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Paulo Chaccur


Paulo Chaccur

O coração também tem sentimentos? Veja como ele reage a raiva e ao amor

Guiyu/iStock
Imagem: Guiyu/iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

26/05/2019 04h00

Não é difícil ouvir por aí alguém comentar que fez um gesto de coração. Ou que buscou no coração a coragem para tomar determinada atitude. Ou ainda que tal ato foi feito por um ser humano de coração enorme ou até por alguém sem coração. Culturalmente na nossa sociedade, o coração e os sentimentos estão relacionados, seja em crenças populares, histórias, metáforas ou expressões.

Dizem que é no coração que se origina o amor, a generosidade, a coragem. Mas é de lá também que apontam o surgimento da tristeza, da magoa, da raiva. É como se os nossos sentimentos passassem e por ali deixassem suas marcas, tanto as positivas como as negativas.

Sabemos que o cérebro é a base do comportamento humano, dos sentimentos e pensamentos. No entanto, cada vez mais a ciência está revelando que a influência das emoções sobre o nosso sistema cardiológico vai muito além das frases, músicas e poesias.

Estudos vem ao longo dos últimos anos comprovando que as experiências que passamos durante a vida, quando geram sentimentos como amor, raiva, alegria, irritação e tristeza, afetam diretamente o coração e podem gerar alterações significativas no funcionamento do órgão. Da mesma maneira, as doenças cardíacas também podem manifestar emoções, como o medo, a tristeza e a ansiedade, revelando que há reciprocidade nessa interação entre mente e coração.

Sempre alerta

Seja por raiva ou extrema felicidade, esses sentimentos, apesar de opostos, geram estados de excitação no nosso corpo que se originam e ativam processos na mesma região do cérebro. As reações do organismo tanto para as emoções boas quanto para as ruins, num primeiro momento, são as mesmas, de alerta.

No nosso cérebro, é o sistema límbico o responsável por receber as informações externas e transformá-las em emoções. Desta forma, um complexo sistema nervoso e humoral é ativado e, através de reações físicas e químicas, controla o funcionamento de vários órgãos, incluindo o coração.

Assim, diante de uma emoção forte - positiva ou negativa - dois processos são ativados. Um que envia sinais elétricos ao músculo cardíaco, influenciando no ritmo dos batimentos; outro, com a produção de diversas substâncias químicas que terão impacto nas estruturas do coração.

A circulação sofre então mudanças repentinas e intensas no período de 3 a 5 segundos, a frequência cardíaca pode aumentar até o dobro do normal, e dentro de 10 a 15 segundos a pressão arterial chega a ser duplicada. Tudo para que o corpo esteja preparado para enfrentar situações de risco e de curta duração.

Sentimentos negativos

No entanto, quando sentimos raiva ou entramos num estado de irritação intensa, junto a essas reações, há ainda uma imediata constrição ou dilatação dos vasos, boca seca, suores, hipertensão arterial, aumento da agregação plaquetária e depressão do sistema imunitário - alterações que contribuem para o desencadeamento dos eventos cardiovasculares.

E quando esse sentimento se torna constante, trazendo junto a ele a mágoa, pessimismo e tristeza, pode promover uma constante liberação de hormônios no corpo que estimulam a vasoconstrição (redução do calibre dos vasos sanguíneos).

Em consequência, as artérias vão diminuindo o seu potencial de adaptação com o tempo, o que gera um aumento da pressão arterial e elevação dos batimentos cardíacos. Fatores que obrigam o coração a trabalhar mais.

Nesses casos pode ocorrer ainda o surgimento de: inquietação, tensão muscular, alteração do sono, ansiedade, depressão, aumento do apetite, tudo isso acarretando problemas sérios, principalmente se o indivíduo possuir tendência à doença cardiovascular de base.

Assim, quando as emoções negativas agem de forma continua no organismo, elas podem desencadear uma crise hipertensiva, arritmia ou infarto do miocárdio.

Um coração cheio de amor

As emoções relacionadas com o amor, a positividade, alegria e o bom humor por outro lado levam ao relaxamento muscular, a vasodilatação, relaxamento intestinal, secreção glandular, salivação, calor sem sudorese, ou seja, manifestações que ajudam a prevenir as doenças cardiovasculares.

Mas vale reforçar que os indivíduos reagem de maneiras diferentes ao mesmo estímulo. A paixão, por exemplo, pode ser uma emoção positiva para uns e a causa da ansiedade de outros. A habilidade de lidar com as situações e interpretá-las como boas ou ruins também vai depender da personalidade, educação, cultura e de experiências de cada um.

Mais atenção aos sentimentos

Embora ainda seja preciso a realização de mais pesquisas para entender melhor os mecanismos físicos e psicológicos da emoção, temos que usar esse conhecimento a favor da nossa saúde, buscando manter o equilíbrio entre corpo e mente, prestando atenção nos sinais que o organismo nos dá e buscando ajuda sempre que houver um quadro constante da presença dos sentimentos negativos, de indícios de depressão e ansiedade.

A influência da saúde emocional no desenvolvimento de doenças cardiovasculares por anos foi subestimada. Hoje, sabermos que as emoções podem precipitar eventos cardíacos está revolucionando a maneira de cuidar do coração.

Baseados nessa constatação há uma corrente de especialistas que defende inclusive a inserção de sentimentos como ansiedade e depressão na lista dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares, ao lado, por exemplo, do tabagismo, colesterol, hipertensão e do sedentarismo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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