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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Minha hérnia de disco pode diminuir ou sumir? Entenda o problema de coluna

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Imagem: iStock
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

24/03/2021 04h00

O movimento da sua coluna ocorre em regiões constituídas por duas vértebras, ligamentos e o disco intervertebral. O disco, por sua vez, conta com duas estruturas:

  • núcleo pulposo: corresponde à parte central do disco, um gel semifluido composto por 70% de água, garantindo resistência à compressão e absorção de impactos;
  • ânulo fibroso: corresponde à parte externa do disco revestindo o núcleo pulposo, e consiste em um tecido mais fibroso e denso, rico em colágeno tipo 1, que proporciona resistência aos movimentos de torção, tensão e carga axial.

A função do disco se dá na absorção e na distribuição de forças que ocorrem na coluna vertebral durante movimentos, manutenção de posturas, atividades de impacto e na liberdade de movimento da coluna. Assim, a saúde e integridade desse disco tem papel na função mecânica da coluna. Quando os movimentos e as cargas impostas ao disco excedem sua capacidade estrutural, desencadeiam degeneração e desidratação.

O que é a hérnia de disco?

É o deslocamento anormal do disco no espaço entre as vértebras, acometendo qualquer segmento da coluna, em especial, regiões de maior mobilidade, como a região do pescoço e da lombar. O deslocamento pode levar à compressão do canal vertebral e de nervos que partem da coluna para levar o impulso nervoso para outras partes do corpo.

É uma das doenças degenerativas da coluna vertebral mais frequentes sendo a região lombar a mais afetada. Para se ter ideia, cerca de 39% das pessoas com dor lombar crônica apresentam hérnia. A hérnia discal ocorre principalmente entre os 40-50 anos. Estima-se que 3% da população possa ser afetada, com prevalência maior em homens acima de 35 anos.

Pode causar:

  • dor
  • acometimento em raízes nervosas
  • limitação de movimentos
  • fraqueza muscular
  • alteração de sensibilidade

Atenção: assim como os outros achados do seu laudo da ressonância ou de qualquer outro exame de imagem, há, sim, a possibilidade de se desenvolver um quadro de dor ou limitação a depender do nível e grau de acometimento da hérnia, mas sem esquecer que há casos em que pacientes são assintomáticos e mantêm sua rotina sem dor.

Uma revisão de literatura mostrou que a prevalência de protrusão de disco em indivíduos assintomáticos aumenta de 30 para 84% com o decorrer da idade quando comparados indivíduos na faixa dos 20 e de 80 anos. O estudo ainda mostra comportamentos similares na prevalência de fissura e de degeneração discal.

Ao longo dos anos, a cronicidade de quadros, o próprio processo de envelhecimento e o estilo de vida adotado podem levar a um prognóstico melhor ou pior. Juliana Satake, fisioterapeuta, reforça que é possível ter qualidade de vida e viver sem dores mesmo com a presença de uma hérnia de disco.

"Minha hérnia parece ter sumido desde o último exame!"

As hérnias de disco podem diminuir de tamanho. Cerca de 66,6% dos casos de hérnia de disco são reabsorvidos pelo próprio organismo através de mediadores inflamatórios e imunológicos locais.

Ao primeiro sintoma de dor nas costas, o corpo já sinaliza que alguma função não vai bem. Mesmo que a crise de dor passe após um episódio de crise, saiba que seu corpo e os músculos estão sinalizando que estão enfraquecidos ou que algum movimento pode não estar ocorrendo da melhor forma.

Se você apenas retornar a rotina, fingindo que nada aconteceu, irá apenas postergar o próximo episódio e tornar a dor na lombar crônica.

Fisioterapia ou cirurgia

O tratamento conservador é eficaz em até 90% dos pacientes, sendo seu prognóstico positivo. Tem como base a fisioterapia em associação ao tratamento medicamentoso prescrito pelo médico com o objetivo de conter o quadro álgico e associar a cinesioterapia (terapia através de movimentos).

A movimentação de forma precoce reabilita e promove o retorno às atividades. Estudos mostram que exercícios de estabilização e controle motor apresentam mais benefícios que recursos eletrofísicos, como o famoso "choquinho", no tratamento de pacientes com hérnia de disco, com alívio da dor e melhora funcional.

Somente 10% dos casos de hérnia de disco precisam de cirurgia. Mas ainda assim, a hérnia é a principal causa de cirurgia de coluna na população adulta, sendo a hérnia lombar a condição que mais leva homens a se submeterem a mesa cirúrgica.

A cirurgia, à primeira vista, parece ser uma solução rápida para alívio da dor radicular, mas os estudos mostram que no decorrer de um ano pós-cirurgia, os resultados clínicos e funcionais dos pacientes operados e não operados são muito semelhantes.

Ainda, dos pacientes que se submetem a uma segunda cirurgia na coluna, há dados que apontam que aproximadamente 50% são decorrentes da recidiva da hérnia lombar no mesmo nível operado. No entanto, em casos de comprometimento neurológico ou falha do tratamento conservador, a cirurgia torna-se o tratamento mais indicado.

Estilo de vida pode influenciar

Cultive hábitos saudáveis, não fume e evite o sedentarismo com a prática de exercícios físicos regulares sob supervisão de um profissional qualificado e evite esforço físico inadequado.

Há uma variedade de atividades e exercícios que podem ser feitos sob supervisão adequada em uma fase não inflamatória ou aguda, como o treinamento de força e estabilização, alongamentos, exercícios de controle motor, pilates, treino de core, entre outros.

Caso sinta dores, procure pelo profissional de saúde e não postergue seu tratamento.

*Colaboração Ana Clara Desiderio, fisioterapeuta especializada responsável pelos atendimentos de fisioterapia na Clínica La Posture e Renata Luri, fisioterapeuta doutora pela Unifesp e Griffith University.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL