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Paulo Chaccur

Feliz ano novo: atitudes para ajudar seu coração a começar 2021 em dia

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

03/01/2021 04h00

Em um ponto temos que concordar: 2020 não foi um ano fácil para ninguém! Imagina para o nosso coração?

Registramos um aumento no consumo de álcool, sedentarismo, consumo excessivo de gorduras e alimentos ultraprocessados, estresse do isolamento e home office, corações partidos com o crescente número de separações, empregos perdidos, negócios fechados, perdas de parentes e amigos por conta da covid-19... Isso sem falar da ansiedade gerada pelas incertezas trazidas pela pandemia.

No entanto, um novo ano chega trazendo esperança de que aos poucos as coisas começarão a melhorar. E neste ponto, é importante que cada um faça sua parte, cuidando daqueles que nos cercam e de nossa própria saúde, qualidade de vida e bem-estar. Por isso, te convido a fazer um balanço, avaliar sua rotina e assim deixar para trás hábitos ruins e tudo aquilo que não te faz bem. Vamos pensar no futuro e nos preparar para o "novo normal"?

Escolhas para um dia a dia melhor

Rotina estressante. Você se identifica e sabe o que é isso? Creio que muitos de nós estão há anos vivendo assim, com piloto automático ligado, girando pratinhos para dar conta de todas as demandas e obrigações do dia a dia. No entanto, as restrições e adaptações trazidas pelo coronavírus foram uma oportunidade para nos fazer refletir sobre como levamos nossas vidas.

Correria, pressão no trabalho, assédio moral ou emprego ruim, relacionamentos nocivos, tempo demais no trânsito, pouco tempo com a família e os amigos, horas excessivas no celular e na frente das telas, hobbies e momentos de lazer apenas no fim de semana. Tudo isso só ajuda a tornar a rotina cada vez mais desgastante. O resultado? Estresse lá no alto!

Em maior ou menor grau, ele está presente no cotidiano de todos. Porém, é preciso ficar atento. O estresse é tido como um inimigo do coração: gera desequilíbrios emocionais e fisiológicos, aumenta a pressão arterial, a frequência cardíaca e os níveis de colesterol ruim (LDL) e de hormônios que podem prejudicar o organismo. O cenário se agrava quando isso se torna frequente, podendo levar inclusive a um ataque cardíaco, angina ou derrame.

Portanto, desacelerar, buscar viver com mais qualidade, dar outro ritmo à rotina, abrir mais espaço ao lazer e o descanso, reavaliar prioridades, investir em planos e sonhos podem, de fato, refletir em benefícios reais em diferentes aspectos, que sem dúvidas vão contribuir para a redução do risco de desenvolver doenças cardíacas e eventos cardiovasculares.

E seu sono como anda?

Jovem mulher com sono, deitada, insônia, na cama, dormindo - iStock - iStock
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A qualidade do sono é outro ponto que merece ser revisto. Quando dormimos nossos batimentos cardíacos são reduzidos, assim como a pressão arterial, estado que permite ao organismo compensar energia.

Por outro lado, em casos de pouco sono profundo ou quando ele é fragmentado há um aumento da pressão arterial, amplificando o trabalho do coração e a possibilidade de aparecimento da doença coronária. Noites mal dormidas geram ainda cansaço, estresse e irritabilidade, estimulando a liberação de cortisol —hormônio que age no controle da pressão.

Por isso, dormir bem é tão importante quanto todos os outros cuidados recomendados para evitar problemas cardíacos. O sono (por um período de 6 a 8 horas) é reparador e ajuda a proteger a saúde do coração.

Qualidade na hora das refeições

Prato saudável - iStock - iStock
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Você deixa de lado os cuidados com a alimentação? Pois lembre-se: alimentos ricos em carboidratos e açúcares simples, gorduras saturadas e trans e sódio só nos fazem ganhar peso, aumentar o risco do desenvolvimento da hipertensão, colesterol e diabetes, além de estimular o processo de deposição de gorduras nas artérias do organismo, o que pode ser determinante para o aparecimento da doença arterial coronária, inclusive com risco de infarto e até de morte.

Uma alimentação rica em nutrientes pode garantir boa saúde, atuando na prevenção de doenças e fortalecimento do organismo. E quando pensamos na dieta mais indicada, especialmente para o sistema cardiovascular, a recomendação é que se busque equilíbrio e variedade.

Um prato de comida precisa ser colorido, com a ingestão de frutas e castanhas, verduras, legumes, derivados de leite, cereais e grãos integrais, carnes magras, aves e peixes. Junto a isso, hidratação! O consumo de água é importante para evitar o aumento da pressão sanguínea, prevenindo, também, a hipertensão.

Exercícios físicos

Pular corda, exercícios, aquecimento - iStock - iStock
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2020 mostrou que para mexer o corpo não precisamos de muito. Com a quarentena, descobrimos inúmeras possibilidades de adaptar treinos e atividades físicas para o ambiente que vivemos. Que tal então deixar definitivamente o sedentarismo para trás?

Os exercícios trazem uma série benefícios para a saúde. Eles retardam o aparecimento de problemas cardiovasculares, como a doença arterial coronária, e melhoram o controle da pressão arterial e dos níveis de glicemia em pacientes diabéticos.

A prática regular de atividades físicas contribui ainda para a saúde dos ossos, na produção de serotonina (o hormônio da felicidade), para aumentar os níveis de energia, na manutenção do peso e a reduzir alguns sintomas associados ao envelhecimento, como a perda de massa muscular.

Hábitos

Cigarro e bebidas alcoólicas fazem parte do seu dia a dia? Saiba que fumantes correm 70% mais risco de sofrer um infarto em comparação àqueles que não fumam. Isso porque o cigarro promove o depósito de colesterol na parede das artérias, além de sua oxidação, o que favorece a formação de coágulos sanguíneos que dificultam a circulação e podem provocar um derrame cerebral.

Já no caso do álcool, o ponto é a moderação! Embora o vinho e a cerveja sejam apontados como aliados do coração, é bom enfatizar que as vantagens estão sempre atreladas a um conjunto de hábitos. E mesmo que tragam algum benefício, não é recomendado bebidas alcoólicas para aqueles que não a consomem.

O álcool em grande quantidade causa enfraquecimento das células musculares cardíacas, levando a uma doença chamada miocardiopatia alcoólica. Também pode estimular o fechamento das artérias, desencadear arritmias, aumentar os perigos de hipertensão arterial, obesidade e risco de uma insuficiência cardíaca (a falência estrutural e funcional do coração), infarto ou acidente vascular cerebral. Isso só para citar alguns exemplos.

Saúde em dia

A pandemia nos mostrou o quão importante é estar com a saúde em dia. Cuidar da nossa imunidade, seguir a risca os tratamentos recomendados, principalmente nos casos de hipertensos, diabéticos, indivíduos com problemas cardíacos e respiratórios.

A covid-19 deixou evidente que não temos controle de nada e é difícil prever quando e como um novo vírus poderá nos atingir em tamanha magnitude. Por isso, de agora em diante, te faço um apelo: cuide da sua saúde, mantenha seu check-up em dia.

Reforço: todas as pessoas deveriam submeter-se a uma avaliação cardiológica, sobretudo as que apresentam fatores de risco para doenças cardíacas. Para aqueles que foram acometidos pelo coronavírus, é aconselhável ainda fazer o acompanhamento e passar por uma avaliação depois de alguns meses.

O alerta, especialmente quem enfrentou quadros graves da doença, é do risco de sequelas em cérebro, rins, pulmões e coração, deixando a saúde frágil.

Ao longo deste ano muitos estudos estão sendo feitos, apontando, por exemplo, que indivíduos infectados apresentaram inflamação no tecido cardíaco meses após a recuperação. Os efeitos podem ser desencadeados devido a uma reação do sistema imune.

Também já há a confirmação da presença do vírus no miocárdio em pessoas que faleceram em decorrência da enfermidade. Há uma série de pesquisas acontecendo e novas consequências surgindo com o tempo. Sendo assim, é bom ficar atento, uma vez que nem sempre receber alta médica significa recuperação total.

Cuidar das emoções

estresse; trabalho - iStock - iStock
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Mesmo que crises de ansiedade não representem, necessariamente, um evento cardíaco, hoje elas são reconhecidas como fatores de risco, pois quando acontecem de forma recorrente, podem levar a uma resposta inflamatória no organismo que predispõem problemas cardíacos.

Entre os efeitos sobre o corpo estão altos níveis de cortisol na corrente sanguínea, hiperatividade do sistema nervoso simpático, anormalidades plaquetárias que levam a fenômenos trombóticos e a ativação do sistema imunológico, estimulando a evolução da aterosclerose, a ocorrência de arritmias e da doença arterial coronariana, além de outros eventos que afetam o coração, inclusive o infarto do miocárdio.

Além disso, situações de estresse agudo, seja a morte de uma pessoa querida, o rompimento de um relacionamento afetivo, um acidente com graves consequências, podem ser o gatilho para a chamada síndrome do coração partido, um descompasso temporário no funcionamento do músculo cardíaco que ocorre em episódios de fortes emoções e provocam aumento na produção de adrenalina e de outros hormônios do estresse pelas glândulas adrenais. Essa descarga na corrente sanguínea determina um estreitamento temporário nas artérias e interfere no funcionamento do músculo cardíaco.

E uma coisa sabemos: ansiedade e fortes emoções marcaram 2020. Sendo assim, se mostra cada vez mais essencial prestarmos atenção em como estamos nos sentindo. Ouça os sinais do seu corpo, avalie o ambiente em que você vive e busque ajuda quando detectar sintomas da ansiedade, depressão e tristeza profunda.

Relações saudáveis

Outro aspecto que veio à tona e se mostrou essencial este ano foi a qualidade das relações e o contato físico. Estar perto de quem a gente ama faz bem! Sentimentos e emoções gerados nesse contato e relacionados ao amor, alegria, companheirismo e amizade trazem uma série de benefícios, promovendo, por exemplo, relaxamento muscular e a vasodilatação, manifestações que ajudam a prevenir as doenças cardiovasculares.

É comprovado cientificamente que, abraçar e se aconchegar nos braços de uma pessoa querida, libera oxitocina, hormônio que contribui para reduzir a pressão arterial e aliviar o estresse.

Quais são as suas prioridades a partir de agora?

Primeiro, devemos refletir e entender que não precisamos voltar àquilo que era considerado "normal". Podemos tirar proveito e levar conosco as lições aprendidas. As mudanças que estamos vivendo devem servir de inspiração para estilos de vida mais saudáveis.

Devemos valorizar mais momentos especiais, cuidar da nossa saúde física e mental o ano inteiro e sempre, não apenas em situações extremas como a que estamos vivenciando. O coronavírus deixou claro ainda que cada gesto individual tem grande impacto no bem-estar coletivo. Cuidar de si também é cuidar do outro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL