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Paulo Chaccur

Conheça cinco benefícios da meditação para a saúde cardiovascular

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

11/10/2020 04h00

Parar, sentar, fechar os olhos, trazer atenção para a respiração, aquietar a mente, ouvir o seu corpo. Tarefa difícil no meio da agitada rotina que a maioria de nós leva. Com a pandemia e a quarentena, o ritmo de compromissos, trabalho e obrigações para muitos só aumentou. E como fica a saúde física e mental no meio deste turbilhão?

É neste ponto que entra a meditação, técnica milenar de autoconhecimento que hoje já tem diversos benefícios reconhecidos e cada vez mais estudados pela comunidade científica no mundo. E o que você diria se seu médico te aconselhasse a incluir a meditação entre suas atividades diárias para o bem da sua saúde cardiovascular? Saiba que isso deve acontecer com cada vez mais frequência nos consultórios.

Isso porque a meditação pode ser um caminho para prevenir e ajudar a combater problemas físicos, mentais e emocionais que geram consequências para o coração. Mais do que acalmar ou relaxar, como muito se fala por aí, o ato de meditar traz efeitos biológicos e se torna um aliado da saúde.

Pesquisas realizadas ao longo dos últimos anos revelam que a prática de meditação tem efeitos prolongados no cérebro, o que explica os benefícios em relação à saúde cardíaca. A técnica atua, por exemplo, em prol do sistema imunológico, na prevenção e combate a depressão, ansiedade, insônia, estresse, obesidade, além de auxiliar no controle da pressão arterial e nos tratamentos para abandono do tabagismo, fatores considerados de risco para o sistema cardiovascular.

1. Aliada contra a ansiedade

Ansiedade, esporte, treino, tensão, nervosismo - iStock - iStock
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Um estudo feito na Universidade Johns Hopkins (EUA) e publicado no Jama (Journal of the American Medical Association), em 2014, aponta que meditar durante 30 minutos todos os dias ajuda a aliviar sintomas da ansiedade, depressão e até de dores crônicas. No caso da ansiedade, por exemplo, há uma desrregulação cerebral que ativa o nosso sistema autônomo simpático, deixando o organismo em situação de alerta. Em quem medita, a duração dessas reações são mais curtas ou com menos intensidade.

E mesmo que crises de ansiedade não representem, necessariamente, um evento cardíaco, hoje elas são reconhecidas como fatores de risco, uma vez que, quando acontecem de forma recorrente, podem levar a uma resposta inflamatória no organismo que predispõem a problemas cardíacos.

Durante uma crise, a produção hormonal é estimulada, fazendo com que o corpo libere mais adrenalina e noradrenalina, substâncias que elevam a frequência cardíaca, alteram a pressão arterial, dificultam a respiração, aumentam o suor e causam tremores.

Entre os efeitos sobre o corpo estão a hipercortisolemia (altos níveis de cortisol na corrente sanguínea), hiperatividade do sistema nervoso simpático, anormalidades plaquetárias que levam a fenômenos trombóticos e a ativação do sistema imunológico, estimulando a evolução da aterosclerose, a ocorrência de arritmias e da doença arterial coronariana, além de outros eventos que afetam o coração —inclusive o infarto do miocárdio.

Nesses casos, a meditação atua auxiliando o corpo a retornar ao seu estado normal de funcionamento, reduzindo o metabolismo. Com a técnica, é possível estimular o sistema autônomo parassimpático. Desta forma, os batimentos cardíacos e a respiração tendem a ficar mais lentos. O consumo de oxigênio pelas células também cai. Passamos, assim, a ter maior sensação de relaxamento e tranquilidade.

2. Ajuda a reduzir o estresse

Estresse financeiro - iStock - iStock
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Doenças ou um problema familiar por longo período, desemprego e preocupação com dinheiro, acúmulo de funções, a pressão e o excesso de trabalho podem nos levar ao estresse crônico e ao que chamamos de síndrome de burnout, um indício de que nossos próprios limites foram ultrapassados.

A sensação é de esgotamento, com consequentes desequilíbrios emocionais e fisiológicos. Assim como no caso da ansiedade, uma rotina estressante libera altos níveis de hormônios, como adrenalina e cortisol que, quando produzidos em excesso, podem afetar o sistema imunológico, a respiração e a frequência cardíaca, alterando também a pressão arterial.

A meditação entra como uma alternativa para ajudar a reverter o quadro. As pesquisas apontam que com a prática regular é possível aos poucos nortear nossa percepção diante de problemas, ter mais calma para tomar decisões, entender e lidar melhor com emoções e, desta forma, superar crises mais facilmente.

A liberação desses hormônios no organismo será consequentemente menor, minimizando a vasoconstrição das artérias e estabilizando a pressão arterial. Ou seja, menos riscos do desenvolvimento de doenças cardíacas e da ocorrência de eventos cardiovasculares.

3. Manutenção do peso

Pessoa se pesa em balança - I Yunmai/Unsplash - I Yunmai/Unsplash
Imagem: I Yunmai/Unsplash

Mais um ponto importante e também conectado com os anteriores: a compulsão alimentar e a obesidade. Muitas vezes o estresse acaba mexendo com nossa cabeça, ativando a necessidade de compensação. O cuidado com as refeições é deixado de lado, principalmente quando passamos a viver no piloto automático. O alimento, em alguns casos, se torna também uma válvula de escape emocional para lidar com ansiedade, tristeza, frustrações e dores.

O consumo exagerado de sódio (contido no sal) pode, por exemplo, provocar insuficiência renal, acidentes vasculares cerebrais e hipertensão. As gorduras saturadas, por sua vez, aumentam significativamente o risco de entupimento das artérias do coração e obesidade.

Com a ingestão de alimentos que elevam o teor de açúcar no sangue pode ocorrer o desenvolvimento do diabetes tipo 2, quando o corpo não produz adequadamente ou cria resistência à insulina. Fica então o alerta: uma alimentação errada ou desbalanceada pode desencadear ou intensificar fatores de risco para o coração.

E como entra a meditação aqui? A prática permite um controle mais efetivo dos desejos, reduzindo reações impulsivas, com efeito positivo no metabolismo, processo necessário para a manutenção do peso, o emagrecimento e o ganho de massa muscular.

Além disso, o chamado mindful eating, ou seja, o ato de "comer com atenção plena/comer consciente" contribui para o desenvolvimento de uma melhor percepção em relação às escolhas alimentares no dia a dia.

4. Melhora na qualidade do sono

Mulher, cobertor, edredom, cama, pijama, deitada, sono, dormindo - Ketut Subiyanto/Pexels - Ketut Subiyanto/Pexels
Imagem: Ketut Subiyanto/Pexels

Durante o sono nosso organismo entra em um estado de compensação de energia. Há diminuição no ritmo dos batimentos cardíacos e redução da pressão arterial, situações que ajudam a proteger o coração.

Noites mal dormidas ou marcadas por pouco sono profundo, quando acontecem com frequência, podem gerar cansaço, aumento da pressão arterial, do estresse e até estímulo a obesidade, amplificando o trabalho do coração e a possibilidade de aparecimento de problemas, como doença coronária.

A prática da meditação com regularidade permite que a pessoa tenha mais facilidade para dormir, tendo uma noite de sono adequada e reparadora, como precisa o organismo, e em especial aqui, o nosso coração.

5. Controle da pressão e redução de riscos

Negro medindo pressão arterial - iStock - iStock
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Meditar também ajuda a reduzir em 47% as chances de ataque cardíaco e infarto em adultos. Foi o que concluiu a Associação Americana do Coração depois de acompanhar um grupo de pacientes acima dos 50 anos por quase uma década. Todos continuaram recebendo a medicação necessária, mas metade foi convidada a participar de sessões de meditação. Nesse grupo, a pressão arterial caiu significativamente.

E esses benefícios não foram registrados apenas em quem já tem mais idade. A Universidade de Ciências da Saúde da Geórgia (EUA) conseguiu melhorar a sobrecarga cardíaca de 31 adolescentes americanos hipertensos.

Os jovens apenas acrescentaram um hábito as suas rotinas: meditar duas vezes por dia, durante 15 minutos, ao longo de quatro meses. Ao término do período de testes, foi constatado que eles tinham a massa do ventrículo esquerdo menor —sinal de redução dos riscos de desenvolver doenças cardíacas e vasculares.

E como isso se explica? Cientistas da Universidade de Harvard (EUA) descobriram que a prática está associada ao aumento de óxido nítrico no sangue —substância que é vasodilatadora e, quando em maior concentração, facilita o fluxo sanguíneo, diminuindo a pressão arterial.

Recomendação

Aos poucos, um número cada vez maior de pessoas está tendo acesso aos benefícios da meditação. Há uma portaria do Ministério da Saúde que incentiva postos e hospitais públicos a oferecer a técnica aos pacientes pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Vale reforçar, no entanto, que meditar pode ser um ótimo complemento para uma rotina saudável, porém, em combinação com outros tratamentos médicos (principalmente no caso de cardiopatias e doenças crônicas que afetam o coração) e um estilo de vida saudável, que inclui alimentação balanceada, qualidade nas horas de sono e exercícios físicos regulares.

A prática, além de ter baixo (ou nenhum) custo tem ainda a vantagem de poder ser feita a qualquer hora do dia, em qualquer lugar e por quanto tempo a pessoa tiver disponibilidade. Especialistas afirmam que o mais importante é meditar um pouco todos os dias, nem que sejam 5 minutos. A regularidade é que vai provocar as mudanças e criar um novo costume.

Se você está começando ou quer iniciar, busque ajuda de um especialista que possa orientá-lo. Momentos de conexão com você, descanso e relaxamento são cada dia mais essenciais para a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida.