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Quarentena x saúde: não se acostume a não se movimentar

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

09/09/2020 04h00

Nós nos acostumamos com novos hábitos e novas rotinas —não é à toa que no início da quarentena estava todo mundo pirando de ficar em casa e, agora, as pessoas já estão se acostumando. Como seres humanos, nos adaptamos aos processos, as regras e ao que é imposto.

Sabe aquele seu relacionamento que você tentava falar e corrigir porque amava e, simplesmente, depois de um tempo deixa de falar, porque cansou? Quando nos acostumamos, nos acomodamos e damos abertura a simplesmente deixar a persistência de lado.

Não é fácil, em meio ao caos que vivemos, manter uma rotina.

Antes, pensando em uma rotina normal, acordávamos cedo —dava tempo de despertar adequadamente—, alguns treinavam logo cedo, tomavam café, se vestiam para trabalhar —escolhiam a roupa, arrumavam o cabelo e davam um "tapinha" no cansaço do rosto— enfim tínhamos uma rotina minimamente estabelecida.

Hoje, na maioria dos calls, muita gente acorda 10 minutos antes, coloca qualquer roupa e vida que segue. No começo era estranho e agora, nos acostumamos.

De fato, não é fácil acordar cedo, treinar, manter a sanidade alimentar conseguindo diferenciar a fome da vontade de comer, ainda mais agora que temos tantas justificativas —muitas oportunas e plausíveis. E, convenhamos, é muito mais fácil retornar a um mau hábito do que estabelecer um bom hábito —a todo momento somos induzidos inconscientemente a retornar aos maus hábitos, não é à toa que tantas pessoas estão ingerindo bebidas alcoólicas, voltando a fumar, usando entorpecentes etc.

Ainda mais que passamos por um grande fuzuê (até científico), em que se misturou o fato com as ideologias —por isso é muito importante saber ler um artigo científico buscando, antes de qualquer coisa, saber da biografia do autor antes da leitura.

E nesse fogo cruzado, estamos nós, rodopiando igual peão.

"Não há necessidade do uso de máscara, porque deve sobrar máscara para os profissionais". Tá ok.

"Agora usem máscara para proteger a você e aos outros". Mas calma, "vou treinar com máscara?" "E agora?" "Meu Deus, vou suar na máscara e a higiene?"

"Quase desmaiei correndo de máscara, não conseguia respirar, o tecido era grosso demais."

"Já tenho problemas respiratórios e está piorando treinando de máscara."

"Fui fazer um supino com máscara, meu Deus, minha pressão caiu!". Mas o que faço? E não para por aí.

"Não posso ir na academia, porque temos que proteger todo mundo." "Mas tenho diabetes e não posso ficar sem treinar na academia, preciso de supervisão, como me protejo?" "Você foi treinar? Seu egoísta!". Bom, então, não vou é fazer nada.

Junto a todos esses questionamentos —e julgamentos—, somamos cada vez mais problemas psicológicos —ansiedade, estresse e depressão—, problemas de saúde vinculados ao estilo de vida inativo e não saudável e ficamos igual barata tonta.

No meio de tudo isso, só tenho uma dica a vocês: não se acostumem e não justifiquem, mesmo porque, em diferentes proporções, o mundo está passando por problemas coletivos e individuais.

  • Não se acostume a ficar sentado, pois quanto mais tempo ficamos sentados, mais tempo queremos ficar sentados.
  • Não justifique aquela panela de brigadeiro. "Ah, não estou vendo ninguém." "Ah, não saio mais mesmo." "Ah, estou triste." Tudo bem comer, mas não justifique. Coma conscientemente, não de forma impulsiva e compulsiva.
  • Não justifique não treinar. "A academia está fechada." "Não posso sair." Coloque na balança, o quanto a obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares, estresse, podem te fazer mal. Por isso, nossa casa não tem horário de funcionamento e treino não falta. Aproveite esse momento para criar um hábito de treino.
  • Não se acostume a não se movimentar. Enquanto você fica sentado, se acostumando com um novo normal, seu corpo pode sofrer com inúmeros problemas, patologias associadas ao estresse e a inatividade. Pensando no decorrer da sua vida, os problemas silenciosos podem vir com o tempo. Então, não deixe de se cuidar.
  • "Não vou ingerir alimentos in natura, vai que tem corona ali". Higienize os alimentos e consuma. Com certeza os ultraprocessados farão muito pior ao seu corpo.
  • Não se acostume com a não-convivência. A vida social nos torna pessoas mais felizes. Como seres humanos, precisamos interagir, conversar, trocar experiências e conviver. Se já temos permissão para circulação, mantendo as medidas devidas de higiene e distanciamento, conviva com outras pessoas.

Ah, e por fim, não julgue. Faça sua parte. Como no avião, coloque a máscara de emergência em você primeiro e depois no outro. Por isso, se cuide.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL