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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quando for se exercitar, foque também na saúde e não só no emagrecimento

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

07/05/2021 04h00

É muito comum que a primeira pergunta de uma pessoa que está começando a treinar seja: "Quantos quilos consigo perder? Em quanto tempo?" Mas será que, pensando em manutenção da atividade física e estilo de vida, só focar no emagrecimento é a melhor das estratégias?

A perda de peso pode ser uma meta válida, mas emagrecer não deve ser sua única razão para treinar. Na verdade, quando vemos a atividade física como algo transacional —em outras palavras, suamos apenas para queimar calorias e perder peso— podemos nos frustrar ou criar um prazo determinado para seguir se exercitando.

Explico melhor: quem pensa em treinar só para emagrecer pode criar uma expectativa muitas vezes acima da possível, se estressar com a "demora" para os resultados aparecerem e colocar uma pressão sobre o objetivo final. Também podemos estabelecer, inconscientemente, um prazo interno. Isso é, depois de emagrecer o desejado, você relaxa e desanima, não terá mais motivo para continuar se exercitando —dentre tantas outras questões. Aí, você para, recupera o peso e o ciclo recomeça —o famoso efeito sanfona.

Esse padrão pode colocar você em um risco maior de ganho de peso, bem como gerar distúrbios alimentares, ansiedade, depressão, doenças cardíacas e obesidade. Embora mudar essa mentalidade de treinar só para emagrecer possa levar algum tempo, é totalmente possível. A seguir, dou dicas e estratégias irão ajudá-lo a separar as metas de perda de peso do exercício e colocá-lo no caminho para uma relação mais saudável e com o exercício físico.

*Curiosidade: você sabia que, quando emagrecemos e reduzimos a gordura corporal, utilizamos os lipídeos que estão "dentro" das células de gordura (adipócitos), porém essas células continuam no corpo, só que "murchas"? E quando há o reganho de peso (efeito sanfona), além de reabastecer essas células com a gordura, podemos ganhar até 20% de adipócitos novos —que não existiam antes.

1. monitore as metas de saúde, não só o peso

Gosto de ter o peso como um dos parâmetros do treinamento, mas não como o único parâmetro, nem como o principal dos parâmetros. Porém, para muitos pacientes, essa estratégia não é muito eficaz e causa mais ansiedade/frustração. Como já dei de exemplo aqui na coluna, já tive muitos pacientes que tinham como objetivo perder 10 kg. Eles reduziram 8 kg na balança, sendo que ganharam 2 kg de músculos e eliminaram 10 kg de gordura. No entanto, por estarem tão focados no peso, acharam o resultado negativo.

Por isso, sempre digo para anotar no início todos os sinais e sintomas que têm sentido (disposição, fôlego, humor, dores nas costas, dor na cabeça, sono etc.) e, à medida que for evoluindo no processo, anotar como está se sentindo e o que melhorou. Pense sempre no copo meio cheio, não meio vazio. Foque em pontos que vão melhorar sua qualidade de vida e não somente no peso.

2. Não faça exercícios que você não gosta ou só porque deram resultado para alguém

Quantas vezes, quando trabalhava em academia, alguns praticantes de "temporada" (que só treinavam para o verão, por exemplo), chegavam já resmungando: "Afe! Detesto musculação, mas vou fazer". Essas mesmas pessoas eram aquelas que só iam durante um mês, sumiam por um longo tempo e depois voltavam para a nova aula de funcional da moda, porque tinha dado certo para um amigo. Assim, não conseguiam encontrar um treino que, de fato, gostavam e conseguiam manter.

Por isso, pense em uma rotina de exercícios que será sustentável, que você poderá progredir e, por fim, conseguirá manter pelo menos durante um ano da sua vida. Vou dar meu exemplo. Sabe quando encontrei uma atividade com que me identificava? Quando eu notei qual era o meu perfil!

Sempre fui uma pessoa descoordenada (esqueça a ideia de me chamar para uma aula de Zumba!), porém, sempre fui uma pessoa focada e concentrada, que gostava de interagir com o "meu eu". Então, optei na minha vida toda por modalidades mais individuais, como musculação, bike e corrida, ou competitivas (sou muito competitiva), como jiu-jítsu, capoeira e muay thai.

3. Use exercícios para relaxar ou reduzir o estresse

Ao ir treinar você pensa: "Que saco! Tenho que ir para a academia!"? Se faz isso, você já está indo fazer exercícios estressado e desmotivado. Não será de um dia para o outro (ainda mais porque funcionamos com resultados, não é mesmo?), mas temos que focar na nossa mentalidade, usando a chave contrária, ou seja, o treino não deve ser mais um estresse para o seu dia e, sim, um momento dedicado ao carinho e cuidado do seu corpo.

Pense sempre em como ficará após o seu treino, o quanto a atividade física desencadeia a liberação de endorfina. E quando estiver se sentindo ansioso, agitado ou estressado, mova seu corpo da maneira que achar melhor. Faça ioga, coloque algumas músicas e dance ou dê uma corrida ao ar livre.

4. O momento do seu treino deve ser visto como um grande privilégio

Embora você possa não ter motivação para iniciar o seu treino (o que é totalmente natural), o exercício não deve parecer um grande peso. Na verdade, pense nisso como o oposto: de 24 horas do meu dia, preciso reservar apenas uma hora para desfrutar de benefícios para o meu corpo e se concentrar em minhas necessidades —quantas vezes você ficou atualizando o feed da sua mídia social e nem percebeu que passou uma hora sem fazer nada pela saúde do seu corpo?

Por isso, veja o exercício como um tempo para você, em que fortalece seu corpo e centraliza seus pensamentos. Tente se concentrar em sentir-se grato por ter um corpo capaz e saudável. E se você se sentir mal com a ideia de se exercitar, pode ser hora de mudar sua rotina, experimentando um novo treino ou mudando o ambiente do seu treino, criando uma nova playlist etc.

5. Faça exercício por um estilo de vida, não por uma meta

Embora definir metas possa ser motivador, sua relação com os exercícios não precisa de um objetivo ou um prazo definido para colher bons frutos. Em vez de se concentrar em perder quilos (que é uma meta de curto prazo), pense em como você pode melhorar sua saúde física e mental com o treino. Trate sua relação com os exercícios como uma maratona, não como uma corrida de 100 m. Que o exercício seja duradouro e dê atenção às necessidades do seu corpo.

Quando se trata das vantagens dos exercícios, perder peso é apenas uma delas. Se você estiver preso na balança, tente se lembrar de todas as outras maneiras pelas quais a atividade física pode levar a grandes recompensas para o seu corpo e mente, como redução do risco de doenças cardíacas, de síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer. Pense também na melhora da saúde mental e do humor, controle do estresse, ansiedade e depressão, melhora da saúde óssea e muscular, melhora do equilíbrio e redução de fragilidade, melhora da coordenação, sono, enfim aumentando assim sua saúde em geral e longevidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL