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Fake news: um desserviço para a saúde do coração; conheça mitos e verdades

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

26/04/2020 04h00

O termo fake news virou um dos mais falados ultimamente, seja sobre coronavírus, política, economia, vida de famosos... O universo das informações falsas não tem limite e, claro, o coração também é alvo desse tipo de notícia.

Mais do que nunca, a internet e as redes sociais estão na rotina das pessoas, ainda mais em tempos de quarentena. A todo momento surge um grande número de informações e orientações sobre saúde, dicas de prevenção e recomendações que muitas vezes são leigas ou falsas, mas que se transformam em verdades e são espalhadas em uma velocidade inexplicável.

E reforço a periculosidade desse cenário para o coração: as doenças cardiovasculares —como infarto aguado do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e miocardiopatias— são a principal causa de morte do mundo, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde).

No Brasil, os levantamentos apontam a mesma realidade. Segundo dados do SUS (Sistema Único de Saúde) e da Sociedade Brasileira de Cardiologia, problemas no coração são responsáveis por mais de 30% dos óbitos registrados no país. A estimativa é de mais de 1 mil mortes por dia e cerca de 400 mil ao ano.

Por isso, antes de acreditar em tudo o que se lê ou ouve por aí, é extremamente importante consultar e pesquisar fontes seguras para esclarecer as verdadeiras ameaças e o melhor caminho para cuidar do coração.

A vacina da gripe prejudica quem tem doenças no coração

Vacina gripe  - Istock  - Istock
Imagem: Istock

Falso. Surgiu uma onda crescente com a afirmação de que vacinas trazem mais problemas do que benefícios, inclusive para aqueles que têm enfermidades cardiovasculares. No entanto, sabe-se, por exemplo, que o ressurgimento do sarampo esteve relacionado, em grande parte, pela falta de vacinação em crianças.

O fato é que não existe nenhuma comprovação científica de que a vacina da gripe piore a condição cardíaca de pessoas portadoras de cardiopatias. É preciso destacar também que pacientes com problemas no coração podem ficar muito debilitados caso fiquem gripados, valorizando a importância da imunização para evitar ou minimizar complicações em razão da doença, diminuindo necessidade de internações e até morte por insuficiência cardíaca. A vacina pode gerar sim alguns efeitos colaterais no organismo, contudo, eles são pequenos se comparados aos benefícios da imunização de doenças infectocontagiosas.

Atualmente, o medo do coronavírus fez com que a aceitação para as vacinas de prevenção da gripe tenha aumentado consideravelmente, mas ainda há informações equivocadas circulando. Assim, se você receber alguma informação como essa, não hesite em procurar o seu médico antes de tomar a decisão de não se vacinar.

O frio aumenta o risco cardiovascular

Homem com frio - sestovic/iStock - sestovic/iStock
Imagem: sestovic/iStock

Verdade. Temperaturas baixas (abaixo de 15ºC) trazem o alerta do aumento do risco de problemas cardíacos. E isso pode ocorrer por diferentes fatores, como uma sobrecarga no coração. Para manter o corpo aquecido, o coração passa a "trabalhar" mais devido a necessidade de acelerar o metabolismo para evitar a perda de calor e proteger o funcionamento de órgãos vitais.

Essa aceleração faz com que as paredes dos vasos sanguíneos, que irrigam o corpo, se contraiam. Assim, o coração precisa fazer mais força para bombear o sangue para o corpo. Se a pessoa já tem o coração debilitado, a exigência de um esforço extra pode desencadear ou agravar o problema.

Por outro lado, com a redução das paredes dos vasos sanguíneos, a oferta de sangue fica menor. Essa diminuição da irrigação do músculo cardíaco pode desencadear um processo de dor no peito (angina), um possível indício de isquemia miocárdica ou então do próprio infarto.

Nas baixas temperaturas, pode ocorrer ainda o aumento da pressão sanguínea sobre a parede dos vasos que já estão com o calibre reduzido. Isso, além de sobrecarregar o coração, facilita o desprendimento de placas de gordura localizadas no interior das artérias, que podem bloquear o fluxo do sangue para o coração e para o cérebro. Além disso, como sentem menos sede no frio, de modo geral, as pessoas acabam ingerindo uma quantidade menor de água e consequentemente desidratam. Sangue mais denso e viscoso coagula com mais facilidade, o que também colabora para o aumento da pressão sanguínea.

Por fim, a queda brusca da temperatura ou a mudança de um ambiente aquecido para um muito frio também podem ser perigosos. Ou seja, o choque térmico é outro fator entre os aspectos de risco que pode ser o estopim para desencadear algum evento cardíaco.

Pessoas magras e saudáveis não têm risco de apresentar doenças no coração

pessoa magra - kieferpix/IStock - kieferpix/IStock
Imagem: kieferpix/IStock

Falso. Não há dúvidas de que as pessoas com a circunferência abdominal adequada e, portanto, sem o fator de risco da existência da gordura abdominal, apresentam menos chances de desenvolver a doença arterial coronária. Porém, esse é apenas um ponto a ser analisado entre tantos outros.

Vamos considerar uma situação hipotética de um indivíduo magro, mas tabagista, com hipertensão arterial e dislipidemia (níveis elevados de gorduras no sangue). Esses fatores irão superar a vantagem da ausência da obesidade e podem determinar o desenvolvimento da doença coronária, independentemente da pouca gordura corporal.

Além disso, uma pessoa aparentemente saudável pode ter uma cardiopatia congênita ou adquirida não diagnosticada e sofrer até um infarto fulminante. Isso sem nunca ter apresentado qualquer sintoma. Por isso, a análise de fatores deve ser feita sempre por um cardiologista, para só assim definir o verdadeiro risco cardiovascular.

Após a chegada da menopausa, o risco de problemas cardíacos aumenta para as mulheres

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Verdade. Com a parada definitiva da menstruação, resultante da perda da atividade folicular ovariana, a mulher perde a proteção do estrogênio. Fabricada pelo próprio corpo (pelos ovários), essa substância é grande aliada do coração, uma vez que estimula a dilatação dos vasos, facilitando o fluxo sanguíneo.

Após a menopausa, por volta dos 40 e 50 anos, a proteção hormonal oferecida pelo estrogênio começa a cessar. A partir dessa fase, há também uma tendência do aumento do colesterol e fica mais difícil controlar a glicemia (nível de açúcar no sangue), aumentando ainda mais as chances de doenças cardiovasculares.

Ao sentir os sintomas de infarto, o indivíduo deve tossir para o coração a recuperar o ritmo

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Falso. Está aí uma grande mentira que se espalhou rapidamente e que pode ser muito perigosa. O ato de tossir pode ser utilizado e é efetivo apenas quando ocorre o chamado efeito vagal. Exemplificando: ao fazer uma simples coleta de sangue, é possível que a pessoa sinta mal-estar, com sensação de desmaio, em decorrência do efeito vagal. Ou seja, com a redução dos batimentos cardíacos e a queda da pressão arterial. Neste momento, o ato de tossir pode corrigir o efeito e normalizar os batimentos cardíacos, além de melhorar a pressão.

No caso do infarto do miocárdio, o ato de tossir não atua na recuperação ou interrupção do fluxo de sangue na artéria coronária. A recomendação é procurar o serviço de emergência o mais rápido possível para o diagnóstico e o início de tratamento, visando o mínimo dano ao músculo cardíaco. Tossir não irá diminuir a dor ou reverter o quadro.

Ansiedade pode causar infarto

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Verdade. Crises de ansiedade aumentam as chances de complicações no coração. Mesmo que não representem, necessariamente, um evento cardíaco, estudos já apontam que elas são atualmente reconhecidas como fatores de risco para o coração, uma vez que, quando acontecem de forma recorrente, podem levar a uma resposta inflamatória no corpo que predispõem problemas cardíacos.

Os efeitos da ansiedade sobre o corpo, como a hipercortisolemia (altos níveis de cortisol na corrente sanguínea), hiperatividade do sistema nervoso simpático, anormalidades plaquetárias que levam a fenômenos trombóticos e a ativação do sistema imunológico estimulam a evolução da aterosclerose, a ocorrência de doença arterial coronariana e de outros eventos cardiovasculares.

O colesterol ruim (LDL) não influencia no quadro de doenças cardiovasculares e o uso de medicamento para seu controle causa Alzheimer

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Falso. Estudos científicos até hoje realizados demonstraram que o chamado colesterol ruim (LDL) é uma das principais causas de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC. E há outro ponto polêmico quando o assunto é seu controle, mais especificamente em relação ao emprego de estatinas. Informações equivocadas chegam até a estimular muitos pacientes a abandonarem o uso do medicamento.

Basta fazer uma pesquisa na internet para encontrar informações de que o uso de estatinas predispõe as pessoas a desenvolverem Alzheimer. No entanto, não existe nenhuma comprovação científica sobre isso, muito pelo contrário. Um levantamento realizado nos Estados Unidos, com cerca de 400 mil pessoas acima de 65 anos, mostrou que a exposição elevada às estatinas foi associada a um menor risco de diagnóstico de Alzheimer, tanto para as mulheres como entre os homens.

Ainda referente ao controle do colesterol ruim, não é difícil achar orientações sobre o consumo de suco de berinjela, beterraba com laranja e óleo de coco. O fato é que isso não se observa na prática clínica e não há nenhuma comprovação científica nesse sentido. Portanto, antes de qualquer decisão no emprego ou suspensão de medicamentos ou alimentos que possam contribuir no controle dos níveis de LDL, consulte o seu médico para esclarecimentos.

O único sintoma de infarto é a dor no peito que se irradia para o braço

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Falso. Mas em parte. Realmente este sinal é característico da isquemia miocárdica e do infarto do miocárdio. Entretanto, infelizmente não está presente em todas as situações cardíacas agudas. Digo infelizmente porque quando ocorre, o problema fica claro, ajudando no diagnóstico e no alerta de urgência.

Porém, há pessoas que não apresentam nenhuma dor ou sinal e ainda assim estão sofrendo um infarto, como acontece com alguns pacientes com diabetes. Portanto, a dor no peito não é a única manifestação do infarto do miocárdio. Outros sintomas, como falta de ar, dor na boca do estômago, dor na mandíbula ou dor nas costas, podem ocorrer. Por isso, minha recomendação sempre é: atente-se ao seu corpo. Se notar qualquer sintoma diferente, que é novo, procure a avaliação de um médico.

O câncer não afeta o coração

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Falso. O câncer no coração é muito raro, mas pode acontecer. Para se ter ideia, os índices de chance estão entre 0,001% e 0,3% do total das neoplasias. A explicação para esses números está na maneira como o câncer surge. Os tumores se desenvolvem com a proliferação descontrolada das células.

No caso do coração, ao contrário de outras partes do corpo, o ciclo de divisão das células musculares se encerra cedo na nossa vida, momento em que o órgão passa então a crescer conforme as células aumentam de tamanho. Assim, é quase zero a chance de haver uma multiplicação de forma desordenada, o que fornece, portanto, alguma proteção ao coração contra a doença. Alguma, mas não 100%.

A maioria dos tumores cardíacos cancerosos tem origem em outras regiões do corpo já afetadas, geralmente pulmão, mama, rim, sangue ou pele, e posteriormente se disseminam, por metástase, para o coração.

É recomendado tomar AAS (ácido acetilsalicílico) para prevenir doenças cardiovasculares

Ácido acetilsalícilico, aas, aspirina - iStock - iStock
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Depende. O emprego do medicamento é um ponto em discussão. Na Diretriz Brasileira de Cardiologia, não há a indicação como obrigatória na prevenção ou tratamento da doença arterial coronária (DAC), mas muitos cardiologistas utilizam AAS como prevenção primária, por exemplo, em pacientes com muitos fatores de risco para a DAC, principalmente diabéticos.

É importante lembrar que o AAS tem efeitos colaterais, como o surgimento de úlceras ou sangramento digestivo. Além disso, o fato de tomar o medicamento não quer dizer que você não vai ter nenhum problema cardiovascular. Portanto, novamente, isso é uma decisão que deverá ser tomada apenas e impreterivelmente por um especialista.

Tomar água gelada pode gerar problemas cardíacos

Água gelada - iStock - iStock
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Falso. A ideia inicial é de que a temperatura da água cause a vasoconstrição das artérias do nosso corpo. Isso realmente pode ocorrer. O esôfago está em contato direto com a porção atrial do coração, mas o impacto da temperatura da água quando gelada é absorvido pelo próprio esôfago e não transmitido ao coração a ponto de desencadear um espasmo na artéria coronária e o infarto do miocárdio, assim como arritmias cardíacas.

Não existe relação entre o sistema gastrointestinal e o coração na enervação ou circulação. Portanto, não há alteração de pressão ou da frequência cardíaca nesses casos.

Tirar o sal da comida basta para o controle da pressão arterial

Que tal maneirar no sal? - iStock - iStock
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Falso. Se não bastasse tudo o que já falamos aqui, velhos mitos ainda rondam, como é o caso do sal. Sabe-se que a quantidade de ingestão de sal, quando acima do recomendado, é prejudicial. Porém, é preciso fazer essa análise de forma um pouco mais ampla.

O excesso de consumo acarreta no aumento da pressão arterial e pode até ser o responsável pelo surgimento da hipertensão, mesmo na ausência de herança genética e outras patologias.

No entanto, considerar que a correção da quantidade de sal na dieta é o suficiente para controlar a hipertensão arterial em todas as situações, não é verdade. Isso porque há outros fatores necessários, como o uso correto de medicamentos para ajuste da pressão, assim como a necessidade da perda de peso e o abandono do sedentarismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL