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Paola Machado

REPORTAGEM

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Estudo com milhares relaciona inatividade física com gravidade de covid

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

30/09/2021 04h00

Durante a pandemia, populações em todo o mundo foram aconselhadas a ficar em casa e evitar o contato com pessoas de fora. Bloqueios e outras medidas que restringem as viagens restringiram o acesso a academias, parques e outros locais onde as pessoas podem ser ativas.

Dados (Fitbit) mostraram uma redução substancial de até 38% no número de passos e, de acordo com estimativa apresentada por pesquisadores da Unesp para a Frontiers in Endocrinology nos primeiros meses de confinamento, houve redução de 35% no nível de atividade física e aumento de 28,6% nos comportamentos sedentários —passar mais tempo sentado e deitado, além de maior ingestão de alimentos não saudáveis—confira os dados e referências clicando aqui.

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos identificou fatores de risco para a covid-19 grave, incluindo idade avançada, gênero e a presença de comorbidades subjacentes, como diabetes, obesidade e doenças cardiovasculares.

No entanto, não há dados sobre o efeito da atividade física regular (AF) nos resultados de covid-19, embora a falta de AF seja um fator de risco subjacente bem documentado para várias doenças crônicas, incluindo aquelas associadas a covid grave.

É bem conhecido que a função imunológica melhora com AF regular, e aqueles que são regularmente ativos têm uma menor incidência, intensidade dos sintomas e mortalidade de várias infecções virais. A AF regular reduz o risco de inflamação sistêmica, que é o principal contribuinte para os danos pulmonares causados pela covid-19.

Além disso, o exercício beneficia a saúde cardiovascular, aumenta a capacidade pulmonar e a força muscular e melhora a saúde mental.

Um estudo recente (2021) publicado pelo British Journal of Sports Medicine intitulado em "Physical inactivity is associated with a higher risk for severe COVID-19 outcomes: a study in 48 440 adult patients" comparou as taxas de hospitalização, admissões em UTI (unidade de terapia intensiva) e mortalidade para pacientes com covid-19 que eram consistentemente inativos, realizavam alguma atividade ou cumpriam consistentemente as diretrizes de atividade física.

A pesquisa identificou 48.440 pacientes adultos com diagnóstico de covid de 1 de janeiro de 2020 a 21 de outubro de 2020, com pelo menos três medições de sinais vitais de exercício de 19 de março de 2018 a 18 de março de 2020.

Foi realizado um autorrelato da categoria de atividade física como consistentemente inativo —0 a 10 minutos por semana de alguma atividade—, pouco ativo —11 a 149 minutos por semana— e ativo —150 ou mais minutos por semana.

Os resultados apontam que:

  • Pacientes com covid-19 que permaneceram inativos consistentemente durante os 2 anos anteriores à pandemia tinham maior probabilidade de serem hospitalizados, admitidos na UTI e morrer do que os pacientes que cumpriam consistentemente as diretrizes de atividade física.
  • Além da idade avançada e história de transplante de órgãos, a inatividade física foi o fator de risco mais forte para desfechos graves.
  • Atender às Diretrizes de Atividade Física dos Estados Unidos foi associado a benefícios substanciais, mas mesmo aqueles que praticam alguma atividade física tiveram riscos menores de resultados de covid grave, incluindo morte, do que aqueles que eram consistentemente inativos.

Esses resultados não são surpreendentes, já que está mais que provado, há décadas, os benefícios da prática regular de exercícios físicos. No início da pandemia, houve uma preocupação importantíssima sobre como seria a pandemia, como combatê-la e como evitar o contágio do coronavírus.

Entretanto, um fato é certo nesse tema e deve ser central: cuidar da saúde não é só cuidar da covid-19 e, sim, cuidar do todo, do corpo e do nosso templo.

Inatividade? É um risco para qualquer doença, inclusive covid-19. Obesidade? É um risco para qualquer doença, inclusive covid-19. Alimentação inadequada? É um risco para qualquer doença, inclusive covid-19.

De acordo com um estudo de 2009 publicado na JAMA and Archives Journals intitulado em "Healthy Lifestyle Habits May Be Associated With Reduced Risk Of Chronic Disease", quatro fatores de estilo de vida saudável —nunca fumar, manter um peso saudável, fazer exercícios regularmente e seguir uma dieta saudável— podem estar associados a uma redução de 80% no risco de desenvolver as doenças crônicas mais comuns e mortais.

Por isso, não adianta ficar recluso evitando o contágio pela covid-19, mas continuar inativo, ingerindo besteiras, bebidas alcoólicas de forma indisciplinada, pois você poderá desenvolver condições que antes não tinha, tornar-se uma população de alto risco para desenvolvimento de covid-19 e, até mesmo, comprometer sua longevidade.

É necessário ter lógica e consciência nas nossas ações. Focar no nosso alicerce principal, que é o corpo. O tempo todo estamos expostos a condições e hábitos que podem ser nocivos à nossa saúde. Por isso temos que ser testemunhas fiéis das nossas ações e entender que o objetivo central da nossa vida é cuidar do nosso corpo.

Referências:

Sallis, R.; Young, D.R.; Tartof, S.Y.; et al. Physical inactivity is associated with a higher risk for severe COVID-19 outcomes: a study in 48 440 adult patients. British Journal of Sports Medicine, Vol. 55 Nr. 19 Páginas: 1099 - 1105. 2021.

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JAMA and Archives Journals. "Healthy Lifestyle Habits May Be Associated With Reduced Risk Of Chronic Disease." ScienceDaily. ScienceDaily, 12 August 2009.

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