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Paola Machado

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O que a ciência sabe da relação entre exercício e microbiota

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

16/09/2021 04h00

Mais de um trilhão de microrganismos influenciam o funcionamento do corpo humano. Em uma pessoa saudável, o microbioma —o ambiente bacteriano no trato gastrointestinal— é caracterizado por uma grande variedade de bactérias intestinais (conhecidas como microbiota).

A maior concentração de microrganismos é encontrada no trato gastrointestinal e consiste principalmente de bactérias. A distribuição bacteriana no trato gastrointestinal varia de acordo com a região e é influenciada pelo pH, oxigênio e disponibilidade de nutrientes.

A microbiota intestinal desempenha um papel importante na função intestinal normal e na manutenção da saúde. Produz um grande número de enzimas envolvidas na capacidade de extrair energia da dieta e depositar energia nos estoques de gordura, mas isso depende de um equilíbrio entre bactérias potencialmente patogênicas e vários microrganismos não patogênicos que promovem a saúde.

As bactérias comensais no intestino podem proporcionar os benefícios de um órgão extra eficaz, extraindo energia da digestão da celulose, melhorando o desenvolvimento e a maturação do sistema imunológico intestinal e sistêmico.

Além disso, estudos apontam que a prática de exercícios físicos podem influenciar na microbiota intestinal, destacando uma relação bidirecional, com o exercício impactando a composição da microbiota intestinal, enquanto a microbiota pode influenciar o desempenho.

Os exercícios moderados e intensos —longa distância— costumam fazer parte do regime de treinamento de atletas de resistência, mas exercem efeitos diferentes na saúde.

Uma revisão deste ano (2021), publicada pela Frontiers in Nutrition intitulada em "Interplay Between Exercise and Gut Microbiome in the Context of Human Health and Performance" mostrou que:

  • O exercício moderado tem efeitos positivos na saúde dos atletas, como uma redução da inflamação e da permeabilidade intestinal e uma melhora na composição corporal, induzindo mudanças positivas na composição da microbiota intestinal e nos metabólitos microbianos produzidos no trato gastrointestinal.
  • Já o exercício de longa distância pode aumentar a permeabilidade da parede epitelial gastrointestinal e diminuir a espessura do muco intestinal, potencialmente permitindo que os patógenos entrem na corrente sanguínea, podendo contribuir para o aumento dos níveis de inflamação.
  • No entanto, atletas de elite parecem ter uma diversidade microbiana intestinal maior, deslocada para espécies bacterianas envolvidas na biossíntese de aminoácidos e no metabolismo de carboidratos/fibras, consequentemente produzindo metabólitos-chave, como ácidos graxos de cadeia curta.

Em 2009, uma revisão sobre exercício físico e trato gastrointestinal intitulado em "The impact of physical exercise on the gastrointestinal tract" já mostrava que o exercício físico poderia ser benéfico ou prejudicial para o trato gastrointestinal em uma relação dose-efeito entre sua intensidade e saúde.

Os exercícios de intensidade leve a moderada desempenham um papel protetor contra câncer de cólon, doença diverticular, colelitíase e constipação, ao passo que exercícios intensos agudos podem provocar azia, náusea, vômito, dor abdominal, diarreia e até sangramento gastrointestinal.

A revisão apontou que alguns atletas de elite são prejudicados pelos sintomas gastrointestinais que podem impedi-los de participar de treinamentos e eventos competitivos. Os sintomas gastrointestinais induzidos por exercícios vigorosos são frequentemente atribuídos a alterações na motilidade, fator mecânico ou secreções neuroimunoendócrinas alteradas.

Uma das causas relacionadas poderia ser a relação entre exercícios extenuantes e estados de desidratação referidos por 70% dos atletas. A isquemia intestinal —déficit circulatório para as alças intestinais ou para o intestino, isto é, os vasos sanguíneos da região intestinal apresentam estreitamento ou são totalmente bloqueados, o que acaba por comprometer o correto fluxo sanguíneo no local— seria a principal causa de náusea, vômito, dor abdominal e diarreia com sangue.

A frequência era quase duas vezes maior durante a corrida do que durante outros esportes de resistência como ciclismo ou natação e 1,5 a 3 vezes maior nos atletas de elite do que nos praticantes de recreação.

Treinamentos, modificações no estilo de vida, composição das refeições, hidratação adequada e evitar o uso excessivo de alguns medicamentos orientados por um médico são as recomendações para melhorar o quadro.

Efeitos benéficos do exercício e modificações da microbiota intestinal em indivíduos inativos - Clauss et al (2021) - Clauss et al (2021)
O exercício induz adaptações moleculares benéficas, permitindo o aprimoramento da aptidão cardiorrespiratória. A diversidade bacteriana aumenta, incluindo espécies produtoras de SCFA (ácidos graxos de cadeia curta). Por outro lado, os patobiontes como E. coli e E. faecalis, espécies potencialmente causadoras de doenças que, em circunstâncias normais, são encontradas como um simbionte não prejudicial, diminuem. Ainda faltam estudos longitudinais que monitorem a intensidade e modalidade do exercício, dieta, características dos indivíduos e microbiota intestinal. Fonte: Clauss et al (2021).
Imagem: Clauss et al (2021)

Existe um tempo de treino para impactar o microbioma?

Em um estudo de 2018 da Universidade de Illinois, os pesquisadores descobriram que praticar exercícios por apenas seis semanas pode ter um impacto no microbioma.

A pesquisa contou com uma amostra de humanos bem pequena —18 adultos sedentários com peso normal e 14 adultos com obesidade. Os pesquisadores analisaram os microbiomas intestinais dos participantes e, em seguida, iniciou-se um programa de exercícios que consiste em exercícios cardiovasculares por 30 a 60 minutos, três vezes por semana, durante seis semanas.

No final das seis semanas de exercícios, os pesquisadores novamente colheram amostras dos microbiomas intestinais dos participantes e descobriram que os microbiomas haviam mudado. Alguns participantes experimentaram um aumento em certos micróbios e de outros uma diminuição.

Muitos tiveram um aumento nos micróbios intestinais que auxiliam na produção de ácidos graxos de cadeia curta. Esses ácidos graxos reduzem o risco de doenças inflamatórias, bem como diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardíacas.

Após o período inicial de seis semanas, os participantes retornaram às seis semanas de seu estilo de vida sedentário normal. Quando os pesquisadores coletaram amostras dos microbiomas dos participantes novamente no final deste período sedentário, descobriram que os microbiomas haviam voltado a ser como eram antes do período de exercício, sugerindo que o impacto do exercício sobre o microbioma por um período de apenas seis semanas pode ser transitório.

O estudo reforça que o exercício deve ser feito regularmente e que a interrupção do exercício causa reversão, pois isso é evidente em outras adaptações induzidas pelo treinamento em outros tecidos, como o músculo.

Com esse estudo conseguimos observar que há mudança, mas precisamos entender se períodos mais longos de exercício causam mudanças maiores. Por isso, é necessário mais estudos.

Vale reforçar que idade, genética, composição corporal, medicamentos, presença de doenças, mudanças na dieta e estresse (como a privação de sono) são alguns dos muitos fatores que podem impactar a composição ou função do microbioma intestinal. Esses estudos agregam conhecimentos importantes sobre a influência da composição corporal e prática de exercícios na resposta do microbioma.

Referências:

  • Clauss M, Gérard P, Mosca A, Leclerc M. Interplay Between Exercise and Gut Microbiome in the Context of Human Health and Performance. Front Nutr. 2021;8:637010. Published 2021 Jun 10. doi:10.3389/fnut.2021.637010
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  • Allen JM, Mailing LJ, Niemiro GM, Moore R, Cook MD, White BA, Holscher HD, Woods JA. Exercise Alters Gut Microbiota Composition and Function in Lean and Obese Humans. Med Sci Sports Exerc. 2018 Apr;50(4):747-757. doi: 10.1249/MSS.0000000000001495. PMID: 29166320.
  • Saad MJ, Santos A, Prado PO. Linking Gut Microbiota and Inflammation to Obesity and Insulin Resistance. PHYSIOLOGY 31: 283-293, 2016. Published June 1, 2016; doi:10.1152/physiol.00041.2015.
  • Heiman ML e Greenway FL. A healthy gastrointestinal microbiome is dependent on dietary diversity. Molecular Metabolism. Volume 5, Issue 5. 2016. Pages 317-320. ISSN 2212-8778. https://doi.org/10.1016/j.molmet.2016.02.005.
  • Ruiz-Ojeda F, Plaza-Díaz J, Sáez-Lara MJ et al. Effects of Sweeteners on the Gut Microbiota: A Review of Experimental Studies and Clinical Trials, Advances in Nutrition, Volume 10, Issue suppl_1, January 2019, Pages S31-S48, https://doi.org/10.1093/advances/nmy037.
  • Thursby E, Juge N. Introduction to the human gut microbiota. Biochem J. 2017 May 16;474(11):1823-1836. doi: 10.1042/BCJ20160510. PMID: 28512250; PMCID: PMC5433529.