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Paola Machado

Por que a boa alimentação é ainda mais importante durante a pandemia

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Paola Machado

Paola Machado é formada em educação física, mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutora em ciências da saúde (foco em fisiopatologia da obesidade e fisiologia da nutrição) pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre exercícios, nutrição e saúde. CREF: 080213-G | SP

Colunista do VivaBem

10/06/2020 04h00

A nossa alimentação é preciosa e deve ser vista como tal. Como ela está em grande parte das decisões do nosso dia a dia, acaba sendo um grande centro das atenções em fases mais complicadas, como a que estamos vivendo durante a pandemia, que interfere nas nossas emoções e escolhas.

Por isso, temos que saber que a alimentação adequada faz parte da prevenção e tratamento de doenças agudas e crônicas e, para vocês terem uma ideia, o surto de ebola de 2014 a 2016 na África Ocidental,demonstrou que os cuidados em relação à nutrição e ao suporte imediatos reduziram significativamente as taxas de mortalidade. Isso também pode se aplicar agora com o novo coronavírus.

Percebo que as pessoas estão muito atentas aos cuidados relacionados à higiene, porém, como demonstrado no texto de ontem, estão menos preocupadas com o estilo de vida que, com certeza, está relacionado a diversos problemas de saúde que aumentam o risco de ter um quadro grave de covid-19, como diabetes, pressão alta e complicações cardiovasculares. Portanto, é importante tomar as medidas adequadas para evitar o contágio (lavar as mãos, usar máscara etc.) e também ter uma rotina ativa e uma alimentação saudável, pois maus hábitos alimentares podem comprometer sua saúde de forma silenciosa.

Por que a boa alimentação é ainda mais importante nesse momento

Explicando basicamente, ao detectar a presença do vírus no organismo, nosso corpo gera uma resposta imunológica, por meio de manifestações relacionadas à inflamação e recrutamento de células apresentadoras de antígenos.

A resposta inflamatória desempenha um papel crucial nas manifestações clínicas da covid-19. Após a entrada do SARS-CoV-2, os fatores do hospedeiro desencadeiam uma resposta imune contra o vírus que, se não controlada, pode resultar em danos nos tecidos pulmonares, comprometimento funcional e capacidade pulmonar reduzida.

A ligação entre a gravidade da infecção viral e das doenças não trasmissíveis (DNTs) foi observada em outras infecções virais, carregando fatores de risco para complicações da covid-19. Pacientes com obesidade e comorbidades que comprometem a função cardíaca ou pulmonar provavelmente podem exacerbar a infecção, sendo que, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, manter um peso corporal e composição corporal adequada, com a prática de exercícios e alimentação saudável, estão alinhados com as recomendações.

O estado nutricional pode ter um impacto significativo na saúde geral de um indivíduo, na redução de doenças crônicas e na redução do risco de desenvolver infecções. Com isso, os efeitos benéficos de uma alimentação saudável são discutidos em relação à atual pandemia. No entanto, é importante ressaltar que nenhum alimento previne a doença ou pode ser usado como tratamento.

O que temos é o aprendizado com pesquisas anteriores em relação a outras infecções virais, ficando claro que o estado nutricional desempenha um papel significativo na resposta dos pacientes ao tratamento. Da mesma forma, para aqueles que não foram infectados, seguir uma dieta com alimentos que possuem propriedades anti-inflamatórias pode potencialmente reduzir o risco de infecções graves em pacientes com comorbidades que contraem covid-10. Existem várias dietas e nutrientes que potencialmente conferem propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras em doenças, incluindo doenças cardiovasculares, doenças pulmonares e inúmeras doenças crônicas, sem arriscar a imunossupressão.

Evidências de qualidade moderada sugerem que padrões alimentares e nutrientes individuais podem influenciar marcadores sistêmicos das funções imunológicas. No mínimo, recomenda-se a obtenção de ingestão de nutrientes de acordo com a recomendação diária (RDA) para os nutrientes que se pensa ter um papel no apoio às funções imunológicas.

Por isso, algumas terapias anti-inflamatórias e imunodulatórias foram exploradas em um recente artigo, de acordo com a figura abaixo. Visto isso, nutrientes como vitamina C, vitamina D e zinco parecem auxiliar no tratamento da covid-19. Da mesma forma, nutrientes anti-inflamatórios, antitrombóticos e com propriedades antixoxidantes podem prevenir ou atenuar as manifestações inflamatórias e vasculares associadas à doença provocada pelo coronavírus.

ilustração coluna Paola - Adaptado de Zabetakis I., et al (2020) - Adaptado de Zabetakis I., et al (2020)
Imagem: Adaptado de Zabetakis I., et al (2020)

Cascata inflamatória Presença de fatores de risco não-modificáveis (idade e genética) e modificáveis (tabagismo, inatividade, alimentação inadequada, obesidade, patologias crônicas, incluindo infecções persistentes como coronavírus)

Resposta anti-inflamatória Tratamentos medicamentosos direcionados e/ou estilo de vida saudável, incluindo atividades físicas e alimentação adequada.

Lembre-se: uma boa dieta é importante para a saúde do nosso organismo durante a vida toda, e isso pode ser obtido com dicas simples, como optar por alimentos in natura ou minimamente processados; incluir mais verduras, legumes e oleaginosas em sua alimentação; ingerir pelo menos duas frutas ao longo do dia; e evitar frituras, gorduras saturadas, sal e açúcar em excesso mantêm uma alimentação adequada.

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