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Paola Machado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Você cuidou da saúde ou só adotou hábitos ruins nesse um ano em casa?

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Imagem: iStock
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

09/03/2021 04h01

Esses dias, estava notando o quanto as pessoas que estão em casa para se proteger do coronavírus e cuidar da saúde deixaram de cuidar da saúde na quarentena. Elas estão se alimentando mal, sedentárias e deixaram de prestar atenção em si mesmo e de se amar —afinal, cuidar do corpo é se amar.

Por mais que o momento que estamos vivendo gere estresse, ansiedade, tristeza, medo e nos leve a buscar um "agrado" em alimentos pouco saudáveis, temos que sempre pensar também se essa "recompensa" que vamos ingerir será um agrado para o organismo e quais consequências podem trazer para nosso corpo e estilo de vida.

Muitas vezes, essa falta de cuidados com a alimentação e a atividade física começa com a falta de cuidado com a rotina em geral. Algumas pessoas simplesmente se deixaram levar durante o isolamento. Eu mesma, por exemplo, por diversas vezes me peguei trabalhando de pijama e descabelada. Simplesmente acordava e ligava o computador para trabalhar. Caí em uma bola de neve de não mais me olhar, de não ter o meu momento para treinar (me cuidar), de tomar um café saudável e tranquilo etc.

Gostaria de trazer alguns questionamentos:

  • O que você fez pelo seu corpo nesse ano que passou?
  • O que você fez por você nesse ano que passou?
  • Quais hábitos você deixou de ter e quais você implementou na sua vida? (positivos e negativos, ok?)

Eu já fiz essas perguntas para pessoas que atendo e também com que interajo nas redes sociais, e as respostas são muito semelhantes. Um ano se passou e muita gente viveu em um estado de inércia, sem agir, sem entender o que estava acontecendo, simplesmente deixando os dias passarem, trabalhando sem parar, cuidando da casa, dos filhos, de aulas online. Nossos poucos momentos de lazer (que antes não dávamos muito valor) foram ocupados por compromissos, preocupações e sentimento de culpa.

Adotamos hábitos ruins como passar o dia inteiro sentados, ficar constantemente expostos às luzes dos equipamentos eletrônicos, só falar de trabalho ou de problemas, comprar muita fast-food, dormir mais tarde do que o de costume, pular refeições ou comer na frente do computador. Esses foram os novos hábitos implementados por muita gente nessa quarentena e podem trazer grande impacto na saúde, inclusive em relação ao coronavírus.

Vocês sabiam que a taxa de mortalidade por covid-19 é dez vezes maior em países onde a maioria dos adultos está acima do peso? Um relatório do Public Health England em julho de 2020 descobriu que, embora ter um IMC (índice de massa corporal) mais alto não aumente o risco de contrair covid-19, o sobrepeso está associado a um risco maior de adoecer gravemente ao contrair a doença.

Um estudo descobriu que, para pessoas com IMC de 35 a 40, o risco de morte por covid-19 aumenta em 40%. E para quem tem IMC acima de 40 esse aumento é de 90%.

Já uma pesquisa divulgada em agosto de 2020 por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA) também descobriu que pessoas obesas com covid-19 tinham um risco 113% maior de hospitalização quando comparadas a colegas não obesos.

Existe um fluxo simples que devemos entender com esses estudos para entender por que não devemos descuidar do exercício e da alimentação nesse momento:

  • Vou dar um exemplo de fragilidade. Um idoso que não faz exercícios e se alimenta inadequadamente tende a sofrer de um quadro sarcopênico (redução de musculatura e força). Aí, ele tem um maior risco de queda.
  • Se esse idoso cair --por conta da fragilidade-- e fraturar algum osso pode precisar passar por cirurgia. Então, ele ficará exposto em um ambiente hospitalar, com risco maior de desenvolver complicações.
  • Agora, se esse mesmo idoso estivesse realizando uma rotina de exercícios de forma supervisionada, se alimentando bem e estivesse cuidando do seu corpo, a probabilidade de cair seria menor, bem como a de estar exposto ao ambiente hospitalar que pudesse gerar alguma complicação.

O mesmo acontece agora com grande parte das pessoas. Quando adquirimos hábitos sedentários ficando em casa, é natural a opção por alimentos mais calóricos e, consequentemente, ganharmos peso com posterior desenvolvimento de sobrepeso e obesidade.

Vamos voltar a esse ponto: um estudo descobriu que para pessoas com IMC de 35 a 40, o risco de morte por covid-19 aumenta em 40%. E esse risco aumenta 90% para quem tem IMC acima de 40.

  • Agora, use o exemplo de fragilidade do idoso para seu corpo. Se você não está se cuidando (não faz exercícios nem se alimenta bem) pensando que só existe a covid-19 e que ela é a única doença na qual precisa se proteger nesse momento, está bem enganado.
  • Se você ficar parado em casa, comendo um pacotinho de batatinha frita todos os dias, maratonando séries e deixando os dias passarem, aumentará seu peso. Se não supervisionar seu peso e for infectado pelo coronavírus, seu risco de ter qualquer problema é muito maior.
  • Controlar o peso, treinar e se alimentar bem não impedirá que você pegue covid-19, mas com certeza deixará sua saúde e seu organismo mais preparados para enfrentrar o problema caso pegue --os números fatais de pessoas saudáveis são bem mais baixos do que pessoas não saudáveis.

E você? Continuará aí parado até quando?

Como se manter saudável na quarentena

  • Há diversas lives e programas de exercícios gratuitos para fazer dentro de casa e se manter ativo. [O VivaBem mesmo tem o Treino em Casa, o Meu Treino em 90 segundos e o Projeto VivaBem, em que você recebe um programa exercícios em seu email].
  • Essa é uma boa hora de pesquisar preços e refletir sobre o valor das coisas. Já parou para pensar no quanto você gasta no supermercado com escolhas não saudáveis e o quanto é mais caro pedir fast-food?
  • Se pese semanalmente. Não deixe de olhar a balança. As pessoas têm mania de não querer saber o peso e isso é um tiro no pé, pois quando você deixa de acompanhar seu peso pode chegar a um ponto que depois exigirá muito esforço para voltar ao peso normal. Se você tomar uma atitude quando perceber que ganhou 2 kg ou 3 kg, fica mais fácil controlar a balança.
  • Se trabalha sentado, levante de 20 em 20 minutos para não ficar o tempo todo parado.
  • Dedique um tempo para dar uma voltinha pela rua da sua casa, é importante para se movimentar, tomar sol e cuidar um pouco da sua saúde mental.
  • Tente prestar atenção nos seus gatilhos emocionais e nas suas escolhas alimentares.
  • Preste atenção nos seus novos hábitos e tente incluir, sempre, bons hábitos.
Comece já! Não deixe mais para manhã.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL