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Paulo Chaccur

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Quais os riscos que a gestação pode trazer para o coração da mulher?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

14/02/2021 04h00

Mulheres que passaram por problemas reprodutivos ou complicações na gravidez apresentam maior probabilidade para as doenças cardiovasculares. A descoberta é de cientistas da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Segundo os pesquisadores, aborto espontâneo, natimorto (a morte de um feto após 20 semanas de gestação) ou um nascimento prematuro chegam até a dobrar os riscos.

O estudo, publicado no ano passado no British Medical Journal, ainda precisa de aprofundamentos e mais análises, mas serve de alerta. O que os pesquisadores apontam é que esta relação entre saúde reprodutiva e a cardíaca ocorra por consequência de aspectos que aumentam as chances complicações na gravidez.

Isso pode estar ligado, por exemplo, a um histórico médico familiar, desequilíbrios hormonais, menarca e menopausa precoce, genética ou outros fatores de risco para eventos cardiovasculares, como obesidade, diabetes, colesterol e pressão alta.

De acordo com o levantamento, a pré-eclâmpsia durante a gravidez (aumento da pressão arterial) eleva em quatro vezes o risco de insuficiência cardíaca —quadro em que o coração não consegue bombear sangue suficiente para o resto do corpo. Para gestantes com diabetes ou hipertensão, o risco de problemas cardíacos é 50% maior.

O fato é que a gravidez por si só sobrecarrega o organismo da mulher, que passa por uma série de alterações fisiológicas, especialmente no sistema cardiocirculatório, respiratório e gastrintestinal, além das metabólicas e hematológicas. O coração da mãe nesse período precisa trabalhar por dois.

Alterações no coração durante a gravidez

A gestante apresenta naturalmente um aumento da frequência cardíaca para manter as necessidades do seu organismo e do feto. Porém, uma das mais importantes modificações sobre o sistema cardiocirculatório é, sem dúvida, o aumento do débito cardíaco, ou seja, o volume de sangue bombeado pelo coração por minuto. O volume passa de 4 litros de uma pessoa normal para até 8 litros de sangue circulando pelo corpo.

E o responsável pela circulação é o coração, que vai ter que trabalhar para fazer com que esse novo volume sanguíneo se movimente pelo organismo da gestante, a fim de fornecer oxigênio e nutrientes à placenta e ao feto.

À medida que o coração trabalha mais, a frequência cardíaca em repouso vai de 70 pulsações por minuto para 80 ou até 100. Por isso, durante a gestação, a mulher percebe o coração mais acelerado, assim como falta de ar e cansaço, uma vez que o músculo cardíaco bate mais rápido, mesmo em repouso.

É possível ainda sentir um leve desconforto ao caminhar, subir escadas ou realizar atividades que exijam certo esforço físico. São pequenas palpitações que não chegam a causar dor no peito e que desaparecem após o parto.

E no caso de a gestante ter alguma doença no coração?

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Imagem: Getty Images

Assim, é importante que a saúde cardiovascular da mulher esteja bem para conseguir atender de forma saudável as novas necessidades trazidas pela gravidez. Isso quer dizer um coração sem disfunção do músculo, problemas de estreitamento ou vazamento de válvula cardíaca, por exemplo.

E embora a presença de doenças cardíacas durante a gestação ocorra em apenas entre 1% a 4% das mulheres, a cardiopatia é considerada a causa não obstétrica mais comum de mortalidade materna.

As alterações geradas no organismo nessa fase podem trazer à tona problemas não diagnosticados ou até desencadear e/ou agravar uma condição cardiológica. No Brasil, a doença reumática é a causa mais frequente de cardiopatia na gravidez e sua incidência é estimada em 50% dos casos de eventos cardiovasculares em gestantes.

O grau de risco de uma doença cardíaca para a gestação é dado ao avaliarmos a dinâmica da função do coração. Após diagnóstico, é possível identificar que lesão efetivamente tem o coração e quais possíveis consequências durante a gravidez.

Por isso, quando temos um cenário de cardiopatia é preciso uma análise criteriosa para evitar riscos tanto para a mãe quando para a criança que está em desenvolvimento.

Que problemas podem ocorrer?

Os riscos dependem da natureza e da gravidade do evento cardíaco. Aqui vamos listar alguns para exemplificar. Primeiro, podemos mencionar problemas no ritmo do coração. Trata-se de pequenas anormalidades até comuns durante a gravidez, como dito acima.

Porém, é preciso atenção e avaliação médica, já que existe a possibilidade da evolução e agravamento do quadro, como no caso de uma fibrilação atrial.

Há também disfunções em que a questão está nas válvulas cardíacas. Ter uma válvula artificial (prótese) ou natural, porém, com alterações, insuficiência ou má formação pode aumentar o risco de complicações. Se as válvulas não estiverem funcionando corretamente, é possível ter dificuldade em tolerar o aumento do fluxo sanguíneo que ocorre durante a gravidez.

Válvulas artificiais ou anormais também elevam as chances de infecção, a endocardite. Além disso, o estreitamento da válvula mitral ou da válvula aórtica podem representar risco de vida para mãe e para o bebê.

Hipertensão: riscos elevados para mãe e bebê

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Imagem: iStock

Segundo dados do Ministério da Saúde, a hipertensão na gestação é a principal causa de morte materna e perinatal no país. Entre seus principais riscos, ainda podemos mencionar possíveis alterações no crescimento e desenvolvimento fetal.

Por isso, a avaliação da pressão arterial é essencial e deve ter um acompanhamento rigoroso durante a gravidez, especialmente se a mulher já apresenta um quadro de hipertensão arterial sistêmica crônica.

A hipertensão arterial durante a gravidez pode variar de gravidade, como uma hipertensão gestacional, quando a pressão arterial é elevada, mas sem excesso de proteína na urina ou outros sinais de danos em órgãos, ou avançar para casos mais graves, evoluindo para uma pré-eclâmpsia (com presença de proteína na urina) ou até para a eclâmpsia, uma forma ainda mais grave da doença.

A eclâmpsia é caracterizada pela liberação, por parte do feto, de proteína na circulação materna que provocam uma resposta imunológica da gestante, agredindo as paredes dos vasos sanguíneos, causando vasoconstrição e aumento da pressão arterial.

Suas causas não são totalmente conhecidas. O que se sabe é que estão associadas à pressão alta. Entre os fatores de risco estão: quadros de hipertensão crônica, obesidade, primeira gestação, diabetes, histórico familiar e gravidez depois dos 35 e antes dos 18 anos.

Sobrepeso e obesidade

Mulheres que apresentam IMC acima de 25 a 29,9 kg/m2 (sobrepeso) ou 30 kg/m2 (obesidade) antes da gravidez têm risco de hipertensão e diabetes materno, gestação prolongada, abortamento, macrossomia fetal (recém-nascido com peso igual ou superior a 4.000 g), malformações, restrição de crescimento intrauterino, pré-eclâmpsia e necessidade de cesariana.

Por estas razões fica evidente a importância da avaliação e acompanhamento médico para discutir o ganho de peso, dieta e exercícios apropriados antes e, periodicamente, durante a gestação. Além disso, para mulheres com sobrepeso ou obesas é recomendado limitar o ganho de peso na gravidez.

O Institute of Medicine (EUA) usa as seguintes diretrizes, sobrepeso: ganho de peso limitado a < 6,8 a 11,3 kg; obesidade: ganho limitado a < 5 a 9,1 kg (< 11 a 20 lb). Acima desses valores o músculo cardíaco sofre sobrecarga e precisa trabalhar ainda mais para garantir as necessidades da mãe e do feto.

Antes de engravidar

É fundamental então que as futuras mamães conheçam as alterações naturais em seu organismo que podem sobrecarregar o coração. O ideal é que os cuidados cardiológicos antecedam a gravidez. Até porque da menarca à menopausa o perfil reprodutivo das mulheres está associado ao seu risco futuro de doenças cardiovasculares.

Por isso, reforço: toda mulher que deseja engravidar deve antes fazer um check-up completo, garantindo que sua saúde esteja normal. A realização de um ecocardiograma, por exemplo, pode evitar complicações futuras. Caso seja detectada uma alteração no coração, é possível realizar tratamento ou intervenção que solucione ou minimize ao máximo os riscos.

Infelizmente, muitas só percebem que possuem doenças cardíacas quando já estão grávidas. E isso ocorre em função do aumento do volume de sangue, o que leva ao início ou ao aumento de sinais que antes passavam despercebidos —certas cardiopatias, especialmente as congênitas, não têm sintomas evidentes.

Nesses casos, dependendo das circunstâncias, algumas mulheres são operadas até mesmo durante a gravidez. Com o avanço da medicina, o tratamento hoje pode ser minimamente invasivo, sem a necessidade de intervenções cirúrgicas. Porém, claro, os riscos são maiores.

E muitas pacientes questionam: mesmo com a cardiopatia, eu posso engravidar? Com acompanhamento pré-natal criterioso e sistemático da gestação, além dos tratamentos adequados, é possível, sim, uma mulher cardiopata engravidar, desde que a gravidade da doença não impeça a gestação e coloque em risco a vida da mãe e do bebê.

Vale reforçar ainda: mulheres que apresentaram complicações na gravidez devem ser monitoradas de perto para problemas cardíacos à medida que envelhecem. Estudos apontam inclusive que aquelas que têm histórico de hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia apresentam chances mais elevadas para o surgimento de eventos cardiovasculares após o parto e ao longo da vida. Assim, é importante que sigam avaliação e acompanhamento médico apropriados.