PUBLICIDADE

Topo

Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Capacidade de se sentir feliz já é pré-determinada pela genética?

iStock
Imagem: iStock
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

13/04/2021 04h00

A felicidade está relacionada com emoções como a satisfação, o contentamento, o orgulho, o otimismo, a esperança e a confiança. Todo ser humano invariavelmente busca, de forma direta ou indireta, ter bem-estar e conquistar o que considera a felicidade, como prazer ou gratificação, senso de sentido e propósito na vida.

Diversos estudiosos se dedicam a estudar as cognições, hábitos e comportamentos associados às pessoas que dizem ser mais felizes. A ciência demonstra que o bem-estar tem um papel importante na longevidade em populações saudáveis, sendo o impacto do seu efeito tão importante quanto o impacto do tabagismo, por exemplo, na mortalidade de uma população.

Criança feliz

Quando perguntadas se são felizes, 85% das crianças consideram que sim. Para as crianças, a ideia de felicidade geralmente se associa a fazer coisas divertidas e estar na companhia de amigos e familiares. Simples né? Mas estudos apontam que o entendimento de felicidade reflete o nível cognitivo da criança em desenvolvimento e, à medida que desenvolve suas habilidades, fica evidente que novos desafios e novos "problemas" surgem dificultando a busca da tal felicidade.

Felicidade é genética?

A ONU (Organização das Nações Unidas) anualmente faz um ranking de classificação de felicidade e a Finlândia aparece no topo do pódio dos três últimos pódios.

Se a percepção de felicidade e bem-estar depender somente da genética, os finlandeses parecem ter os genes, alelos e combinações mais desejados! Mas será mesmo que somente os genes garantem a percepção de felicidade e plenitude?

A ciência vem se dedicando a entender como podemos modular a felicidade e o bem-estar. Há uma linha de pesquisadores que têm a teoria de que a capacidade de se sentir feliz é determinada geneticamente. Mas vale lembrar que os índices nacionais de felicidade não são estáveis e são influenciados por outras variáveis. Estudos mostram que o clima, o ambiente em que se vive, a presença de doenças, dados econômicos, fatores sociais, valores e crenças das pessoas diferem na percepção de bem-estar.

Há países paupérrimos e com alto índice de criminalidade que se dizem mais felizes que países com altos índices de desenvolvimento humano. A expressão genética pode explicar o fato de algumas populações produzirem de maneira mais eficiente neurotransmissores que trazem bem-estar e felicidade.

No entanto, não há determinismo genético para a infelicidade. Sabe-se que há fatores mutáveis que cientistas apontam ser valiosos para sentir bem-estar. A percepção de bem-estar é o resultado de um conjunto de parâmetros individuais, modificáveis ou não, sendo o estilo de vida considerado um fator influenciador para a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida.

A ciência aponta a possibilidade de produzir felicidade

Você pode não estar no seu ponto mais alto de felicidade agora em 2021, afinal, estamos vivendo em meio à pandemia e a sensação de falta de controle gera ansiedade. Mas você sabia que o seu cérebro foi feito para se adaptar a ser feliz independentemente dos eventos?

Estudos com vítimas de tragédias e perdas importantes na vida relatam que há um ponto de equilíbrio em nosso cérebro que nos faz superar esses momentos, bem como, estudos conduzidos com ganhadores de loteria que se tornaram milionários da noite para o dia também comprovam que há um platô para essa percepção de felicidade ao longo do tempo. Cientistas apontam que a chave para se ter bem-estar a longo prazo é cultivar um estilo de vida moldado por hábitos, rotina e consistência de atividades tanto físicas quanto mentais.

Listamos aqui um guia resumido de 5 hábitos que podem parecer super clichê, mas que a ciência já mostrou trazer um grande impacto na qualidade de vida e bem-estar. Procure implementar essas pequenas mudanças:

  • Durma bem

Dados da ABS (Associação Brasileira do Sono) apontam que cerca de 60% dos brasileiros dormem menos de sete horas por dia. Dormir pouco afeta a imunidade e a capacidade natural do corpo e mente se recuperarem.

Pesquisas mostram que uma boa noite de sono melhora quadros de depressão, aumentando a imunidade e o bom humor!

  • Mexa o corpo

Exercitar-se é apontado pela ciência como fator mutável para aumento da longevidade, melhora do funcionamento cognitivo e psicosssocial (satisfação, autoestima, menor prevalência de ansiedade e depressão etc.), contribuindo para a saúde mental e bem-estar emocional.

Pesquisas comprovam que praticar pelo menos 30 minutos por dia de exercícios físicos melhora o humor! Reserve alguns minutos após a atividade para perceber como você se sente depois do exercício com a liberação de hormônios do bem-estar e satisfação:

  • Respire e medite

A meditação é a prática de desviar intencionalmente a atenção de pensamentos que te distraem para um único ponto, como a respiração, um som ou em um pensamento específico. Pesquisas comprovam o papel da meditação e de técnicas de respiração na diminuição do estresse, modulação do padrão de controle mental e aumento da percepção de satisfação e felicidade!

