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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Um ataque de pânico pode ser fatal? Tire dúvidas sobre o problema

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

08/07/2021 04h00

Medo, incertezas, estresse, ansiedade, depressão... As preocupações geradas na pandemia abalaram a saúde mental de muita gente —ou agravaram problemas já existentes. E o ataque de pânico é um entre tantos transtonos que algumas pessoas estão enfrentando.

Segundo Pedro Rosa, médico psiquiatra e doutor em ciências pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), que atende no Hospital Israelita Albert Einstein e no Hospital Sirio-Libanês, o ataque de pânico é uma sensação abrupta e intensa de medo, terror e de apreensão. Tipicamente, o problema surge de forma bastante abrupta e atinge um pico de intensidade rapidamente (em aproximadamente 10 minutos), seguido por uma melhora progressiva.

Além do medo, terror e apreensão, os ataques de pânico são marcados por intensos e muitas vezes numerosos sintomas físicos, como:

  • Dor ou desconforto torácico
  • Taquicardia ou palpitações
  • Sensações de frio ou de calor pelo corpo
  • Sensação de engasgamento
  • Tontura
  • Desequilíbrio
  • Sensação de desmaio ou até efetivo desmaio
  • Sensação de estranhamento com a realidade ao redor do invidívuo ou de estranhamento com o próprio corpo
  • Náusea ou outros incômodos abdominais
  • Formigamento ou perda de sensibilidade
  • Dificuldade para respirar (respiração curta e rápida)
  • Tremores
  • Sudorese

Além disso, é muito frequente que, durante um ataque de pânico, indivíduos tenham a certeza de que estão passando por um grave problema de saúde, como um infarto do miocárdio ou um AVC (acidente vascular cerebral), ou que estão perdendo o controle e enlouquecendo. Ataques de pânico não têm essas consequências ruins, mas é muito frequente que aquele que sofre desses ataques tenha a certeza de que isso ocorrerá.

Tipicamente, os sintomas desaparecem dentro de uma hora, ainda que alguns pacientes se sintam profundamente abalados por longos períodos pela ocorrência. Para algumas pessoas, infelizmente, os ataques de pânico podem se repetir dentro de um mesmo dia.

Ataques de pânico podem se desencadeados por diversos fatores, como a exposição a algo de que se tem uma fobia (andar de avião). Entretanto, neste texto, vamos nos concentrar nos ataques de pânico que surgem sem desencadeante claro e que, com frequência, acabam formando um transtorno de pânico.

O que você precisa saber sobre o transtorno de pânico...

Transtorno de Pânico é um transtorno ansioso comum. Estima-se que o risco de apresentar transtorno de pânico ao longo da vida varia entre 2% a 6% na população geral. Esse potencialmente debilitante problema de saúde é caracterizado pela recorrência de ataques de pânico, que tipicamente ocorrem, ao menos inicialmente, sem fatores desencadeantes. Além disso, indivíduos com transtorno de pânico apresentam progressivo medo de ter novos ataques de pânico. Em função disso, passam a ajustar suas vidas de forma que sintam que a chance de isso ocorrer venha a diminuir.

Com frequência, esses ajustes envolvem o abandono de atividades importantes, restringindo a vida de quem tem o transtorno de pânico. Esse padrão de comportamento acaba por consolidar uma maneira muito pouco eficiente de lidar com o transtorno de pânico. A cada vez que o indivíduo antecipa que sair de casa pode desencadear um ataque de pânico e, em seguida, decide não sair de casa e então se sente aliviado, acaba aumentando o risco de que novos ataques de pânico surjam no futuro.

De forma oposta, profissionais de saúde tendem a recomendar a exposição progressiva e sistemática às situações que desencadeiam medo de ataque de pânico. Assim, o indivíduo tem a oportunidade de assimilar a ideia de que a ansiedade passa por si própria e que há maneiras melhores de enfrentar o problema do que restringir progressivamente a própria vida.

Como se diagnostica o transtorno de pânico?

O diagnóstico de transtorno de pânico exige a exclusão de potenciais outras causas para os sintomas em questão. Essa avaliação inclui não somente a diferenciação do transtorno de pânico de outros transtornos mentais, como o transtorno de ansiedade generalizada e outros, mas também a exclusão de problemas físicos, como arritmias cardíacas. Para isso, é importante realizar uma avaliação médica.

O ataque de pânico pode matar?

O ataque de pânico é certamente aterrorizante, mas fique tranquilo, não é fatal.

Durante um ataque de pânico, a pessoa é dominada por sentimentos de medo e ansiedade, o que faz com que o corpo reaja como se estivesse em perigo. Ele entra no modo "lutar ou fugir". Ataque de pânico é um alarme falso do nosso organismo.

Essas mudanças temporárias podem ser desconfortáveis e assustadoras, mas não matam o indivíduo. Por exemplo, um evento que frequentemente assusta aqueles que têm ataques de pânico são os desmaios. Algumas pessoas podem respirar de forma rápida e superficial durante um ataque de pânico, vindo a hiperventilar (uma forma de "excesso de respiração"). A hiperventilação reduz os níveis de dióxido de carbono no sangue, o que pode fazer a pessoa se sentir tonta. Em casos raros, o indivíduo pode desmaiar.

Como é o tratamento do transtorno de pânico?

O tratamento do transtorno de pânico, como é habitualmente o tratamento da maior parte dos transtornos mentais, envolve o uso de medicações e psicoterapia. Além disso, inclui recomendações importantes de estilo de vida: inclusão de hábitos que podem melhorar os sintomas deste problema de saúde e remoção de hábitos que pioram esses sintomas. Mas isso vai ficar para o próximo texto da coluna, aguarde.

*Colaboração Dr Pedro Rosa, médico psiquiatra. Graduação em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Residência médica em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Doutor em ciências pela FMUSP. Pesquisador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM-21) da FMUSP. Atua em consultório privado e em hospitais em São Paulo (Hospital Israelita Albert Einstein e Hospital Sirio-Libanês).

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL