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Paulo Chaccur


Paulo Chaccur

Você é otimista? Quem vive de bem com a vida tem coração mais saudável

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

05/01/2020 04h00

Como você lida com as situações e problemas da vida? A maneira como enxergamos e reagimos aos episódios do dia a dia interferem, não só na nossa saúde mental, mas também têm reflexos no corpo. É aquele papo de olhar para o copo de água na metade e enxergá-lo quase cheio ou quase vazio. Pois aqueles que conseguem ver o copo sempre se enchendo estão em vantagem quando o assunto é a saúde.

Um estudo recente realizado por especialistas da Universidade de Harvard e do Hospital Monte Sinai (Estados Unidos) aponta que o otimismo reduz em 35% o risco de sofrer um evento cardiovascular, como infarto ou AVC (acidente vascular cerebral).

Vida longa e com qualidade

Sabe-se ainda que o otimismo está relacionado com a longevidade: pessoas que conseguem ver o lado bom das coisas tendem a ter uma vida mais longa e com mais qualidade.

Segundo um estudo publicado na revista Proceedings of National Academy of Sciences (EUA), aqueles que têm os níveis altos de otimismo apresentam de 50% a 70% mais chance de viver até os 85 anos ou mais. Além disso, os otimistas têm menos probabilidade de sofrer de doenças crônicas e morrer prematuramente.

Saúde do coração X otimismo

E por que o otimismo faz tão bem para o coração e para o nosso organismo? De modo geral, ter uma mente positiva estimula comportamentos saudáveis. Segundo pesquisas recentes, os otimistas tendem a ser pessoas fisicamente ativas, se preocupam mais com aquilo que colocam no prato e são menos propensos a fumar. As consequências disso são melhores índices de massa corporal e níveis de açúcar e colesterol no sangue, além de uma pressão controlada.

Os otimistas também conseguem lidar melhor com o estresse se comparados aos pessimistas. Quem no geral tem pensamentos positivos diante dos fatos também apresenta uma melhor adesão aos tratamentos de doenças crônicas —ou seja, aquelas que são de longa duração, de progressão lenta e induzem a alterações nos hábitos.

Recuperação

Mais um ponto a favor dos otimistas: de modo geral, pessoas que entram encarando de forma positiva as cirurgias cardíacas raramente têm dor pós-cirúrgica. O fato é que se o paciente compreende a necessidade da cirurgia e atua positivamente, querendo ficar bem e continuar sua trajetória de vida, as situações de dificuldades ou limitações no pós-operatório são consideradas como pequenos obstáculos ou contratempo, e a endorfina liberada nesse período diminui o potencial de dor e a necessidade de analgésicos.

Já o indivíduo que tem uma postura negativa, se comporta de forma totalmente oposta, ou seja, na menor dificuldade já enxerga um grande obstáculo a ser transposto no pós-operatório. Tudo acaba se tornando um problema e a dor fica mais evidente.

Outra diferença também observada nos casos de intervenção cirúrgica é a maneira das pessoas encararem o risco: quando informamos que o risco da cirurgia é de 1%, o indivíduo otimista diz "que bom, eu tenho 99% de chance de ter sucesso e sair bem". Já o pessimista foca e enfatiza sempre no risco, mesmo que ele seja de 1%.

Pensamentos negativos

O pessimismo estimula a produção de substâncias inflamatórias na circulação, que comprometem a integridade dos vasos sanguíneos. O excesso de pensamentos negativos está associado com alterações na pressão arterial e na liberação de hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina. Para se ter ideia do que estamos falando aqui, uma emoção negativa libera mais de 4.000 substâncias químicas nocivas ao organismo!

Esses hormônios do estresse estimulam os batimentos cardíacos e contraem as artérias, dando um sinal para que o corpo forneça mais sangue aos músculos e se prepare para a ação em situações de risco, como lutar ou correr. Tudo isso acaba obrigando o coração a trabalhar mais.

Dessa forma, a constante liberação dessas substâncias no corpo estimula a vasoconstrição, ou seja, a redução do calibre dos vasos sanguíneos. Em consequência, as artérias vão com o tempo diminuindo o seu potencial de adaptação, o que gera a elevação da pressão e dos batimentos. Além disso, ao recrutar "um exército" para defender o organismo, essas substâncias acabam derrubando a imunidade, abrindo o corpo a infecções.

Pessoas pessimistas podem ainda apresentar inquietação, tensão muscular, alteração do sono, ansiedade, depressão e aumento do apetite —fatores de risco e capazes de desencadear problemas sérios, principalmente se o indivíduo tiver tendência às doenças cardiovasculares. Assim, quando as emoções negativas agem de forma contínua no organismo, elas podem desencadear uma crise hipertensiva, arritmia ou infarto do miocárdio.

Mente sã, corpo são

Estudos já revelaram que nossas emoções e pensamentos influem na química, nos hormônios e no funcionamento do organismo. Atualmente, é possível verificar como o comportamento de células e dos neurotransmissores são afetados pelas emoções. Sabemos que os sentimentos podem exercer influência sobre o colesterol, o metabolismo, as doenças coronárias, a hipertensão, os problemas gástricos e de pele e o sistema imunológico.

No entanto, ainda é preciso cautela, uma vez que não é apenas um pensamento bom ou ruim que vai prejudicar ou contribuir com a saúde. É preciso considerar um conjunto de fatores na formação de uma doença, como a genética, hábitos, aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

O que não podemos é negligenciar um quadro pessimista que vem se estendendo. O que os cientistas ressaltam é que tanto o otimismo quanto o pessimismo são mentalidades modificáveis, portanto alvos relevantes para a intervenção.

Em breve, iniciativas a favor da felicidade poderão fazer parte do tratamento e da prevenção de doenças cardíacas. Profissionais envolvidos nesse tipo de pesquisa enfatizam que o pessimismo pode ser reduzido — e o otimismo, incentivado— com técnicas e tratamentos.

Porém, ainda é preciso avançar nos estudos para compreender se esse otimismo "exercitado" é tão poderoso quanto o "natural". Enquanto não há resultados concretos, podemos praticar por conta própria. Com certeza um pouco mais de otimismo na vida não fará mal a ninguém. Que tal então começar o ano buscando enxergar mais o lado bom da vida?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Paulo Chaccur