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Paola Machado

Fazer restrição alimentar aumenta o risco de desenvolver um transtorno

PeopleImages/iStock
Imagem: PeopleImages/iStock
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

26/11/2020 04h00

Ei, você aí: me conta quantas dietas diferentonas e até malucas você fez durante o ano de 2020?

Você sabia que fazer restrição alimentar é considerado fator de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares? Pacientes com transtornos alimentares normalmente apresentam este padrão antes mesmo de desenvolverem a doença.

Antes de aprofundarmos esta conversa, vamos compreender o que significa restrição alimentar.

É quando fazemos a retirada de algum nutriente como a lactose, no caso de intolerantes ou do glúten, no caso de celíacos, estamos fazendo uma restrição alimentar. O mesmo ocorre ao tomarmos esta mesma atitude na busca de emagrecimento, de forma drástica e sem acompanhamento e monitoramento corretos.

A diferença nestas duas situações é o contexto. Retirar arbitrariamente nutrientes de sua alimentação ou praticar dietas extremamente restritas do ponto de vista calórico pode não ser o caminho mais saudável.

Falando em ciência, já temosestudos bem conduzidos do ponto de vista metodológico, demonstrando que assim como a quantidade calórica, a qualidade daquilo que comemos exerce um papel muito significante no controle de peso corporal, desprendendo a atenção total do conceito de caloria.

Fazer dieta certamente aumenta a nossa preocupação com a alimentação, favorecendo o desenvolvimento de pensamentos conhecidos como dicotômicos, que é a ideia de alimentos bons ou ruins, saudáveis ou não saudáveis, entre outros.

A prática de dieta também nos torna mais preocupados em desconsiderar as vontades na tentativa de regular ou perder peso corporal. Mas, e quando este pensamento nos faz entrar numa zona de risco? No momento em que se torna excessivo e compromete a nossa forma de viver, de se relacionar e a partir daquele instante em que tudo gira em torno da dieta ou do "não pode isto", "não pode aquilo".

A pessoa que pratica dietas pode apresentar dificuldades na regulação da sua sensação de fome e saciedade, além de desenvolver uma "mente de quem faz dieta", o que potencializa uma provável relação de culpa muito negativa com a comida.

Segundo Vitolo e cols, "controlar a ingestão alimentar por meio de dietas restritivas e tornar crônico esse comportamento devido à pressão sociocultural, que impõe padrões corporais cada vez mais magros, são atitudes possivelmente desencadeadoras de transtornos alimentares".

Pessoas que não restringem o consumo de alimentos (isto não quer dizer que comam descontroladamente, ok?), ou aquelas que não fazem dieta, comem menos após um lanche altamente energético. Isto ocorre, pois ela desenvolveu a habilidade em regular a energia consumida, isto é, a pessoa compensa o lanche comendo menos na refeição posterior.

Porém temos pessoas conhecidas como restrained eaters, que restringem o consumo alimentar, e na mesma situação da mencionada anteriormente, comem mais depois de um lanche altamente energético. Este comportamento é explicado pela desinibição do controle cognitivo, pois acreditam ter excedido o consumo alimentar permitido com a ingestão do lanche energético —situação que pode resultar em episódios de compulsão ou descontrole alimentar.

É muito importante que fique claro exatamente o contexto deste texto, uma vez que cada vez mais observamos em nossos consultórios e clínicas pessoas praticando restrições alimentares sem indicação ou orientação médica e nutricional —e é sobre isto a que me refiro, já que pode ser um gatilho para o desenvolvimento de distúrbios alimentares.

Obviamente o excesso de peso e a obesidade são doenças que precisam ser tratadas, mas para que este tratamento ocorra de maneira correta e sustentável, é essencial a condução de maneira interprofissional, sem modismos e preconceitos, considerando aspectos físicos, emocionais e mentais. Procure pessoas qualificadas para te orientarem, uma vez que não podemos desconectar as nossas emoções deste contexto, que gera o seguinte efeito:

  • Sinto-me gordo/gorda
  • Como para me confortar
  • Sinto-me mal
  • Provoco vômito ou diarreia (purgação)
  • Vem a sensação de culpa pela falta de controle
  • Sinto compulsão
  • Fico revoltado(a) --tenho sensação de raiva, impotência
  • Recorro à privação física ou emocional
  • Faço restrições
  • Sinto-me gordo/gorda (e o ciclo recomeça...)

Neste ciclo conhecido como "ciclo da restrição, compulsão e purgação" podemos notar claramente que a comida pode estar envolvida com uma forte compensação para algumas pessoas que manifestam baixa autoestima, insatisfação com a imagem corporal ou falta de aceitação de sua imagem corporal, favorecendo atitudes impulsivas, muitas vezes seguidas por ganho de peso e desenvolvimento de transtornos de comportamento alimentar.

Algumas atitudes podem ajudar na prevenção destes comportamentos de risco. Dê uma olhada e, na medida do possível, tente colocá-las em prática:

  • rejeite a mentalidade de dieta, comendo de forma consciente e intuitiva, ou seja, deixe que os seus determinantes internos orientem quando e quanto comer;
  • faça as pazes com a comida e compreenda que comer é bom e necessário; não rotule os alimentos, reconheça que o saber comer baseia-se no equilíbrio e no autoconhecimento, por isso, abandone a listinha de alimentos permitidos ou proibidos, bons ou ruins, inflamatórios ou anti-inflamatórios;
  • conheça o seu corpo e perceba quando a sensação de fome acontece, bem como quando a saciedade chega;
  • descubra o que te satisfaz comendo moderadamente alimentos que aprecia e normalmente restringe quando faz "dieta". É importante saber quais são as suas reais preferências ou aversões para que reconheça e crie o seu padrão alimentar, e não o padrão da revista ou da sua amiga;
  • seja gentil com você e preocupe-se com a sua saúde verdadeira e integral, isto também envolve a emocional e a mental.

Compartilhe as suas dúvidas, angústias e condutas com profissionais comprometidos em te dar o caminho das pedras e desenvolver a sua autonomia, e não com aqueles que te prendem a um círculo vicioso eterno e nocivo.

*Colaboração da nutricionista comportamental Samantha Rhein (Unifesp).

Referências:

- Alvarenga, M dos Santos; Scagliusi, FB. Tratamento Nutricional na Bulimia nervosa. Rev Nutr. Campinas, v.23, n5, p 907-918, 2010.

- www.comerintuitivo.com.br

- BERNARDI, Fabiana; CICHELERO, Cristiane; VITOLO, Márcia Regina. Comportamento de restrição alimentar e obesidade. Rev. Nutr., Campinas, v. 18, n. 1, p. 85-93, Feb. 2005.

- Nutrição Comportamental - Alvarenga M, Antonaccio C, Figueiredo M, Timerman F. (orgs.) - 2015 (1ª edição) Manole.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL