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Paulo Chaccur

Homens x mulheres: entenda por que risco para doenças cardíacas é distinto

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

31/01/2021 04h00

Pense e responda: o corpo de mulheres e homens é igual? Fazendo uma avaliação superficial, o que você diria? Pois se olharmos com atenção a estrutura física, já é possível imaginar que entre os corpos femininos e masculinos há diferenças anatômicas, fisiológicas e funcionais. Estas distinções biológicas se mostram presentes em diversos aspectos, perceptíveis ou não, tais como a estatura física, os pulmões, o cérebro, a estrutura musculoesquelética, o índice de massa corpórea e, como daremos foco aqui, o coração e os vasos sanguíneos.

Alguns destes sinais são bem característicos e importantes para diagnosticar, tratar e prevenir problemas. Isso porque certas doenças podem ter sintomas diferentes ou se manifestarem mais em homens ou mulheres. Assim, dar ênfase e conhecer as particularidades de cada um pode ser fundamental para a saúde de modo geral.

Características distintas

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O coração da mulher é ligeiramente menor do que o do homem —cerca de dois terços do tamanho—, assim como o peso do órgão e a quantidade de sangue que ele ejeta, uma vez que a superfície corpórea feminina também costuma ser menor. Isso acaba influenciando nos batimentos.

Por bombear menos volume de sangue por minuto a cada batimento (volume sistólico) e por apresentar diferenças no ventrículo esquerdo (a parte do coração responsável por bombear o sangue pelo corpo), a pulsação tende a ser maior do que nos homens. Pesquisas confirmam que as frequências cardíacas médias das mulheres são mais aceleradas.

Outra distinção está na circulação coronariana (dos vasos do coração). As artérias coronárias femininas são mais estreitas e, por influência de hormônios característicos das mulheres, a pressão arterial é mais baixa —só tende a ficar semelhante a dos homens com a chegada da menopausa.

Menopausa, um divisor de águas

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A menopausa, aliás, costuma ser um marco para a saúde feminina, visto que a partir deste período aumentam os riscos de eventos no coração. O fato é que, por natureza, durante seu período fértil, elas contam com os efeitos protetores do estrogênio, hormônio que estimula a dilatação dos vasos, otimizando o fluxo sanguíneo para o músculo do coração através das artérias coronárias. Ou seja, nessa época os riscos de um infarto ou do desenvolvimento da doença arterial coronária (DAC) são bem menores.

Porém, é preciso enfatizar: a proteção durante o período fértil não exclui completamente a possibilidade do surgimento de problemas cardiovasculares. É preciso analisar fatores genéticos e de risco, além de outras complicações, como a endometriose, a síndrome do ovário policístico e até o uso de incorreto de anticoncepcional.

As mulheres na pós-menopausa também estão mais sujeitas a uma súbita e incomum mudança na forma do músculo cardíaco, a chamada cardiomiopatia de Takotsubo ou "síndrome do coração partido", que ocorre em resposta a um forte estresse emocional. A condição é caracterizada por dores no peito e mudanças na atividade elétrica do coração que imitam um ataque cardíaco. Há também uma tendência do aumento do colesterol e fica mais difícil controlar a glicemia (nível de açúcar no sangue).

Infarto do miocárdio

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E por falar em ataque cardíaco ou infarto, aqui é preciso um parêntese. De um modo geral, o infarto do miocárdio é mais frequente em homens a partir dos 55 anos e nas mulheres após 65. No entanto, estimativas apontam que a probabilidade de uma mulher morrer de infarto é 50% maior quando comparada aos homens.

E qual a razão disso? Primeiro, como dito, o bloqueio ou entupimento das artérias ocorre pela combinação entre o calibre menor das artérias coronárias femininas com a presença e a probabilidade de aumento das placas de colesterol, fatores hormonais e, muitas vezes, o aumento da pressão arterial, diabetes, obesidade e tabagismo. Outro ponto relevante: a complicação para o sexo feminino geralmente não ocorre em um ponto só do coração, tornando o quadro mais grave.

Além disso, nos homens, o ataque cardíaco tem como principal causa a obstrução nas artérias coronárias. Já as mulheres podem até ter um infarto sem haver obstrução coronária significativa. Elas desenvolvem mais frequentemente a doença microvascular, ou seja, uma disfunção de artérias extremamente finas que se ramificam das coronárias e não podem ser vistas pelo cateterismo.

Os sintomas também podem apresentar variações. Neles, o infarto vem com os sinais clássicos e mais óbvios: dor no peito (irradiando para o braço), sudorese e palidez. No grupo feminino é mais comum a falta de ar, náusea ou vômito, suor e uma dor breve no abdome superior ou nas costas.

Assim, muitas acabam tendo um ataque cardíaco "silencioso", ou seja, sem um sintoma evidente ou mesmo confundem o infarto com outras questões. E adiar a busca por atendimento emergencial nestes casos pode ser fatal.

Não importa o sexo, todos devem se preocupar!

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O fundamental aqui é ficar claro que tanto para homens quanto para mulheres as doenças cardiovasculares merecem muita atenção e cuidado. De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil, elas são as principais causas de mortes, atingindo aproximadamente 30% do total. Por ano, cerca de 300 mil indivíduos sofrem infarto agudo do miocárdio (ocorrendo óbito em 30% desses casos). Estima-se que até 2040 haverá aumento de até 250% desses eventos no país.

Por isso, fica o alerta para a importância das avaliações cardiológicas periódicas, principalmente quando há fatores de risco envolvidos, como hipertensão, dislipidemia, diabetes, tabagismo, obesidade e sedentarismo, além do início da menopausa para as mulheres. A orientação no caso delas, quando não há fatores, sintomas e histórico familiar, é iniciar esse acompanhamento cardiológico entre 35 e 40 anos. Para os homens, a recomendação é a partir dos 35 anos.