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Máscara na academia: por que ainda não podemos liberar exercícios sem ela

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Beatriz Klimeck, Daisy Motta Santos, Isaac Schrarstzhaupt, Julio de Carvalho Ponce, Larissa Brussa Reis, Leonardo Rovatti, Letícia Sarturi Pereira e PFF Para Todos*

01/12/2021 04h00

Imagine uma doença provocada por um vírus que é eliminado em aerossóis emitidos por respiração e fala. Imagine que uma pessoa infectada resolva ir à academia, pois não sabe que está infectada por ser assintomática. Imagine que o esforço físico amplifique a quantidade de aerossóis eliminados e que, então, partículas de vírus estão sendo amplamente eliminadas, durante o exercício.

Agora, imagine que esta academia é um local fechado com pouca ou nenhuma ventilação. Partículas virais aerossolizadas vão se acumulando no ar, já que não há renovação de ar. Sim, este vírus é o Sars-CoV-2 e a doença que estamos falando é a covid-19. E a pergunta que fazemos é: você se sentiria seguro em praticar exercícios físicos, sem máscara, dentro dessa academia?

Desde o início da pandemia, pessoas do mundo inteiro aderiram ao uso de máscaras como medida de proteção individual e coletiva contra a covid-19. Muitas aderiram ao uso porque buscaram informações sobre a prevenção. No entanto, parte dessas pessoas aderiram somente por causa de decretos que obrigaram o uso de máscaras em locais de convivência coletiva.

Agora, as máscaras vêm sendo pouco a pouco dispensadas, com o avanço da cobertura vacinal. A ampla cobertura vacinal é motivo de otimismo e nos tranquiliza um pouco, pois as vacinas têm prevenido mortes e casos graves da covid-19, na maioria dos vacinados.

Entretanto, apesar da alta cobertura vacinal, o abandono do uso de máscaras, uma medida de prevenção tão importante contra um vírus que se transmite pelo ar, parece ainda ser muito precoce. Países com cobertura vacinal maior que a nossa têm experimentado elevação no número de casos. Alguns desses países liberaram o uso de máscaras para pessoas vacinadas, conforme a vacinação foi avançando, mas, infelizmente, após aumento no número de casos, tiveram que recuar na liberação.

Israel fez a liberação em junho de 2021, quando tinha aproximadamente 55% da população completamente vacinada, e teve de recuar. A Dinamarca declarou que a pandemia "estava sob controle" em setembro de 2021 e agora está tendo que voltar com o uso das máscaras, mesmo com 76% da população completamente vacinada. Também temos os exemplos da Holanda e da Áustria, cujo aumento no número de casos foi tão intenso que tiveram de decretar novos lockdowns. Tudo isso por liberações precoces de uma medida tão eficaz contra a transmissão do vírus.

O Brasil segue liberando o uso de máscaras em locais abertos, o que já era de se esperar, considerando que locais abertos garantem uma maior dispersão de partículas virais e com o devido distanciamento, o risco desses locais acaba sendo bem reduzido.

O uso de máscaras é ainda essencial, especialmente, em locais fechados com pouca ou nenhuma ventilação. Nesses locais, com muitas pessoas falando, cantando ou gritando, temos um risco alto de transmissão e as máscaras, quando usadas adequadamente, podem garantir proteção. As academias, além de preencherem os requisitos mencionados, são locais que contam com uma produção excessiva de aerossóis, por conta do aumento da atividade respiratória durante a atividade física.

Frente a liberação do uso de máscaras em locais fechados, como academias, em alguns municípios, há uma grande preocupação da comunidade científica sobre um novo aumento de número de casos, a partir da dispensa de uma das medidas mais eficazes no controle da transmissão.

Portanto, aqui pretendemos apontar as evidências científicas que mostram o porquê de você ainda ter que usar máscaras em locais fechados, especialmente em locais de alto risco de infecção, como as academias de ginástica. Além disso, pretendemos também ajudar o leitor na tomada de decisões sugerindo alternativas a fim de incentivar a manutenção da prática de atividade física com maior segurança e conforto.

Cobertura vacinal não é suficiente para flexibilizar

Apesar da cobertura vacinal estar avançando no Brasil, o vírus Sars-CoV-2 ainda não está controlado no país e a pandemia não chegou ao fim. Sendo assim, apesar de termos uma população adulta amplamente vacinada, indivíduos vacinados ainda têm a capacidade de transmitir a doença, mesmo que em menor proporção quando comparados a indivíduos não vacinados. Por esse motivo, ainda precisamos aderir a outras medidas de prevenção, tais como o uso de máscaras em locais fechados.

Cabe ainda destacar que os números progressivamente elevados de vacinação no Brasil apontam para uma situação de melhora, mas não decretam, de imediato, a eliminação dos riscos de infecção. Países como Áustria e Alemanha, que ultrapassaram 65% de cobertura vacinal, estão sendo obrigados a revisar suas políticas de abertura e abandono de medidas profiláticas de combate ao vírus.

Dois pontos valem ser destacados: a possibilidade de estagnação da velocidade de crescimento da cobertura vacinal e a homogeneidade da cobertura em diferentes faixas etárias. Quando um local toma uma decisão de liberar o uso de máscaras com base em uma determinada cobertura vacinal, deve ser levada em conta a velocidade com que essa cobertura vacinal está sendo atingida. Mesmo países que estagnaram em 80% de cobertura (Portugal, por exemplo) estão tendo aumento de casos (menores do que os países que estagnaram em 60%).

A estagnação deve ser levada em conta para essas decisões. Sobre a homogeneidade da cobertura, é válido lembrarmos que se tivermos bolsões de não vacinados em determinadas faixas etárias (como as crianças), ainda podem ocorrer focos importantes de transmissão entre elas e seus pais e/ou cuidadores que, por sua vez, podem frequentar academias e continuar essa cadeia de transmissão.

Academias são locais de alto risco

Já é sabido, hoje, que o Sars-CoV-2 se transmite pelo ar, através principalmente de aerossóis suspensos nos ambientes fechados ou com pouca ventilação. Por esta razão, a higienização das superfícies e o baixo contato entre praticantes dentro de uma academia, não garantem a segurança destes espaços, que geralmente oferecem pouquíssima troca de ar com o ambiente externo.

O esforço físico realizado durante a prática de exercícios produz mais partículas aerossolizadas do que a fala e é com estas que devemos nos preocupar. É justamente por isso que locais fechados são ambientes de maior risco e é imprescindível a utilização de máscaras nesses locais.

Academias foram classificadas como locais de alto risco para a transmissão da covid-19, segundo o CDC. Ainda, de acordo com estudo publicado na revista Nature, as academias estão em segundo lugar, dentre os locais com maior risco de infecção.

E vale ressaltar que pessoas vacinadas, mesmo que em menor proporção que não vacinados, possuem a capacidade de transmitir, ainda que o indivíduo contaminado esteja assintomático, principalmente, considerando a variante delta que é altamente transmissível e já é dominante no Brasil e no mundo.

Pandemia da covid-19 e a inatividade física

A prática regular de exercícios físicos deve ser incentivada, tendo em vista que é de amplo conhecimento que a atividade física traz benefícios para a saúde física e mental. No entanto, a prática de atividade física não deve oferecer riscos maiores que aqueles riscos associados à inatividade.

A covid-19 representa um risco maior à saúde, nesse momento, e é justamente por isso que a pandemia exigiu que mudássemos nossas vidas e evitássemos sair de casa sem máscaras. Basta olharmos o número de mortos pela covid-19 no Brasil e no mundo, ou até mesmo, sendo menos pessimistas, o número de indivíduos com sequelas da doença que hoje buscam reabilitação de funções motoras, cognitivas, cardiorrespiratórias, psiquiátricas, por conta do efeito devastador da doença. Temos inclusive atletas entre os indivíduos com a síndrome pós-covid-19.

Além disso, para alcançar os benefícios do exercício físico regular, não precisamos necessariamente realizá-los em local fechado, sem distanciamento e, muito menos, sem o uso de máscaras. Estudo prévio, inclusive, aponta que grande parte dos indivíduos fisicamente ativos no Brasil não estão dentro de academias de ginástica e que o tipo de exercício mais praticado é a caminhada.

Fique ativo com segurança

Desde o início da pandemia, cientistas e divulgadores científicos propuseram atividades ao ar livre como forma de diminuir os riscos de transmissão da doença, incluindo a prática de exercícios físicos. Ao ar livre, as partículas virais se dissipam e, portanto, o risco torna-se bem menor que em locais fechados.

O uso de máscaras ao ar livre vem sendo dispensado, considerando o aumento da cobertura vacinal. Porém, o uso em locais fechados continua sendo de extrema importância, haja visto o fato de ainda termos transmissão ativa do vírus.

Alguns fatores inerentes à atividade física podem amplificar a transmissão em academias localizadas em locais fechados com pouca ou nenhuma ventilação. Entre os mais preocupantes temos a dificuldade em manter distanciamento, o compartilhamento de espaços (vestiários e banheiros) e, com maior destaque, o incômodo do uso correto de máscaras durante o esforço.

Ajuste a intensidade do exercício

É desconhecido que o uso da máscara pode causar morte ou algum tipo de consequência grave. Fato é que alguns estudos sugerem, além do desconforto, um prejuízo no desempenho, mas no momento atual, é justificável ajustar intensidade e duração do treinamento físico a fim de promover adaptação ao uso de máscara facial.

O uso das máscaras durante o esforço pode não ser uma tarefa simples para todos, mas é essencial, visto que diversos relatos já foram associados a sua falta de uso com contaminação dentro de academias.

Entre os estudos, relatos de academias que cobravam teste de covid-19 na entrada do estabelecimento, e que permitiam retirar a máscara apenas durante uma aula de spinning com professor contaminado, porém pré-sintomático, demonstra o risco destes ambientes. Associado ao esforço físico desta aula temos ainda o fato de o instrutor/professor utilizar informações verbais e até cantar (por não menos do que 30 minutos).

O compartilhamento de equipamentos poderia ser um problema a ser minimizado com higienização frequente, entretanto já é bem estabelecido que o maior risco de transmissão é de pessoa a pessoa e não por objetos possivelmente contaminados por alguém infectado.

Além dos estudos do CDC, existe um outro estudo em quadra de squash que sugere transmissão por aerossóis, ou na quadra ou no vestiário, entre praticantes que não utilizavam máscaras. Já em trabalhos que avaliaram ambientes abertos e a prática, por exemplo, de futebol e golfe, o risco se mostrou reduzido, devido ao fato de serem realizados em ambientes abertos e bem ventilados.

Assim, higienizar equipamentos e seguir protocolos sem evidências científicas não têm relevância diante de um cenário de alto risco. Durante a pandemia, temos visto atividades em academias sendo relacionadas a surtos de covid-19.

Exercício com máscara não aumenta CO2

Apesar da preocupação de alguns profissionais com a prática de exercícios físicos com máscara, devido à informação falsa que circulou nas redes de que ocorre aumento de dióxido de carbono no organismo, essa questão já foi refutada inúmeras vezes pela comunidade científica.

O conhecimento básico sobre mecanismos fisiológicos e bioquímicos e até mesmo estudos científicos realizados são evidências sólidas que apontam que essa preocupação é equivocada. Inclusive, um dos estudos que afirma que há aumento de dióxido de carbono devido ao uso de máscaras foi retratado, o que indica que tinha falhas graves. O próprio VivaBem desmentiu a fake news sobre máscaras causarem o "envenenamento por dióxido de carbono".

O uso de máscaras adequadas não acarreta alterações significativas na saturação de oxigênio e na pressão de dióxido de carbono e portanto, não há motivo para se preocupar. Apesar de alguns poucos estudos até relatarem algumas pequenas mudanças, elas não se refletem em alterações clínicas que geram sintomas físicos.

Não existe nenhum relato no mundo de pessoas que sofreram qualquer tipo de dano utilizando máscaras durante o esforço físico. Pessoas com maior dificuldade respiratória são recomendadas a se exercitarem em locais abertos, para evitar que o uso de máscaras desestimule a prática de exercícios físicos. Mas para quem tem dificuldade respiratória e deseja se exercitar em academias, a sugestão é a utilização adequada de PFFs valvuladas, com base nas recomendações feitas pela NIOSH e pelo CDC.

Aguente um pouquinho mais para não perdermos o que ganhamos até agora!

Neste momento de redução de casos e mortes, tendemos a ser mais otimistas e aceitamos tudo sem questionar. Veja o exemplo da Alemanha que passou de 6.000 casos diários no final de setembro de 2021 e agora (mesmo com 68% da população totalmente vacinada) está ultrapassando os 60 mil casos diários.

Acreditar que a pandemia acabou cedo demais faz com que justamente ela não acabe, e podemos ver isso em vários países. Uma correlação que também podemos observar é a da liberação do uso de máscaras em ambientes fechados (como academias) adicionado à estagnação da vacinação com o aumento de casos (e posterior aumento de hospitalizações e óbitos). Vimos isso em Israel, Dinamarca, Holanda, Reino Unido, Áustria e Estados Unidos, entre outros.

A pandemia é um problema coletivo, precisamos de medidas coletivas que sejam efetivas na redução da transmissão. O uso de máscaras juntamente com a vacinação, o distanciamento social e a ventilação de ambientes são medidas que efetivamente reduzem a transmissão.

Pratique esse quadrado da prevenção: máscara, distanciamento, ventilação e vacinação! A pandemia ainda não acabou e ela só vai acabar se todos nós nos envolvermos no controle da transmissão do vírus.

*Beatriz Klimeck é antropóloga, doutoranda em saúde coletiva e coordenadora do projeto Qual Máscara?

Daisy Motta Santos é doutora em fisiologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e profissional de educação física idealizadora do Ciência do Exercício

Isaac Schrarstzhaupt é da Rede Análise Covid-19

Julio de Carvalho Ponce é farmacêutico-bioquímico, mestre e doutor em epidemiologia pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo)

Larissa Brussa Reis é doutora em genética e membro da Rede Análise Covid-19

Leonardo Rovatti é da Rede Análise Covid-19

Letícia Sarturi Pereira é mestre em imunologia pela USP, doutora em biociências e fisiopatologia pela UEM (Universidade Estadual de Maringá), professora titular na Universidade Paulista e membro da União Pró-Vacina

Perfil PFF para Todos é ativista de proteção respiratória

Outras referências consultadas:

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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