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Entenda a relação entre a microbiota intestinal e a obesidade

Microbiota são as bactérias intestinais que desempenham um papel importante na função intestinal normal e na manutenção da saúde - iStock
Microbiota são as bactérias intestinais que desempenham um papel importante na função intestinal normal e na manutenção da saúde Imagem: iStock
Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do UOL

14/08/2020 04h00

Como já reforcei aqui inúmeras vezes, a obesidade e a resistência à insulina são os principais fatores que predispõem às comorbidades, como diabetes tipo 2, esteatose hepática não-alcoólica, doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, vários tipos de câncer e até ao aumento da gravidade por covid-19. A prevalência da obesidade aumenta em todo o mundo e afeta um grande número de indivíduos.

Mais de um trilhão de microrganismos influenciam o funcionamento do corpo humano. Em uma pessoa saudável, o microbioma —o ambiente bacteriano no trato gastrointestinal — é caracterizado por uma grande variedade de bactérias intestinais (conhecidas como microbiota).

A maior concentração de microrganismos é encontrada no trato gastrointestinal e consiste principalmente de bactérias. A distribuição bacteriana no trato gastrointestinal varia de acordo com a região e é influenciada pelo pH, oxigênio e disponibilidade de nutrientes.

A microbiota intestinal desempenha um papel importante na função intestinal normal e na manutenção da saúde. Produz um grande número de enzimas envolvidas na capacidade de extrair energia da dieta e depositar energia nos estoques de gordura, mas isso depende de um equilíbrio entre bactérias potencialmente patogênicas e vários microrganismos não patogênicos que promovem a saúde.

As bactérias comensais no intestino podem proporcionar os benefícios de um órgão extra eficaz, extraindo energia da digestão da celulose, melhorando o desenvolvimento e a maturação do sistema imunológico intestinal e sistêmico.

Bactérias diferentes podem desempenhar a mesma função metabólica, o que dificulta a identificação de um perfil microbiano ideal. Por outro lado, pode explicar parte da variabilidade encontrada entre a composição da microbiota em hospedeiros semelhantes. Assim, sabe-se que a microbiota intestinal desempenha papéis diferentes no metabolismo.

Nos últimos 10 anos, dados de diferentes fontes estabeleceram uma relação de causalidade entre a microbiota intestinal e a resistência à obesidade/insulina. É importante enfatizar que a obesidade induzida pela dieta promove resistência à insulina por mecanismos independentes e dependentes da microbiota intestinal.

Em um futuro próximo, essa área deverá abrir novos caminhos terapêuticos para a resistência à obesidade/insulina e suas comorbidades. Todas essas informações levaram a hipóteses diferentes para explicar os mecanismos pelos quais alterações na composição da microbiota podem induzir a obesidade.

Dessa forma é superimportante sempre estar com a saúde da microbiata em dia.

Além da:

prática regular de exercícios —que pode aumentar sua quantidade de espécies benéficas de bactérias intestinais, enriquecer sua diversidade de microbiota e ajudar no desenvolvimento de novas bactérias

ter uma boa qualidade de sono —quando seu ritmo circadiano sai do controle, pode levar ao aumento dos sintomas gastrointestinais

controlar o estresse —micróbios podem responder a hormônios e neurotransmissores que estão envolvidos em sua resposta ao estresse e alterar a composição das bactérias do seu intestino, levando a cólicas, constipação, diarreia e mudanças no apetite

cuidar da higiene bucal —bactérias orais envolvidas em infecções crônicas da gengiva podem descer para o intestino e alterar a microbiota, onde podem desempenhar um papel em certos distúrbios metabólicos

e evitar o consumo indevido de antibióticos —muitas vezes a prescrição de antibióticos é necessária para melhorar uma infecção bacteriana, mas podem causar distúrbios intestinais, pois os antibióticos também afetam as bactérias intestinais "boas" junto com as "ruins" que deixam você doente, criando disbiose.

Opções mais específicas para organização da alimentação são imprescindíveis:

  • Opte por uma alimentação variada. Quanto maior a diversidade de espécies de bactérias, maior a chance delas contribuírem para certos benefícios à saúde. A diminuição do número de espécies, por outro lado, pode levar a patologias. Para obter uma diversidade de espécies na microbiota, você precisa também variar nas escolhas alimentares. Quanto mais diversificado for o seu plano alimentar, mais fácil será para o seu microbioma se adaptar. Por isso, varie sempre com frutas, verduras, legumes diferentes, além da inclusão de alimentos integrais.
  • Alimentos fermentados e com funções probióticas. Os probióticos são definidos como microrganismos vivos, que quando administrados em quantidades adequadas conferem benefícios à saúde do hospedeiro. O seu efeito sobre a saúde intestinal é constantemente descrito na literatura, isso porque os probióticos combatem bactérias patogênicas, promovem efeitos anti-inflamatórios e modulam a resposta do sistema imune do intestino. Note a descrição no rótulo como "fermentado naturalmente". Exemplos: kefir, iogurtes, kombucha.
  • Alimentos prebióticos. Os prebióticos são classificados como componentes alimentares que não são digeridos e que influenciam o crescimento de bactérias benéficas presentes no intestino. Eles são resistentes ao processo digestivo e não são absorvidos pelo intestino. Você pode encontrar prebióticos em frutas com alto teor de fibras, vegetais, grãos inteiros e leguminosas. Alguns alimentos são fontes naturais de prebióticos, como a cebola, banana, alcachofra, aspargo, alho, tomate, batata yacon e raízes de chicória. Por isso a inclusão destes alimentos diariamente nas refeições, podem promover benefícios na saúde intestinal e no geral.
  • Inclua alimentos fonte de polifenóis na sua alimentação. Os polifenóis são substâncias encontradas nas plantas que ajudam a alimentar esses micróbios intestinais benéficos. Chás, frutas e vegetais são ótimas maneiras de ingerir polifenóis e auxiliar na saúde intestinal. A maioria dos polifenóis não é absorvido no intestino delgado ou no trato gastrointestinal superior e vai para o intestino grosso, onde são decompostos por bactérias.
  • Evite ingerir uma quantidade excessiva de substitutos do açúcar. Estudos mostram que os edulcorantes (adoçantes dietéticos) podem prejudicar a composição da microbiota intestinal, gerando problemas como gases, diarreia e alteração na resposta à insulina. Uma dica importante para quem esta tentando largar o hábito de usar adoçantes (naturais ou artificiais): coma mais frutas frescas em vez de doces e consulte um nutricionista para saber a quantidade de adoçantes que você pode consumir.
  • Preste atenção no consumo de álcool. Todos sabemos que temos que beber moderamente. O álcool promove a disbiose (quando fatores ambientais interrompem o desequilíbrio bacteriano) e o crescimento excessivo de bactérias, que pode levar à inflamação. O álcool com moderação pode realmente ser bom para a saúde intestinal, mas é claro que o excesso é prejudicial.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL