alta ou apneia do sono grave.

O coração do obeso

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Antes de falarmos especificamente da relevância do procedimento, primeiro vamos entender as consequências da obesidade para o sistema cardiovascular. Trata-se de um fator de risco para diversas doenças que podem causar mudanças importantes na estrutura e no tamanho do coração e comprometer o seu funcionamento.

Os quadros mais preocupantes são de pessoas em que a gordura está acumulada, predominantemente, na região abdominal, o que engloba abdome e cintura —e até peito e rosto. Nesses casos, as chances do desenvolvimento de doenças e fatores que afetam o coração são mais altas, com maior probabilidade de aumento da glicemia, de colesterol e triglicérides (dislipidemia), apneia do sono e hipertensão. Isso quando eles não surgem simultaneamente, agravando ainda mais o problema.

Além disso, a gordura acumulada contém células capazes de produzir substâncias inflamatórias que se alojam com facilidade na parede das artérias, formando placas de gordura (aterosclerose). O acúmulo destas células gordurosas eleva o risco de entupimento das artérias, uma vez que as placas podem dificultar ou bloquear a passagem do sangue e, por consequência, desencadear a doença arterial coronária (DAC), inclusive com possibilidade de um infarto ou acidente vascular cerebral (AVC).

A obesidade grave causa também aumento no volume total de sangue e no débito cardíaco (volume de sangue bombeado pelo coração por minuto) como resultado de uma demanda metabólica crescente. Em outras palavras, quando você carrega mais peso, o coração tende a precisar trabalhar mais para bombear o sangue, aumentando carga e tensão no órgão.

Ainda como resultado do excesso de peso, podemos enumerar aqui a insuficiência cardíaca, hipertrofia ventricular esquerda, arritmias e fibrilação atrial, entre outras consequências.

O coração sai ganhando

Portanto, a cirurgia bariátrica permite que pessoas com obesidade grave ou mórbida obtenham, mais do que a redução do peso corporal, benefícios em relação aos fatores de risco cardiovasculares e complicações que envolvem a saúde do coração.

Um estudo do Instituto de Pesquisa HCor (Hospital do Coração) reforça a ação da bariátrica nas enfermidades que compõem a síndrome metabólica, como diabetes e hipertensão. O levantamento aponta que, entre os pacientes submetidos ao procedimento, 83,7% conseguiram reduzir o número de medicações e manter a pressão controlada —dentre eles, 51% mantiveram a pressão sem nenhuma medicação.

Outra pesquisa, realizada pela Universidade de Medicina da Geórgia (EUA), mostra que a perda de peso gerada pela bariátrica está associada a uma estabilização ou reversão parcial das alterações cardíacas causadas pela obesidade.

Segundo o estudo, os pacientes que passaram pela cirurgia tiveram, além da redução na pressão arterial, melhora no colesterol ruim e na resistência a insulina, controlando também o diabetes tipo 2.

Neste sentido, há uma série de investigações realizadas ao redor do mundo que sugerem que pacientes com doença cardiovascular e obesidade grave submetidos à bariátrica têm menos eventos cardiovasculares importantes do que as pessoas com condições semelhantes que não foram submetidas à cirurgia.

O procedimento vem sendo associado, por exemplo, a uma melhora clinicamente significativa na função sistólica (de contração) do ventrículo esquerdo em indivíduos com cardiomiopatia grave, como aqueles que aguardam transplante cardíaco.

Ou seja, a cirurgia bariátrica pode ser uma opção para o tratamento de obesos que apresentam problemas cardíacos e/ou fatores envolvidos, principalmente os de mais difícil controle. O tratamento ajuda a reduzir assim as chances e a gravidade de complicações cardiovasculares no futuro.

Relação com a autoestima

Outro ponto importante quando o assunto é a obesidade mórbida diz respeito ao emocional. A doença tende a ser devastadora a tudo que está relacionado à vida interpessoal e aos relacionamentos, principalmente quando se é jovem.

O fato é que estar acima do peso e ser possível alvo de bullying pode provocar um quadro de autoestima baixa, ansiedade, depressão e isolamento social, fatores que aumentam o risco de distúrbios cardiovasculares.

Sentimentos negativos desencadeiam a liberação de hormônios no corpo que estimulam a vasoconstrição (redução do calibre dos vasos sanguíneos). Em consequência, as artérias vão diminuindo o seu potencial de adaptação, o que gera a elevação da pressão arterial e dos batimentos cardíacos —fatores que obrigam o coração a trabalhar mais.

Desta forma, quando as emoções negativas agem de forma continua no organismo, elas podem servir de gatilho para uma crise hipertensiva, arritmia ou até um infarto do miocárdio.

A cirurgia bariátrica NÃO é para todos!

Bariátrica - iStock - iStock
Imagem: iStock

Além do IMC, é preciso atender a certas diretrizes para se qualificar para a realização de uma bariátrica. Os pacientes passam por um processo de triagem. Isso porque é necessário considerar também a disposição em fazer mudanças permanentes na alimentação, na rotina de atividades físicas e na realização de um acompanhamento para monitorar nutrição, estilo de vida, comportamento e condições médicas, a fim de garantir o sucesso da cirurgia a longo prazo.

E, embora, como vimos, possa oferecer muitos benefícios, é importante considerar que o procedimento traz riscos e a possibilidade de efeitos colaterais, que variam, por exemplo, entre reações à anestesia, infecções, hérnias, coágulos sanguíneos e desnutrição.

Por isso, alguns médicos são relutantes em recomendar à bariátrica, especialmente para pessoas com doenças cardiovasculares ou que já tiveram um ataque cardíaco.

Tal pensamento provém, particularmente, do passado, quando a cirurgia era bem mais invasiva e complexa e exigia uma longa recuperação. Hoje há diferentes tipos de bariátrica, escolhidas pelo especialista em conjunto com o paciente, de acordo com as condições clínicas e uma análise de risco-benefício realizada considerando as singularidades de cada um.

Estimativas apontam que apenas 1% das pessoas que poderiam passar por uma cirurgia bariátrica se submetem a ela. A subutilização é atribuída, além da resistência por parte de alguns médicos, também por questões dos pacientes: medo da cirurgia e suas consequências, falta de dinheiro ou liberação dos planos de saúde e até receio do julgamento da escolha de um "caminho mais fácil". Muitos apontam o sentimento de fracasso ao optarem pela cirurgia.

Porém, reforço: há casos em que a perda de peso em nada tem a ver com falta de força de vontade. Esse estigma pode ser falso e impede muitas pessoas de, não só conseguir a necessária perda de peso, como também a melhora significativa da saúde física e mental.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL