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Paola Machado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para quem quer emagrecer, é uma boa trocar refrigerante normal pelo zero?

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

12/02/2021 04h00

Nos grupos de mudança de hábito que desenvolvi, nos atendimentos individuais na clínica e nas redes sociais, sempre recebo a seguinte pergunta: "Troquei o refrigerante normal pelo zero (ou diet). Tomar regularmente esse tipo de bebida atrapalha o emagrecimento? Faz mal à saúde?".

Não é novidade que os refrigerantes sem açúcar são populares em todo o mundo, especialmente entre as pessoas que desejam reduzir a ingestão de açúcar ou de calorias para perder peso. Mas, apesar de isentas de açúcar e/ou calorias, os efeitos de bebidas dietéticas no organismo ainda precisam de muitos estudos experimentais em humanos.

Basicamente, essas bebidas são uma mistura de água com gás, adoçantes artificiais, corantes artificiais, aromas artificiais e outros aditivos químicos artificiais. Aqui, fiz questão de repetir a palavra artificial só para você ter uma ideia de como qualquer refrigerante é ruim, geralmente sem nenhum nutriente importante à saúde.

Estudos com refrigerantes zero/diet e perda de peso são um tanto quanto escassos e até conflitantes. Como são bebidas que não costumam ter calorias, seria natural presumir que elas auxiliariam na perda de peso. No entanto, pesquisas sugerem que a associação pode não ser tão direta.

Pesquisas observacionais descobriram que uma grande ingestão de adoçantes artificiais, como os presentes nos refrigerantes zero, está associada a um risco maior de obesidade e síndrome metabólica.

Os pesquisadores concluíram que o refrigerante diet/zero pode estimular os hormônios da fome e aumentar o apetite, por alterar os receptores do sabor doce no cérebro e desencadear respostas de dopamina (neurotransmissor associado ao prazer). Explicando de uma forma bem básica, ao sentir o sabor doce do refrigerante zero, o organismo fica esperando uma grande porção de glicose (energia/calorias) e o "prazer" que viriam ao consumir açúcar. Mas, como isso nunca chega, pode gerar respostas no corpo para estimular uma ingestão maior de alimentos doces ou com alto teor calórico, resultando em ganho de peso. No entanto, as evidências disso não são tão consistentes em estudos com humanos.

Outra hipótese para explicar por que em vários estudos o consumo de refrigerante zero foi associado ao ganho de peso é que pessoas que consumem muito refrigerante (normal ou zero) tendem a ter hábitos alimentares ruins e aumento do peso é consequência de uma dieta ruim em geral, não só do refrigerante.

Prejuízos à saúde

Falando só do quanto a ingestão regular de refrigerantes zero pode fazer mal à saúde, o consumo da bebida já foi associado em alguns estudos a um maior risco de ter diabetes e doenças cardíacas, como infarto e hipertensão.

Um estudo com 64.850 mulheres, por exemplo, observou que o consumo de bebidas adoçadas artificialmente estava associado a um risco 21% maior de desenvolver diabetes tipo 2, em comparação a quem não ingere nenhum tipo de refrigerante. No entanto, o aumento no risco de quem tomou o refrigerante zero foi metade do de quem tomou refrigerante normal.

Já uma revisão de quatro estudos incluindo 227.254 pessoas observou que, para cada porção de bebida adoçada artificialmente por dia, há um aumento de 9% no risco de ter pressão alta. Outros estudos encontraram resultados semelhantes.

Como a maioria dos estudos foi observacional, pode ser que a associação pudesse ser explicada de outra forma. É possível que pessoas que já estavam em risco de diabetes e pressão alta, por comerem mal ou estar acima do peso, optaram por beber mais refrigerante diet. Por isso, mais pesquisas experimentais diretas são necessárias para determinar se existe alguma relação causal verdadeira entre refrigerante diet e aumento de açúcar no sangue ou pressão arterial.

E os problemas relacionados à saúde não param por aí. Há pesquisas que associam o consumo de refrigerante a um maior risco de desenvolver doença renal —provavelmente porque o alto teor de fósforo na bebida sobrecarrega os rins— e até com o aumento de 11% no risco de ter parto prematuro e de obesidade infantil.

Vale ou não trocar o refri zero pelo normal?

Como você viu, o consumo regular de refrigerante zero (assim como o normal) faz mal à saúde. A melhor opção, então, seria cortar ou reduzir significativamente a ingestão dessas bebidas —limitar a uma ou duas vezes por mês, por exemplo. No entanto, se pensarmos em uma pessoa que está acima do peso, tem hábitos alimentares ruins e quer mudar o estilo de vida, trocar o refrigerante normal pelo zero pode ser um primeiro passo para reduzir a ingestão calórica e de açúcar e iniciar a mudança.

No entanto, para emagrecer, é preciso que essa troca do refrigerante normal pelo zero venha acompanhada de uma alimentação saudável e também que a pessoa se planeje para, após algum tempo, acabar de vez com o hábito de tomar refrigerante. Pondere sempre o consumo e coloque na balança o que, de fato, vale a pena para sua vida e saúde.

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