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Entenda a relação entre covid-19, exercício físico e resposta imunológica

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

19/08/2020 04h00

Sabemos o quão importante é a prática esportiva para a saúde e muitos estudos investigam a relação entre o exercício e a resposta imunológica do organismo —atualmente, pelas preocupações com a covid-19, a imunologia, que sempre foi essencial, tornou-se motivo ainda maior de discussão. No entanto, a intensidade/duração adequada de exercícios ainda não foi estabelecida e as opiniões divergem.

O que sabemos é que é preciso equalizar e encontrar um equilíbrio para que se estabeleça um ponto ótimo de aproveitamento do treino. Dessa forma, o sistema imunológico tem como sua principal função proteger o organismo de agentes estressores e não podemos nos esquecer de que o exercício físico, tanto de maneira aguda como crônica, causa um nível de estresse de maneira proporcional à sua intensidade e duração.

Então é esperado que as células do sistema imunológico respondam ao exercício também de acordo com o estímulo que lhe foi dado, assim como esta resposta pode sofrer uma adaptação em um indivíduo que tem o hábito de se exercitar com frequência.

No início do exercício, a homeostase é interrompida e várias respostas neuroendócrinas, metabólicas e imunológicas são induzidas em proporção à intensidade e duração do exercício —as células imunológicas como leucócitos, células T, células B, células natural killer, imunoglobulinas e citocinas, mudam constantemente durante e após o exercício e podem influenciar na resistência do corpo às doenças.

Assim, tanto o número quanto a função dos linfócitos são alterados com o exercício, apresentando em seu comportamento um aumento no número de células durante a atividade seguido de redução no período pós-exercício.

No caso de exercício intenso de longa duração ocorre um período de imunossupressão derivado principalmente das altas taxas de hormônio de estresse que estão circulantes na corrente sanguínea. Porém, no treinamento (longo prazo) de intensidade moderada, o indivíduo passa a apresentar um risco menor de infecções.

Relação covid-19, imunidade e exercício

A imunopatologia da infecção por Sars-CoV-2 envolve tanto o sistema imune inato (células imunológicas existentes desde o momento do nascimento) quanto o adaptativo (células imunológicas adquiridas por meio da exposição e presença da memória imunológica).

Após a infecção pelo vírus, ocorre uma tempestade de citocinas pró-inflamatórias —que é uma resposta imune exagerada a um estímulo externo, usualmente induzido por infecções virais, sendo que as concentrações elevadas anormais dessas citocinas levam à ativação do "crosstalk" do sistema neuroendócrino-imune, com a consequente liberação de glicocorticoides que podem prejudicar a resposta imune; podendo induzir a diminuição de atividade ou falência de múltiplos órgãos, envolvendo coração, fígado, rim e pulmões.

Uma análise publicada feita pelo Neuroimmunomodulation (2020), pontua que a imunomodulação induzida pelo exercício parece ser dependente da interação da intensidade, duração e frequência do exercício.

  • Em modelos humanos e animais, o exercício de longa duração (maior que 2 horas) e/ou exercício intenso (maior que 80% do consumo máximo de oxigênio, VO2máx) está associado a marcadores de imunossupressão, mostrando que exercícios de longa duração e/ou intensos podem tornar os humanos mais suscetíveis a infecções (principalmente infecções do trato respiratório superior), o que pode aumentar o risco de infecção e agravamento por covid-19.
  • Por outro lado, estudos clínicos e translacionais em humanos demonstraram que exercícios regulares de curta duração (ou seja, 45-60 min) e exercícios de intensidade moderada (50 a 70% VO2máx), realizados pelo menos 3 vezes por semana são benéficos para a resposta imunológica, particularmente em idosos e pessoas com doenças crônicas.
  • Embora o número relatado de casos de covid-19 em crianças/adolescentes seja relativamente baixo, é importante notar que exercícios crônicos moderados e/ou treinamento físico em crianças e adolescentes saudáveis estão associados a uma redução na incidência de infecção e uma recuperação mais rápida do sistema imunológico.

A primeira fase da resposta imune induzida pela infecção por coronavírus é uma resposta imune adaptativa específica para eliminar o vírus e prevenir a progressão da doença. Pacientes com complicações graves derivadas da infecção apresentam linfocitopenia —redução de linfócitos, que é um tipo de glóbulo branco— e tempestade de citocinas.

Dessa forma, é importante a redução de citocinas e o aumento da liberação de citocinas anti-inflamatórias. As citocinas anti-inflamatórias podem suprimir uma resposta imune hiperativa, promovendo a reparação tecidual.

Assim, exercícios regulares de intensidade moderada podem ser eficazes em aumentar a resposta anti-inflamatória, o que poderia ajudar a reverter a linfocitopenia em pacientes com covid-19.

Não se sabe se tais alterações induzidas por exercício no sistema imunológico seriam protetoras contra a infecção por Sars-CoV-2 nessas populações e mais estudos são necessários. No entanto, é interessante considerar que o exercício pode desempenhar um papel na neutralização dos efeitos negativos do isolamento e do estresse de confinamento sobre a competência imunológica nessa população.

O que a literatura já sabe é que:

  • Há uma relação entre a intensidade/duração/frequência do treino e sistema imunológico, sendo o equilíbrio sempre a melhor opção.
  • O exercício aeróbico moderado realizado de forma regular é benéfico para o sistema imunológico.
  • O exercício intenso/longa duração pode ter um efeito depressor temporário sobre o sistema imune, criando uma "janela aberta" e consequente risco de infecções.

Referências:

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL