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Paulo Chaccur


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Mulheres com problemas de coração podem engravidar?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

03/03/2019 04h00

Essa é uma pergunta que gera certa polêmica por dividir opiniões. Creio que hoje o ponto de partida para o tema e o mais importante a se considerar é evitar generalizações e avaliar cuidadosamente caso a caso. Quando falamos em gestação temos que considerar que o coração da mãe passará nesse período a trabalhar por dois. A gravidez por si só acaba sobrecarregando o metabolismo da mulher. 

A gestante já apresenta naturalmente um aumento da frequência cardíaca para manter as necessidades do seu organismo e do feto. Há um aumento da volemia, ou seja, o volume circulante de sangue passa de 4 litros de uma pessoa normal para até 8 litros de sangue circulando pelo corpo, situação que chamamos de hipervolemia. 

E quem é o responsável por essa circulação? O coração. É ele que vai ter que trabalhar para fazer com que esse novo volume de sangue se movimente pelo corpo da mãe e do bebê. Por isso, quando temos um cenário de cardiopatia é preciso fazer uma análise criteriosa para evitar riscos tanto para a mãe quando para essa criança que está em desenvolvimento. 

Quais são os riscos?

Imagine o coração tendo que administrar um volume de sangue muito maior do que estava acostumado? A gestante precisa estar com uma condição cardiológica adequada para o momento, para conseguir atender de forma saudável essas novas necessidades. Isso quer dizer um coração sem disfunção do músculo, problemas de estreitamento ou vazamento de válvula cardíaca, por exemplo.

Além disso, quando há algum problema cardiológico, o pulmão começa a sentir as consequências, gerando falta de ar, insuficiência respiratória e até edema agudo de pulmão por deficiência cardíaca. 

Assim, o grau de risco de uma cardiopatia para a gestação é dado ao avaliarmos a dinâmica da função do coração. Ao diagnosticar a cardiopatia de base, identificamos que lesão efetivamente tem a válvula do coração e quais possíveis consequências durante uma gravidez. 

Parto normal ou cesárea

A questão do parto é outro tema polêmico dentro desse cenário. Muitos especialistas não permitem que a gestação chegue até o final e recomendam a realização de uma cesárea. 

Isso porque o esforço de um parto normal, somado com a já sobrecarga volumétrica do final da gestação, pode ser muito prejudicial e gerar a descompensação da cardiopatia da gestante. Mas novamente: vale avaliar cada situação, o grau da cardiopatia e as alternativas possíveis para cada mulher.

E como saber qual meu caso?

Dados apontam que até 4% das gestantes podem ter complicações por doenças cardiovasculares. Por isso, é importante que as futuras mamães conheçam as naturais alterações em seu organismo que podem acabar sobrecarregando o coração.

O ideal é que os cuidados cardiológicos antecedam a gravidez. Quando falamos de uma gravidez planejada, a realização de um ecocardiograma, por exemplo, pode evitar complicações futuras. Caso seja detectada alguma alteração no coração, antes de engravidar, a mulher pode passar por um tratamento ou intervenção que solucione ou minimize ao máximo os riscos.

Na minha carreira vivenciei casos de sucesso, de pacientes que, após tratamento, conseguiram que coração funcionasse de forma adequada e possibilitassem a gravidez. Tudo feito com planejamento e muito cuidado.

Descobertas tardias

No caso de mulheres que nunca apresentaram sintomas ou fizeram uma avaliação cardiológica, engravidaram sem planejamento ou ainda negligenciaram os sinais, muitas vezes é necessário um tratamento durante a gestação, incluindo até realização de cirurgias. No entanto, os riscos nessas situações são maiores.

Algumas cardiopatias, especialmente as congênitas, como a comunicação interatrial, às vezes, não têm sintomas evidentes. Se considerarmos mulheres que vivem em classes sociais e regiões do país menos favorecidas, com acesso restrito a informação e recursos, a descoberta do problema cardíaco apenas após o início de exames pré-natais, já depois da gravidez confirmada, é mais recorrente.

Prevenir sempre!

Por isso, reforço: a prevenção é fundamental. Cuidar da saúde, fazer exames rotineiramente e procurar um especialista assim que perceber algum sintoma é de extrema importância para qualquer um, e especialmente para as mulheres que desejam engravidar.
Antigamente essas situações de cardiopatias descobertas apenas durante a gravidez e casos de cirurgias em gestantes ocorriam com uma frequência maior. Isso vem sendo reduzido com os avanços na prevenção, avaliação de riscos usando como critério a gravidade da cardiopatia e as possibilidades de intervenções antes da gravidez. 

Com acompanhamento e tratamento adequados, uma mulher cardiopata pode, sim, engravidar, desde que a gravidade da cardiopatia, como disse, não impeça a gestação e coloque em risco a vida da mãe e do bebê. 

Nesse caso, o acompanhamento multidisciplinar, do obstetra e cardiologista, é fundamental para a indicação de medicações, procedimentos cirúrgicos e o parto mais adequado (normal ou cesárea).

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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