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Paulo Chaccur

Estar de bem com a balança é importante também para a saúde cardiovascular

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

20/12/2020 04h00

Os quilinhos extras conquistados na pandemia, as fartas ceias de Natal e Ano-Novo, o ritmo das férias. Veja quais são os riscos que os descuidos com o peso trazem para o seu coração

2020 vai chegando ao fim e com certeza nos deixará muitas lembranças. Boas e ruins. Enfrentamos uma série de desafios, tensões, dificuldades e adaptações. Um ano que será lembrado principalmente pela covid-19, o afastamento social e a quarentena.

As tradicionais festas de Natal e Ano-Novo terão que passar por mudanças também. Se antes as confraternizações eram marcadas por famílias, parentes e amigos reunidos, em 2020 a segurança e a saúde nos pedem para promover encontros e celebrações em pequenos grupos ou até mesmo apenas com o nosso núcleo familiar.

Aquelas festas que começavam logo com a chegada de dezembro tiveram que dar espaço para outros planos, mais tímidos e restritos. No entanto, mesmo sem poder realizar grandes reuniões, as ceias e os cardápios especiais já estão quase a ponto de irem para o forno. E como muito tem acontecido desde o início da pandemia do coronavírus, um dos grandes vilões da saúde cardiovascular em situações como a que vivemos hoje é a chamada compensação.

A válvula de escape para muitos em momentos assim acaba sendo em excesso: de bebidas alcoólicas, alimentos calóricos (como pães, massas, doces e fast-food), frituras, alimentos ultraprocessados, ricos em sódio e gordura saturada.

O fato é que este "sair da dieta", quando se torna rotina, pode ser perigoso! E quando isso vem acompanhado do sedentarismo fica ainda mais complicado, uma vez que a quantidade de calorias consumidas passa a ser maior do que a que gastamos ao longo do dia.

De modo geral, o excesso —que geralmente já ocorre nesta época do ano— pode desenvolver ou agravar quadros de hipertensão arterial, arritmia cardíaca, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, entre outros problemas. Isso sem contar o risco do surgimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como a obesidade.

Um descuido aqui, outro ali e o que era exceção se torna regra, entre quilinhos extras adquiridos na quarentena, a mesa farta e a comilança das confraternizações de fim de ano. O excesso de hoje, que vai ganhando espaço e se tornando um hábito, pode trazer problemas reais e permanentes para a saúde do coração.

Coração do obeso

O excesso de peso e a obesidade são fatores de risco sérios para diversas doenças que atingem o sistema cardiovascular. Elas podem causar mudanças importantes na estrutura e no tamanho do coração, além de comprometer o seu funcionamento.

A gordura acumulada contém células capazes de produzir substâncias inflamatórias que se alojam com facilidade na parede das artérias, formando placas de gordura. O acúmulo destas células gordurosas aumenta assim o risco de entupimento das artérias. Isso porque as placas podem dificultar ou bloquear a passagem do sangue e, por consequência, desencadear um infarto ou AVC.

Pessoas obesas ou com sobrepeso têm ainda mais chances de desenvolver problemas metabólicos, como diabetes e colesterol alto, também considerados fatores importantes para as doenças do coração.

Distribuição da gordura no corpo

De modo geral, os riscos e tipos de problemas mudam ou se agravam de acordo com a localização e a distribuição da gordura pelo corpo. Os quadros mais preocupantes são de pessoas em que a gordura está acumulada, predominantemente, na região abdominal, ou seja, no abdome e na cintura (e até no peito e no rosto). Nesses casos, os riscos do desenvolvimento de doenças e eventos que afetam o coração, entre colesterol, diabetes, inflamações, trombose, doenças cardíacas, infarto e AVC são mais elevados.

Já quando atinge e se concentra em áreas mais periféricas do corpo, como coxas, quadris e nádegas, falamos de uma obesidade ligada especialmente a problemas circulatórios, como insuficiência venosa e varizes, além de complicações em decorrência da sobrecarga do peso nas articulações dessas áreas.

Por último, podemos mencionar a obesidade homogênea, aquela em que não há uma predominância de área específica. A gordura está distribuída tanto na região abdominal quanto nos membros superiores e inferiores. Mesmo que em menor incidência ou gravidade, nos dois últimos casos, o coração também pode ser atingido e sofrer as consequências.

Como medir a circunferência abdominal

Para saber se aquelas gordurinhas acumuladas na cintura podem colocar a saúde do seu coração em risco, fazemos, com uma fita métrica, a medição da circunferência abdominal.

É bem simples e fácil: na cintura, na altura do umbigo, enlaçamos a fita alinhada horizontalmente. É preciso então respirar fundo e soltar o ar. A medida não deve ultrapassar 80 cm nas mulheres e 94 cm nos homens - medidas superiores a essas indicam aumento das chances de desenvolver doenças cardiovasculares.

Devo me preocupar?

Agora, para a indicação de sobrepeso e obesidade, fazemos o cálculo com base no IMC (Índice de Massa Corporal), que traz a relação entre peso e altura (IMC = peso/ (altura x altura)). Se o resultado obtido for acima de 25 kg/m², consideremos que há excesso de peso. Já valores que ultrapassam 30 kg/m² indicam obesidade.

Veja a classificação completa:

Peso normal: IMC entre 18.0 a 24,9 kg/m2;
Sobrepeso: IMC entre 25.0 a 29,9 kg/m2;
Obesidade grau 1: IMC entre 30.0 - 34.9 kg/m2;
Obesidade grau 2: IMC entre 35.0 - 39.9 kg/m2;
Obesidade grau 3 ou obesidade mórbida: IMC igual ou superior 40 kg/m2.

Obesidade: um problema sério

Se você imagina que estamos falando aqui de um problema distante ou que afeta a minoria, está enganado. As estatísticas revelam um cenário bem preocupante. A última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em parceria com o Ministério da Saúde, aponta que o número de pessoas com excesso de peso hoje atinge mais da metade da população brasileira. É importante ficar atento: do sobrepeso para um quadro de obesidade a evolução pode ser rápida.

Segundo a PNS 2019, 60,3% da população adulta está com excesso de peso, o que representa cerca de 96 milhões de pessoas. Entre adolescentes com idades entre 15 e 17 anos, o excesso de peso foi constatado em 19,4% (1,8 milhão de pessoas). O levantamento ainda indica que, entre 2003 e 2019, a proporção de obesos na população brasileira acima dos 20 anos mais que dobrou, passando de 12,2% para 26,8%. Já a proporção de pessoas com excesso de peso na mesma faixa etária subiu de 43,3% para 61,7%.

Para se ter ideia da gravidade, de acordo o Ministério da Saúde, das seis doenças que mais matam no país, quatro estão relacionadas à obesidade. Por ordem, são elas: AVC, infarto, pneumonia, diabetes, violência e hipertensão.

Obesidade e covid-19

Portanto, é preciso consciência para os riscos que a obesidade e o sobrepeso trazem à saúde. A distância entre "apenas uns quilinhos a mais" para o primeiro grau de obesidade é curta. E se antes os dados já nos traziam um alerta, agora, mais do que nunca, é fundamental manter os cuidados e o controle.

A gordura acumulada pode levar a um quadro de inflamação crônica, que altera a imunidade e deixa o indivíduo obeso mais suscetível a infecções virais. Em épocas de coronavírus isso não seria nada bom. A obesidade diminui ainda a capacidade pulmonar, podendo ampliar a gravidade da infecção causada pelo vírus. Pessoas obesas, geralmente, também têm diabetes, hipertensão, doença renal e problemas cardiovasculares. Tudo isso junto pode complicar —e muito— quando combinado ao quadro inflamatório da covid-19.

O que NÃO precisamos levar de 2020

Por isso, se você adquiriu hábitos não saudáveis, relaxou na prática de exercícios e nos cuidados na hora das refeições, é hora de repensar o que você quer manter para o ano que se aproxima. Os desafios trazidos pela pandemia ainda estão presentes. Além da alimentação e do sedentarismo, distúrbios hormonais ou problemas emocionais, como ansiedade ou estresse, também podem aumentar o risco de obesidade. E neste aspecto sabemos que o cenário atual é um forte gatilho.

No caso da alimentação, o ponto de partida é diferenciar alimentos que podem contribuir para a saúde cardiovascular ou agravar quadros de doenças crônicas e fatores de risco. Por isso, busque uma alimentação balanceada e equilibrada. Diabéticos e hipertensos, como sabem, devem ter atenção a ingestão de doces, sal e alimentos embutidos ricos em sódio.

Em relação às bebidas alcoólicas, apesar de o vinho e a cerveja serem apontados como aliados do coração (quando consumidos moderadamente), é bom enfatizar que as vantagens estão atreladas a um conjunto de fatores —e claro, isso só para aqueles que já têm o costume de consumi-las.

É preciso ter em mente que a obesidade é uma doença crônica e exige tratamento sério e contínuo. Todo investimento em um estilo de vida e uma alimentação saudável e equilibrada, associada à prática de exercícios físicos, repercute na diminuição da gordura corporal e principalmente a visceral (aquela que envolve os órgãos vitais, como fígado, pâncreas e intestino).

Os cuidados essenciais para diminuir o sobrepeso ou a obesidade, por consequência, trarão benefícios para a saúde do seu coração.