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Paulo Chaccur

Bebendo muito? Cuidado! Ingestão de álcool em excesso afeta seu coração

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

25/10/2020 04h00

Já se passaram quase oito meses desde o início da quarentena e de todas as adaptações impostas com a chegada do coronavírus. Não há como negar o estresse vivenciado neste longo período. Por mais que aos poucos as atividades estejam sendo retomadas, a vida ainda segue cheia de incertezas e bem longe de voltar ao que considerávamos "normal".

Muito mais tempo em casa, menos tempo na rua, menos oportunidades de lazer e contato social, cenário que para grande parte das pessoas gera tédio, ansiedade e a busca por compensações. Nessas horas, o consumo de álcool acaba sendo usado como válvula de escape para, momentaneamente, proporcionar a sensação de bem-estar, descontração e relaxamento.

O problema aqui, de modo geral, não é o consumo em si, mas o excesso dele. E os dados trazem um alerta: as pessoas estão bebendo com mais frequência e em maior quantidade desde o início da pandemia da covid-19. De acordo com um estudo realizado em parceria pela Fiocruz, UFMG e Unicamp, cerca de 18% dos brasileiros estão consumindo mais bebidas alcoólicas. Já as redes de supermercado apontam aumento de 27% na venda desses produtos.

A saída pode ser uma maneira paliativa para lidar com emoções e sentimentos, no entanto, é importante ter consciência das possíveis consequências, inclusive graves, para a saúde se não houver cautela. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas aumenta, por exemplo, a pressão arterial e os níveis de gordura no organismo, gera obesidade, disfunção hepática, depressão, câncer, alcoolismo e é capaz até desencadear um infarto ou AVC (acidente vascular cerebral).

O álcool no corpo

Resumidamente, logo após ser ingerido, o álcool é transportado pelo sangue para todos os tecidos que contém água. Desta forma, e por ser solúvel, entra rapidamente em nossa corrente sanguínea, atingindo diferentes órgãos do corpo, em especial cérebro, fígado, pâncreas, rins e coração.

O fígado é o mais atingido, mas os outros também podem apresentar alterações e problemas no funcionamento. Aproximadamente 90% do álcool ingerido é metabolizado no fígado por enzimas que o dividem em várias substâncias para eliminação pela urina e, em menor quantidade, por outros meios, como respiração, transpiração e salivação.

As consequências para o coração

Entre os possíveis danos do álcool para o sistema cardiovascular, está o desencadeamento da fibrilação atrial —tipo de arritmia que altera o ritmo cardíaco, ou seja, faz o coração bater de forma descompassada e irregular. Em decorrência da fibrilação, surge uma predisposição para a formação de coágulos intracardíacos, aumentando o risco de um infarto ou AVC.

Também é importante destacar que as bebidas alcoólicas, principalmente as destiladas como uísque, vodca, licor e cachaça, além de apresentarem teor alcoólico geralmente maior, são bastante calóricas, o que favorece o ganho de peso e, por consequência, a obesidade e as chances de desenvolver diabetes, fatores de risco para as doenças cardiovasculares. E a lista não para por aí: o consumo descontrolado desse tipo de bebida amplia as chances de insuficiência cardíaca (a falência estrutural e funcional do coração).

Beber demais ainda aumenta os níveis de triglicérides que, combinado com colesterol LDL elevado ou HDL baixo, estimula o depósito de gordura na parede das artérias e, mais uma vez, amplifica o risco de ataques cardíacos ou acidente vascular cerebral. Vale destacar aqui que um dos fatores de risco mais importantes para o AVC é o aumento constante da pressão arterial, ação que o consumo exagerado de álcool estimula.

Com o passar do tempo, o efeito da bebida dificulta a atividade de algumas enzimas nas células cardíacas, deixando o músculo do coração fraco e mais instável, o que chamamos de cardiomiopatia alcoólica. A doença dificulta a distribuição do sangue para o organismo e pode desencadear outros problemas, como dificuldade para respirar, fadiga, inchaços nas pernas e pés e, em situações extremas, até uma parada cardíaca. Há outros casos de cardiomiopatias gerados em decorrência da dilatação progressiva e redução da capacidade de funcionamento do músculo cardíaco, propiciando um processo inflamatório.

Álcool + remédio

A gravidade pode ser maior se, combinado ao álcool, o indivíduo faz uso de algum medicamento. No geral, as pessoas não relacionam os efeitos associados da bebida com os remédios, mas eles existem e podem ser perigosos. Por isso, se você está tomando algum remédio, é bom ficar atento.

E aqui vale reforçar que não estamos falando apenas de medicamentos de uso contínuo, como aqueles para hipertensão, diabetes, problemas cardíacos ou depressão. Um simples analgésico, por exemplo, para dor de cabeça, quando misturado com bebida alcoólica em excesso, pode colocar a saúde em risco.

As reações dessa combinação entre álcool e fármacos vão desde alterações gastrointestinais, como náuseas e vômitos, até dores de cabeça intensas, palpitações, hipotensão, tontura, taquicardia, convulsões, intoxicação aguda, coma e a morte.

O fato é que, assim como o álcool, as substâncias que compõem os medicamentos são absorvidas, metabolizadas e eliminadas do corpo. Quando ingeridas simultaneamente, podem prejudicar e causar efeitos danosos para o organismo, entre eles uma sobrecarga do fígado, uma vez que ambos são metabolizados no órgão.

Cada medicamento tem um tempo para o processo de absorção e excreção. Como a bebida altera o metabolismo, essa eliminação poderá ocorrer antes ou depois do período necessário, trazendo prejuízo ao tratamento. Além disso, é possível que ocorra uma potencialização ou redução do efeito do remédio, mais uma vez atrapalhando seu efeito.

A forma e intensidade das reações e os riscos variam de acordo com as características do medicamento assim como com as condições individuais de saúde e a quantidade, concentração e o tipo de bebida ingerida por cada indivíduo. Em alguns casos, mesmo que a pessoa consuma bebida alcoólica em horário distinto da medicação, existe o risco da ocorrência de reações adversas. Por isso, principalmente se estiver em tratamento, sempre busque orientação médica.

"Mas eu li que vinho e cerveja fazem bem para o coração"

Há diversos estudos que revelam que certas bebidas, como vinho e cerveja, podem trazer benefícios à saúde cardiovascular, mas isso vale somente para alguns casos e sempre com moderação! A recomendação varia, mas o parâmetro é de uma dose por dia para as mulheres e duas para os homens, além de não beber mais de cinco vezes por semana —para uma dose considere uma lata (330 ml) de cerveja, uma taça (100 ml) de vinho ou uma dose (30 ml) de destilado.

Talvez hoje você não sinta nada, mas o efeito adverso na estrutura e função cardíaca da ingestão acentuada desse tipo de bebida, por um período prolongado, pode vir à tona com os passar dos anos. Bebidas alcoólicas são para muitos uma conveniente maneira de combater o estresse, mas existem outras estratégias mais saudáveis.

Estar fisicamente ativo, manter uma alimentação saudável, dormir bem e ter atitudes positivas são bons caminhos para combater o estresse, a ansiedade e os desafios da vida. E se já não está fácil lidar com tudo o que estamos vivendo, incluir mais preocupação acredito que não é desejo de ninguém. Portanto, cautela!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL