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Paulo Chaccur

Homens: ao se prevenir do câncer de próstata você também protege o coração

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Imagem: iStock

29/03/2020 04h00

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Entenda a relação e saiba por que o câncer de próstata pode aumentar os riscos e causar complicações cardiovasculares

Segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Brasil, estima-se que aproximadamente 66 mil novos casos de câncer de próstata sejam registrados para cada ano do triênio 2020-2022. Esse número corresponde a 62,95 casos a cada 100 mil homens (dados de fevereiro/2020). Sem considerar o tumor de pele não-melanoma, o de próstata aparece como o mais incidente entre o sexo masculino em todas as regiões do país.

O que se sabe é que este tipo de câncer afeta principalmente homens com idade mais avançada: cerca de 75% dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos, sendo raro antes dos 40 anos. Um dado pouco conhecido, no entanto, é que a causa de morte não-oncológica mais comum nesses pacientes é em decorrência de complicações cardiovasculares.

Câncer de próstata x doenças do coração

Aproximadamente 33% dos pacientes já possuem algum problema no coração no momento do diagnóstico do câncer (mesmo sem sintomas) e grande parte apresenta múltiplos fatores de risco, como histórico familiar, obesidade, tabagismo, sedentarismo, colesterol ou pressão alta e diabetes. Se não bastasse isso, o próprio tratamento oncológico pode ser um dos motivos para o surgimento de um evento cardiovascular.

Um tumor na próstata pode ser tratado com cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou terapia de privação androgênica (ou ADT, sigla em inglês que significa "Androgen Deprivation Therapy"), que são utilizados de maneira isolada ou em combinação, dependendo do caso.

Estudos clínicos têm revelado que os homens tratados com ADT são os que apresentam maior risco de complicações no sistema cardiovascular. Para esclarecer, essa terapia de privação androgênica consiste na redução dos níveis do hormônio testosterona por meio de medicamentos.

O fato é que o tratamento anti-hormonal pode potencializar os fatores de risco preexistentes (aqueles mencionados acima) e até mesmo induzir a ocorrência da síndrome metabólica e de doenças no coração.

Apesar disso, é bastante eficiente tanto na melhora da qualidade de vida como no aumento da sobrevida: de acordo com pesquisas, a terapia de privação androgênica é capaz de reduzir a mortalidade dos pacientes com esse tipo de câncer em 40%.

O que diz a ciência

Ao longo dos últimos anos surgiram inúmeras dúvidas com relação à segurança e aos potenciais riscos inerentes a esse tratamento. Na década de 90 apareceram as primeiras evidências dos seus efeitos no sistema cardiovascular. Desde então, as estatísticas mostram que as doenças no coração são a principal causa de morte nos pacientes com câncer de próstata submetidos ao bloqueio.

A partir daí, novos estudos e levantamentos passaram a ser realizados, comprovando que o ADT gera alterações metabólicas e nutricionais e, por consequência, diminuição da complacência arterial, ganho de peso, perda de massa magra, aumento da circunferência abdominal e da porcentagem de gordura corporal, dos níveis de colesterol total, de liproteínas de baixa densidade (LDL-colesterol), de triglicérides, da resistência à insulina e da glicemia —fatores de risco cardiovascular, que podem levar, por exemplo, ao desenvolvimento da doença arterial coronária ou ao infarto do miocárdio.

Um desses estudos (publicado por Tsai e cols.), que analisou mais de mil pacientes submetidos ao bloqueio androgênico, observa uma incidência cumulativa de morte cardiovascular em cinco anos de 5,5% naqueles indivíduos com mais de 65 anos de idade. Essa incidência foi significativamente menor para pacientes sem bloqueio, com risco de 2%, e para aqueles com menos de 65 anos, com 3,6% de risco.

Outro levantamento (publicado por D'Amico e cols.) analisou a influência do bloqueio na frequência e no tempo de desenvolvimento do infarto do miocárdio fatal. Esse estudo foi realizado com base na análise retrospectiva combinada dos resultados de três ensaios randomizados com bloqueio androgênico e radioterapia, publicados na Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos.

Observou-se aumento na incidência cumulativa de infarto do miocárdio fatal em pacientes com mais de 65 anos, que receberam bloqueio por seis meses em relação àqueles que não receberam. Pacientes que receberam apenas três meses de bloqueio tiveram incidência de infarto do miocárdio semelhante àqueles submetidos a seis meses de bloqueio, sugerindo que três meses bastariam para causar efeitos cardiovasculares.

É importante destacar que esses estudos apresentam limitações, principalmente por serem retrospectivos, portanto, sem capacidade para controlar outros fatores de risco cardiovascular. Ainda assim, a diferença de mortalidade entre os grupos é muito significativa e sugere um papel relevante do bloqueio nessa diferença.

Assim, apesar de efetiva no tratamento de pacientes com câncer de próstata, a indicação da terapia de privação androgênica deve ser sempre bastante criteriosa e individualizada, visando tanto minimizar o impacto cardiológico como otimizar o benefício oncológico.

Diagnóstico precoce

Outro ponto que precisamos ressaltar é que o tratamento do câncer de próstata com a terapia de bloqueio androgênico é realizada de modo geral nos pacientes com doença já em fase metastática ou localmente avançada. Por isso, o diagnóstico precoce da doença é fundamental. Ele pode ser feito por meio da ultrassonografia, toque retal, dosagem do PSA (antígeno prostático específico) ou biópsia.

Vale reforçar ainda que a doença pode demorar a se manifestar. Em sua fase inicial, o câncer de próstata não apresenta sintomas. O problema é que quando os sinais começam a surgir, cerca de 95% dos tumores já estão em fase avançada, dificultando a cura. Os principais sintomas na fase avançada são: dor óssea, dores ao urinar, vontade de urinar com frequência, presença de sangue na urina e/ou no sêmen.

Assim, exames preventivos constantes são essenciais. Por isso, mesmo que não sintam nenhuma alteração no corpo, homens a partir dos 45 anos com fatores de risco, ou 50 anos sem esses fatores, devem ir anualmente ao urologista para fazer o exame de toque retal, que permite ao médico avaliar alterações da glândula, como endurecimento e presença de nódulos suspeitos, além de fazerem o exame de sangue PSA.

Além disso, como explicado, por conta da correlação entre as duas enfermidades, o tratamento do câncer de próstata desde o início do diagnóstico exige um olhar multidisciplinar, que envolva cardiologista, urologista e oncologista trabalhando juntos. Essa parceria é essencial para escolher o melhor tratamento para o câncer, mas que também seja seguro para o sistema cardiovascular, levando em conta os riscos e benefícios para o paciente.

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