  • Queira o bem

Outro hábito simples é o de ser e se sentir grato, compartilhando sua gratidão com os outros. A ciência comprova que esse simples pensamento gera sensação de plenitude e contentamento imediato. Estudos mostram que há um sentimento compartilhado (por que dá e por quem recebe) de contentamento, bem-estar e satisfação ao participar de ações sociais ou ao presentear alguém.

  • Pare de comparar sua vida com a dos vizinhos (pelas redes sociais)

Esteja presente em sua vida, foque no que você tem e no que fez de bom hoje —pequenas ações devem ser contempladas na sua rotina. A cada um cabe julgar o quanto as suas expectativas de felicidade e contentamento são alcançadas ao longo do dia, da semana, do ano, ou de uma vida inteira — independentemente da presença de problemas externos existentes.

Lembre-se que a percepção de felicidade é um processo contínuo de construção de hábitos e atitudes mentais. Por isso, você pode ajudar sua mente a melhorar seu humor e sua percepção de felicidade.

*Colaboração Dra. Juliana Satake, fisioterapeuta sócia da La Posture e Dra. Renata Luri, fisioterapeuta doutorada pela Unifesp.

Referências:

Acesso em março de 2020: The Science of Well-Being, da Yale University Yale University

Barros, Jônatas de França; Sales, Marcelo Magalhães; Browne, Rodrigo Alberto Vieira; Lopes, Keila Maria Dias Carmo. Efeitos agudos de diferentes intensidades e volumes de exercício aeróbio sobre as concentrações de triptofano e serotonina em mulheres idosas fisicamente ativas / Acute effects of different intensities and amounts of aerobic exercise on the concentrations of tryptophan and serotonin in physically active elderly women. Rev. bras. educ. fís. esp ; 28(4): 535-544, 12/2014.

Birnbacher D. Ist Glück ?machbar"? [Can Happiness be "Produced"?]. Psychiatr Prax. 2018 Jul;45(S 01):S10-S14. German. doi: 10.1055/s-0043-123739. Epub 2018 Jul 3. PMID: 29969813.

Dinas, P C; Koutedakis, Y; Flouris, A D.Effects of exercise and physical activity on depression. Ir J Med Sci ; 180(2): 319-25, 2011.

Formiga, Nilton S. et al. A medida do bem-estar subjetivo em jovens Fisicamente ativos e não ativos. Salud & Sociedad [online]. 2014, vol.5, n.1 [citado 2020-11-11], pp. 54-64 .

Giacomoni, Claudia Hofheinz, Souza, Luciana Karine de, & Hutz, Claudio Simon. (2016). Você é feliz? A autopercepção da felicidade em crianças. Psicologia da Educação, (43), 13-22. https://dx.doi.org/10.5935/2175-3520.20160002

Gomes, Aramid; Ramos, Sílvia; Ferreira, Ana Rita; Montalvão, Joana; Ribeiro, Isilda; Lima, Filipa.A efetividade do exercício físico no tratamento da depressão / The effectiveness of exercise in depression treatment / La efectividad del ejercicio físico en el tratamiento de la depresión. Rev. port. enferm. saúde mental ; (22): 58-64, dez. 2019.

Heyman, E; Gamelin, F-X; Goekint, M; Piscitelli, F; Roelands, B; Leclair, E; Di Marzo, V; Meeusen, R.Intense exercise increases circulating endocannabinoid and BDNF levels in humans—possible implications for reward and depression. Psychoneuroendocrinology ; 37(6): 844-51, 2012.

Lyubomirsky S, Lepper H. A measure of subjective happiness: Preliminary reliability and construct validation. Soc Ind Res. 1999;46:137-155.

Melancon, Michel O; Lorrain, Dominique; Dionne, Isabelle J. Changes in markers of brain serotonin activity in response to chronic exercise in senior men. Appl Physiol Nutr Metab ; 39(11): 1250-6, 2014.

Meyer JD, Koltyn KF, Stegner AJ, Kim JS, Cook DB. Influence of Exercise Intensity for Improving Depressed Mood in Depression: A Dose-Response Study. Behav Ther. 2016 Jul;47(4):527-37. doi: 10.1016/j.beth.2016.04.003.

Mello, et. al. O exercício físico e os aspectos psicobiológicos. Rev Bras Med Esporte vol.11 no.3 Niterói May/June 2005.

Waldinger R. What makes a good life? Lessons from the longest study on happiness. TED website. https://www.ted.com/talks/robert_waldinger_what_makes_a_good_life_lessons_from_the_longest_study_on_happiness?utm_source=tedcomshare&utm_medium=email&utm_campaign=tedspread. Published November 2015.v

Thoilliez, B. (2011). How to grow up happy: an exploratory study on the meaning of happiness from children's voices. Child Indicators Research, 4,323-351.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL