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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Entenda qual a relação entre a tireoide e as doenças do coração

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

11/04/2021 04h00

Sem uma razão clara, você começa a sentir cansaço, sono em excesso, desânimo, batimentos cardíacos acelerados, ganho de peso inexplicável. São esses alguns dos sintomas que podem indicar um problema na sua tireoide, glândula que tem formato parecido ao de uma borboleta e está localizada na parte frontal do pescoço, logo abaixo ao pomo de adão —o popular "gogó".

Apesar de pequena, a tireoide tem uma enorme responsabilidade: é dela a tarefa de produzir e regular T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), hormônios importantes para o funcionamento do nosso corpo, inclusive de órgãos essenciais, como o coração, o cérebro, o fígado e os rins.

Os hormônios da tireoide são fundamentais para garantir o crescimento e o desenvolvimento de crianças e adolescentes, além de manter o metabolismo de um adulto. Eles atuam, por exemplo, na regulação do peso, na memória e concentração, nos ciclos menstruais e fertilidade, no humor e controle emocional, no trânsito intestinal e até no ritmo do coração.

O bom funcionamento da tireoide é, portanto, primordial para os processos metabólicos do organismo. Disfunções na glândula podem causar complicações que comprometem a saúde e a qualidade de vida. O problema surge quando ela não funciona de maneira correta e acaba liberando hormônios em quantidade insuficiente, causando o hipotireoidismo, ou em excesso, o que tem como consequência o hipertireoidismo.

E o que o coração tem a ver com isso?

A disfunção da glândula tireoide pode afetar o coração de diversas maneiras e até elevar o risco de eventos cardiovasculares, como aterosclerose (acúmulo de placas de gordura nas artérias) e o infarto, mesmo em pessoas jovens.

Os hormônios por ela liberados possuem ações diretas e indiretas sobre o órgão, e tanto o excesso dessas substâncias (hipertireoidismo) como a deficiência (hipotireoidismo) influenciam no sistema cardiovascular, em especial na função cardíaca, nos vasos sanguíneos e nos níveis de colesterol.

A força de contração do músculo e a frequência dos batimentos cardíacos são alguns dos fatores que sofrem a interferência dos hormônios tireoidianos.

Hipotireoidismo

Glândula tireoide - iStock - iStock
Imagem: iStock

A deficiência na produção ou na ação dos hormônios da tireoide acarreta na redução generalizada dos processos metabólicos. O coração bate mais devagar, ocorre a constrição dos vasos sanguíneos e aumento da pressão arterial. As pessoas com hipotireoidismo podem chegar a uma hipertensão, especialmente da "mínima" ou diastólica (pressão observada no momento do relaxamento do músculo cardíaco).

Outro aspecto característico no caso do hipotireoidismo é o aumento dos níveis de colesterol total e do LDL (o chamado colesterol ruim), além da possibilidade de elevar também os níveis de triglicérides, situações adversas para o coração e o sistema cardiovascular. Em casos mais graves é possível que o indivíduo sofra insuficiência cardíaca, infarto do miocárdio e até a morte.

Dentre os sintomas, ainda temos: retenção de líquido e edemas, baixa resistência ao esforço físico, ganho de peso repentino ou dificuldade para emagrecer, irritabilidade, fadiga constante, sonolência e lentidão, intolerância ao frio, rouquidão, constipação intestinal, fraqueza, dores musculares e nas articulações, paresias (paralisia que não se perde inteiramente a sensibilidade e o movimento), pele seca, queda de cabelos, unhas quebradiças, redução da libido e infertilidade, diminuição da memória, desânimo e depressão.

Hipertireoidismo

Já em casos de hipertireoidismo, devido ao estímulo provocado pelos hormônios tireoidianos no organismo, os tecidos passam a utilizar o oxigênio mais rápido que o normal e ocorre uma liberação maior de produtos metabólicos. Esses efeitos ampliam a vasodilatação e, consequentemente, o fluxo de sangue, elevando também o débito cardíaco (volume total de sangue bombeado pelo ventrículo esquerdo por minuto).

Há um efeito direto então sobre a excitabilidade do coração, o que aumenta a frequência dos batimentos. O crescimento da atividade enzimática gerado pelos hormônios da tireoide provoca uma ampliação da força de contração cardíaca. O coração passa assim a trabalhar com mais intensidade, causando o desgaste do órgão.

Nesses casos, crescem as chances de insuficiência cardíaca, dilatação do coração, palpitação e arritmias (como a fibrilação atrial), AVC (acidente vascular cerebral) e eventos trombóticos. Esses indivíduos também podem apresentar hipertensão arterial, especialmente da "máxima" ou sistólica (pressão observada no momento da contração do coração).

Outros sintomas frequentes são: estado de alta excitabilidade, exoftalmia (olhos saltados), redução da sudorese, intolerância ao calor, perda de peso ligeira a extrema, fraqueza muscular, diarreia, fadiga extrema acompanhada de insônia, tremor nas mãos, nervosismo ou outros transtornos psíquicos.

Como descobrir uma disfunção na tireoide?

Ultrassom de tireoide - iStock - iStock
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Em ambas as situações, o volume da glândula pode aumentar, o que chamamos de bócio. Além disso, em geral, o hipotireoidismo afeta o coração de forma mais lenta do que nos casos de hipertireoidismo.

Vale reforçar também que as disfunções na tireoide podem ocorrer com qualquer pessoa e em diferentes fases da vida, inclusive em crianças e até neonatos. No entanto, mulheres acima dos 40 anos e homens com mais de 60 anos são mais suscetíveis.

Não há um consenso sobre suas causas, mas alguns fatores são tidos como desencadeadores dos distúrbios, como malformações congênitas, genética, envelhecimento, anticorpos que destroem a glândula, estresse emocional, remoção cirúrgica, deficiência alimentar (falta de iodo), uso de medicações para o tratamento de câncer ou hepatites virais e uso de anticonvulsivantes.

As alterações no funcionamento da tireoide não apresentam sintomas exclusivos, o que pode gerar confusão e atraso na busca por atendimento médico. As disfunções são simples de se detectar. O diagnóstico é feito através de um teste de dosagem do TSH (hormônio fabricado pela hipófise que controla as reações necessárias para a formação e liberação de T3 e T4).

O rastreamento pela dosagem do TSH é recomendado a cada cinco anos para homens acima dos 65 e mulheres com mais de 35. Por causa da elevada incidência de hipotireoidismo em idosos, a triagem anual é indicada para aqueles que já atingiram os 70 anos.

O exame também é recomendado para recém-nascidos (o chamado Teste do Pezinho) e gestantes. No caso de pacientes com fatores de risco para doenças da tireoide, o teste deve ser feito com mais frequência, conforme a orientação de um especialista.

Esse é o único teste específico para diagnosticar as disfunções da glândula tireoide e o risco de doenças. A triagem é muito eficaz e pode ser fundamental na prevenção dos efeitos adversos sobre o sistema cardiovascular, assim como para a normalização do metabolismo em geral. Por isso, em caso de dúvidas ou sintomas suspeitos, procure seu médico para avaliação.