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Paola Machado

REPORTAGEM

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A ansiedade pode influenciar no seu peso? Sim! Aprenda a gerenciá-la

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

13/09/2021 04h00

Embora seja mais reconhecida por mudanças comportamentais, a ansiedade também pode ter consequências graves sobre a sua saúde física.

No curto prazo, a ansiedade aumenta sua respiração e frequência cardíaca, concentrando o fluxo sanguíneo para o cérebro e para outros órgãos necessários diante de um perigo esperado.

No entanto, um grau de ansiedade elevada pode levar a tonturas e náuseas. Dessa forma, um estado de ansiedade excessiva ou persistente pode ter um efeito devastador em sua saúde física e mental. Isso ocorre não porque uma crise de ansiedade, como um ataque de pânico, vai resultar em um problema de saúde imediato, como um infarto do miocárdio ou um AVC, mas, sim, porque pode provocar uma série de mudanças na sua vida que a longo prazo são nocivas para o seu organismo.

Os transtornos de ansiedade podem ocorrer em qualquer fase da vida, mas geralmente começam no início da vida adulta. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental, órgão dos EUA, as mulheres são mais propensas a ter um transtorno de ansiedade do que os homens.

As experiências de vida estressantes também podem aumentar o risco de desenvolver um transtorno de ansiedade, sendo que os sintomas podem começar imediatamente ou até anos depois. Além disso, ter uma condição médica séria ou um transtorno por uso de substâncias também pode levar a um transtorno de ansiedade.

Dessa forma a ansiedade pode acarretar em problemas mais sérios como depressão, ataque do pânico, crises de dores de cabeça (enxaquecas), irritabilidade, fadiga extrema, redução de libido, taquicardia, problemas respiratórios e, até, influenciar na redução ou aumento de peso.

Ansiedade e peso corporal

O aumento de peso pode ocorrer pela ansiedade interferir em sua rotina de sono, alimentação e exercícios, bem como por aumentar a liberação de hormônios do estresse. Porém, há fatores relacionados com a perda de peso não intencional por meio do esquecimento de se alimentar e uso de alguns medicamentos.

Ansiedade e redução de peso

  • Ocasionalmente, antidepressivos podem causar perda de peso. Em um estudo, alguns medicamentos mostraram efeitos na perda de peso por um longo período de uso. Especificamente, o antidepressivo bupropiona pode resultar em perda de peso. Entretanto, não é um antidepressivo frequentemente utilizado para o tratamento de transtornos ansiosos. Mais frequentemente, o uso de antidepressivos auxilia no controle alimentar através justamente da melhora de sintomas depressivos e ansiosos. Isto é, se sintomas depressivos e ansiosos tiverem aumentado a ingesta alimentar (ou dificultado a realização de atividade físico), o oposto ocorre quando esses sintomas melhoram.
  • A ansiedade pode reduzir seu apetite. Uma revisão descobriu que seu corpo produz um hormônio chamado fator de liberação de corticotropina (CRF) que influencia no seu desejo de comer.

Ansiedade e ganho de peso

  • A ansiedade pode atrapalhar seu sono, o que tem ligação importante com o ganho de peso. Um estudo de 2010 descobriu que os participantes perderam menos gordura corporal e mais massa magra quando dormiram por 5,5 horas em vez de 8,5 horas. Aqueles que dormiram menos tempo também relataram sentir mais fome durante as horas de vigília. A ansiedade pode causar distúrbios do sono e, por sua vez, aumentar a fadiga, sendo que ambas podem fazer com que você anseie por alimentos não saudáveis e se exercite/se movimente menos.
  • A ansiedade pode causar aumento do cortisol, o que pode aumentar o armazenamento de gordura corporal. Um estudo de 2011 mostrou que, embora a ansiedade possa acelerar o metabolismo e liberar hormônios supressores do apetite, há também uma correlação com o aumento dos níveis de cortisol. Os cientistas acreditam que o corpo libere cortisol quando está com níveis elevados de estresse ou ansiedade. Uma revisão de pesquisa de 2013 sugeriu que níveis elevados de cortisol podem causar ganho de peso ou tornar mais difícil perder peso. Quando a ansiedade ou o estresse disparam a resposta de "lutar ou fugir" do seu corpo, mais cortisol começa a circular, atrapalhando seu metabolismo e causando um aumento no apetite e desejo por alimentos doces, com alto teor de gordura e salgados.
  • A ansiedade pode tornar mais difícil fazer escolhas alimentares saudáveis. Pessoas com ansiedade podem ter dificuldade em tomar decisões sobre o que comer, resultando no consumo de alimentos não saudáveis. Além do mais, comer distraído pode fazer com que coma mais, prestando menos atenção ao que estão comendo ou quanto estão comendo.
  • Alguns medicamentos antidepressivos podem causar ganho de peso. Principalmente, os antidepressivos chamados tricíclicos (como a amitriptilina, clomipramina e a nortriptilina), a paroxetina e a mirtazapina são fármacos que podem aumentar o apetite e assim gerar ganho de peso. Entretanto, a maior parte dos antidepressivos tem ação neutra para ganho ou perda de peso.
  • A ansiedade pode reduzir o interesse pelos treinos. Os exercícios podem ajudá-lo a perder peso, relaxar e trazer diversos benefícios à saúde. Mas quando você está se sentindo ansioso ou deprimido, treinar pode ser a última coisa que você tem vontade de fazer. Um estudo de 2011 mostrou uma conexão entre ansiedade e uma menor taxa de participação em atividades físicas. Quando algumas pessoas estão ansiosas, elas se movem e se exercitam menos e quanto menos você se move, mais difícil é para seu corpo gastar energia e o metabolismo desacelera com a diminuição da atividade física.

Como gerenciar a ansiedade e a flutuação de peso

1. Mantenha um diário de preocupações. Cada vez que você se encontrar lutando com um pensamento ou sentimento ansioso, escreva. Tirar a ansiedade da cabeça e colocá-la no papel pode torná-la menos urgente ou imediata, o que pode ajudá-lo a se livrar da ansiedade, desabafar e dormir.

2. Faça mindfulness e meditação. A prática de mindfulness, que envolve focar no momento presente de maneira aberta para a experiência que surgir, demonstrou reduzir os sintomas de ansiedade e diminuir as respostas de estresse do nosso organismo (incluindo respostas hormonais e inflamatórias). Inclusive, seu corpo pode começar a colher os benefícios de redução da ansiedade após uma única sessão. Para realizar: sente-se confortavelmente e feche os olhos; concentre-se em sua respiração; quando os pensamentos surgirem, reconheça-os e volte a atenção para a respiração; repita toda vez que você se distrair com um pensamento.

3. Tente ir à academia ou, pelo menos, caminhar. O exercício ajuda a perder peso, mas uma revisão de pesquisa também mostrou que ele reduz os sintomas físicos e mentais de ansiedade e melhora o humor e o sono —tudo o que o ajudará a perder peso. É como um ciclo de feedback positivo que o deixará se sentindo melhor mental e fisicamente. Se a sua ansiedade está dificultando os exercícios regulares, comece devagar e quando sua ansiedade estiver sob controle, será mais fácil chegar à academia e começar a se exercitar. De acordo com a Anxiety and Depression Association of America, uma caminhada de 10 minutos pode ser tão eficaz para aliviar a ansiedade quanto exercícios mais longos e intensos. Estabeleça metas ao longo do caminho para a melhoria contínua.

Colaboração de Pedro Rosa, médico psiquiatra. Graduado em medicina pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), residência médica em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, doutor em ciências pela FMUSP, pesquisador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM-21) da FMUSP. Atua em consultório privado e em hospitais em São Paulo (Hospital Israelita Albert Einstein e Hospital Sírio-Libanês).

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