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Paulo Chaccur


Paulo Chaccur

Você sabia que amamentar ajuda a proteger o coração das mães?

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Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

10/11/2019 04h00

Muito já foi falado sobre a importância do leite materno para os bebês. Sabemos que é o alimento mais completo e equilibrado que a criança pode receber, uma vez que ele conta com nutrientes e sais minerais que atendem a todas as necessidades até os seis meses de idade, ajudando na formação do sistema imunológico, na prevenção de alergias e na proteção contra obesidade, diabetes, asma e infecções, entre outros benefícios. E para as mães não é muito diferente. A amamentação tem uma série de pontos positivos para a saúde das mulheres, inclusive em favor do sistema cardiovascular.

Uma aliada do coração

A amamentação reduz o risco de doenças cardíacas ou de um AVC (acidente vascular cerebral). A afirmação é resultado de um estudo realizado na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que envolveu 140 mil mulheres. Segundo a pesquisa, publicada na Obstetrics and Gynaecology, as mulheres que amamentaram por mais de um ano tiveram 10% menos risco de sofrer com essas doenças, se comparado com aquelas que nunca amamentaram.

Outra pesquisa, publicada no periódico da Associação Americana do Coração (AHA), mostra que o aleitamento pode também reduzir o risco —em longo prazo — de infarto. A pesquisa também confirma a menor incidência do AVC nas mães que seguem com a lactação por mais tempo.

Segundo os resultados, de modo geral, as mães que amamentaram seus bebês tiveram um risco 9% menor de doença cardíaca e 8% menor de AVC em comparação às que não amamentaram. Para aquelas que amamentaram por dois anos ou mais, o risco de doença cardíaca foi 18% menor e o de AVC, 17%.

No levantamento, os pesquisadores da Universidade de Oxford, da Academia Chinesa de Ciências Médicas e da Universidade de Pequim analisaram dados de mais de 200 mil mulheres chinesas (com idade média de 51 anos).

De acordo com os estudos, isso ocorre porque, ao amamentar, as mulheres diminuem os depósitos de gordura no corpo, contribuindo para que a saúde cardiovascular se fortaleça.

Amamentar emagrece mesmo!

Durante a gravidez o metabolismo da mulher é alterado, já que o corpo passa a armazenar gordura para fornecer a energia necessária à gestação do bebê. Ao amamentar, a mulher possibilita que o corpo acelere a perda de peso e a eliminação dessa gordura armazenada de forma mais rápida e efetiva.

Para produzir o leite humano há um gasto de energia muito grande. A mulher que amamenta produz cerca de 750 mililitros de leite por dia e para produzi-los o corpo gasta uma média de 640 calorias —ou seja, amamentar realmente emagrece! Quando estendemos isso e levamos em consideração um período maior, a mulher que amamenta seu bebê exclusivamente no peito pode perder até 500 gramas por mês.

Por isso, mães que amamentam seus bebês até pelo menos os seis meses de vida tendem a perder mais rapidamente o peso acumulado durante a gravidez do que aquelas que amamentam apenas nos primeiros 30 dias ou que combinam o leite materno a outros alimentos.

Liberação de hormônios

A liberação de hormônios estimulada pela lactação também tem um papel importante e interfere não só na perda do peso, mas também na sua possível retenção no pós-parto. Quando o bebê suga o seio, o corpo libera ocitocina, hormônio que atua na contração uterina, fazendo com que o útero volte ao tamanho normal e o organismo ao estado anterior à gravidez.

Outro agente benéfico é a prolactina, hormônio proteico que estimula a produção do leite pelas glândulas mamarias e é liberada a partir do cérebro para a corrente sanguínea da mãe. Acredita-se que a prolactina seja um fator que ajuda a reduzir o risco de diabetes.

Os levantamentos recentes também revelam que devido ao processo de amamentação realizado no passado, ao chegar no período da menopausa, época em que as mulheres sofrem mais com eventos cardiovasculares devido a redução dos hormônios, o coração se encontra já protegido e fortalecido, diminuindo ainda mais as probabilidades de desenvolver alguma complicação cardíaca.

Mais benefícios

E por falar em diabetes, os benefícios apontados não param por aí! As pesquisas recentes apontam que amamentar por mais de um ano pode reduzir em cerca de 20% os riscos de as mães sofrerem de diabetes e colesterol alto, e em 12% o risco de pressão alta - pontos que interferem e são fatores de risco para a saúde do coração e podem levar inclusive ao ataque cardíaco!

Essa diminuição do risco de sofrer de hipertensão arterial pode estar associada aos hormônios liberados durante o processo, como já foi dito, que têm um efeito positivo prolongado sobre o sistema cardiovascular da mãe.

A inteligência do corpo

A produção do leite materno ajuda o útero voltar ao tamanho normal mais rápido e diminui o sangramento após o parto, prevenindo a anemia materna e reduzindo o risco de câncer de mama, ovários e endométrio. Além disso, evita a osteoporose, reduz a depressão pós-parto, entre outros pontos.

Ou seja: a amamentação é uma fase importante, um ciclo natural e instintivo do corpo para que se recupere da gravidez. Quando esse processo é interrompido, as mulheres ficam mais propensas a sofrer diversos problemas de saúde, inclusive cardiovascular.

Por isso, mesmo precisando de novos estudos e mais aprofundamento, tudo o que já foi descoberto é um avanço e uma oportunidade sempre de reforçarmos a importância do aleitamento não só para os bebês, mas também para a saúde das mães. Vale lembrar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as mães amamentem seus bebês durante 2 anos ou mais, e pelo menos, seis meses após o nascimento de forma exclusiva.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Paulo Chaccur