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Paulo Chaccur


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Endometriose pode acometer praticamente qualquer órgão, inclusive o coração

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

24/11/2019 04h00

Mesmo com todos os avanços da medicina, a endometriose é daquelas doenças misteriosas e repleta de incertezas. Até hoje não foi possível confirmar porque ela se desenvolve e como pode ser prevenida com eficácia. O que já se sabe, no entanto, é que essa doença inflamatória não acomete somente os arredores do útero e pelve, mas pode atingir também outros órgãos mais distantes. Apesar de serem mais raros, coração, pulmões e até o cérebro, são afetados em cerca de 10% dos casos.

Entenda a doença

Normalmente, em função dos hormônios femininos, o útero é preparado para receber o embrião, quando o óvulo é fecundado pelo espermatozoide. Caso isso não aconteça, ocorre a menstruação com a eliminação das células endometriais.

Quando o corpo é acometido pela enfermidade, as células do endométrio —tecido que reveste a parede interna do útero —, crescem, caminham pelas trompas e se espalham pelos ovários, caindo na cavidade abdominal ao invés de serem expelidas pelo corpo no fluxo menstrual.

De modo geral, as células da endometriose se disseminam pela cavidade abdominal, podendo se fixar na parede intestinal, nas vias urinárias e até serem transportadas pela circulação na corrente sanguínea, atingindo, por exemplo, pulmão e cérebro. Essas células passam a receber estímulos dos hormônios femininos e podem causar sangramento contínuo (sensação de menstruar por muito tempo) e muita dor no período menstrual.

Estima-se que uma em cada dez brasileiras tenham a enfermidade. É comum que mulheres convivam com a doença por muito tempo sem saber, sofrendo anos com cólicas menstruais fortes, dores durante a relação sexual, ao evacuar e urinar e outros sintomas que variam de acordo com o órgão acometido.

Inicialmente, os focos da doença tem um a dois milímetros de espessura. Porém, podem crescer na parede dos órgãos e chegar a mais de cinco milímetros, caracterizando uma endometriose profunda.

No coração

Em alguns casos, o endométrio pode chegar também ao pericárdio, membrana que reveste o coração, gerando a endometriose pericárdica. É uma situação rara, mas pode acontecer.

As células endometriais ao atingirem a membrana pericárdica, nela se fixam e se proliferam. Essa inflamação da membrana pericárdica tem como consequência o aparecimento de derrame sanguinolento e dor torácica. Caso aumente a quantidade de líquido no pericárdio, podem surgir ainda sintomas de limitação física, com aparente cansaço aos esforços e algum grau de fadiga.

E como tratar?

Caso o foco não seja muito grande, o controle pode ser feito com medicamentos hormonais, como anticoncepcionais de uso contínuo, que normalmente inibem a menstruação, bloqueando o fluxo e minimizando as dores típicas do período.

Terapias complementares, como acupuntura e fisioterapia, são algumas aliadas que permitem o controle clínico da doença. A cirurgia é indicada em casos específicos: quando o foco é muito grande e o tratamento medicamentoso já não é mais suficiente ou em situações em que existe risco de problemas em algum órgão afetado - como no caso do coração, sendo indicada a retirada do líquido pericárdico com a ressecção da membrana de forma parcial ou total.

Cirurgia da endometriose também pode colocar o coração em risco

De acordo com um estudo realizado por cientistas da Universidade de Harvard e do Brigham and Women's Hospital (EUA), publicado na revista American Heart Association, mulheres que sofrem com endometriose têm mais chances de serem acometidas por doenças cardíacas - entre elas uma maior probabilidade de sofrerem ataque cardíaco ou serem acometidas por dores no peito (angina).

Segundo a pesquisa, que analisou dados de mais de 115 mil voluntárias, a predisposição ocorre principalmente devido a um dos efeitos da cirurgia da endometriose. Em casos mais graves, é preciso retirar o útero e os ovários da paciente, interrompendo o período fértil, consequentemente, antecipando a menopausa.

Em sua fase reprodutiva, a mulher está mais protegida dos problemas cardiovasculares graças ao estrogênio, hormônio que contribuí para equilibrar, por exemplo, o bom colesterol. Na menopausa, os níveis de estrogênio caem e o corpo perde essa proteção natural.

Prevenção e possíveis fatores de risco

Como dito, a medicina ainda não conseguiu estabelecer a causa da endometriose, tornando assim difícil prevenir a doença, mas já se sabe que há um componente genético, visto que filhas de mulheres com formas avançadas da enfermidade têm até seis vezes mais chances de desenvolver o problema.

Sabe-se ainda que algumas doenças imunológicas da tireoide, como a tireoidite de Hashimoto, estão associadas à endometriose. Estresse, sono irregular e alimentação inadequada também podem favorecer a enfermidade.

Substâncias presentes no meio ambiente são outro fator apontado como de risco. São os casos de alguns pesticidas, poluentes industriais e do bisfenol-A, produzido no dia a dia a partir do aquecimento do plástico BPA — em aparelhos de micro-ondas ou locais extremamente quentes.

Fica o alerta

A intensidade da dor é um fator importante para a busca por um parecer médico. As cólicas menstruais fortes não são normais, portanto a recomendação é sempre procurar um especialista para avaliação e a realização de exames.

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Paulo Chaccur