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Paola Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você come mais quando está sozinho ou com amigos e família? Preste atenção

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

09/06/2021 04h00

Embora estejamos em época de pandemia, já nos deparamos com vários restaurantes ou lanchonetes abertas, encontros familiares à mesa são retomados discretamente, bem como os eventos que buscam celebrar a vida, datas especiais ou até para compartilhar a saudade de entes queridos.

As refeições são muitas vezes utilizadas para nos conhecermos, convivermos, partilharmos e comemorarmos acontecimentos.

A quantidade de comida que ingerimos e as escolhas alimentares que fazemos são influenciadas por inúmeros fatores: nossas preferências ou aversões; a disponibilidade tanto física quanto financeira, as nossas necessidades nutricionais e a sensação de fome ou vontade de comer, assim como o contexto social ao qual estamos expostos.

Além dos aspectos biológico e fisiológico, as práticas alimentares compreendem questões emocionais e culturais; a seleção e a compra dos ingredientes; a manipulação e o modo de preparo dos alimentos; o planejamento das refeições que vai aguçando a vontade de comer desde o momento em que tudo começa a ser pensado.

O convívio entre os pares, com familiares, amigos, entre outros, propicia interações que contribuem para o nosso desenvolvimento social, e a comida torna-se um veículo importante de socialização.

Se a formação desta relação começa na infância, é certamente na adolescência que a relevância se torna ainda mais evidente, uma vez que existe uma necessidade real de aceitação e reprodução de um padrão, inclusive alimentar, utilizado pelo grupo ao qual se deseja fazer parte.

Você já anotou ou observou atentamente o tamanho de suas porções, bem como a quantidade de alimentos e de repetições que você realiza quando está sozinho, em comparação a quando está com amigos num evento descontraído ou em um evento de trabalho? Te convido a fazer esta análise com a finalidade de observar se ocorre mudança em suas escolhas, temperos e quantidades.

Certamente você se surpreenderá com a observação e reconhecerá a importância cada vez maior de um assunto tão comentado recentemente que é a atenção plena, inclusive no campo da alimentação; por meio de práticas é possível comer de maneira mais consciente, sem ser influenciado por tantos fatores que estão em nosso redor.

Diante das inúmeras sensações e conexões que envolvem a alimentação, certamente quando acessamos a memória, sentimos o cheiro, manipulamos o alimento, despertamos um interesse ainda maior, o que aumenta a vontade de comer.

A presença de outras pessoas, quer seja como observadores, quer seja compartilhando, provoca uma ativação fisiológica que pode derivar quer do receio de uma avaliação negativa, quer de uma diminuição dos recursos atencionais que resultam em distração e aumento na quantidade consumida —de qualquer maneira, o resultado nunca será igual quando você come sozinho.

Para muitas pessoas, a presença de familiares facilita o consumo, a presença de não familiares inibe-o, isto porque existe o movimento de seguir o outro, presente em contextos informais, e portanto fazendo com que as pessoas comam tanto como as que as rodeiam, explicando por que se come mais com amigos e familiares. E naquelas situações formais, como eventos de trabalho, ou quando é importante causar uma impressão positiva, as pessoas guiam-se pela norma de comer pouco.

Viu só? Atenção no comer é essencial, independentemente do contexto em que você realiza as suas refeições, mantenha um padrão alimentar para colher bons frutos. Você terminará as suas refeições sentindo-se agradavelmente satisfeito, sem mal-estar ou aquela sensação de ter ultrapassado os seus limites.

*Colaboração da nutricionista comportamental Samantha Rhein (Unifesp).

Referências:

- Batista, MT; Lima, ML. Comer o quê com quem?: Influência social indirecta no comportamento alimentar ambivalentes. Processos Psicológicos Básicos ? Psicol. Reflex. Crit. 26 (1), 2013.

- De Oliveira, BMF; Frutuoso, MFP. Muito além dos nutrientes: experiências e conexões com crianças autistas a partir do cozinhar e comer juntos. Cad. Saúde Pública 37 (4) 30 Abr 2021.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL