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Lucas Veiga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saúde mental nas organizações: o que as empresas precisam fazer?

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Lucas Veiga

Lucas Veiga

Lucas é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense. Contato: lucasmottaveiga@gmail.com.

Colunista do VivaBem

05/10/2021 04h00

A vivência coletiva de uma experiência traumática como a pandemia coloca diante das organizações a necessidade e a urgência de criar ou fortalecer práticas de cuidado em saúde mental para os colaboradores. Independentemente de como cada indivíduo foi afetado de março de 2020 para cá, se contraiu o vírus ou não, se perdeu entes queridos ou não, fato é que todas as pessoas, inevitavelmente, tiveram de lidar com os efeitos de uma das maiores pandemias da história. E isto, sem dúvida, produz impactos, em maior ou menor grau, sobre a saúde mental de todos.

Diante disso, gostaria de abordar três pontos fundamentais que as organizações precisam estar atentas para fazer do ambiente de trabalho um espaço também de promoção de saúde e bem-estar emocional.

O primeiro ponto é a atenção ao estado emocional dos colaboradores, o que significa dizer ter a sensibilidade de compreender que a maioria das pessoas está emocionalmente fragilizada e que pode apresentar no ambiente de trabalho sintomas que apontam para a necessidade de cuidados. Um dos sintomas mais comuns neste momento é a ansiedade de retorno que, como o nome sugere, é desencadeada devido ao retorno às atividades presenciais após longo período de trabalho remoto, no qual o contato com outras pessoas estava reduzido. A ansiedade de retorno pode comparecer em forma de dificuldades de socialização e de concentração, pensamentos negativos constantes, medo e irritabilidade.

O segundo ponto, relacionado ao anterior, é o desenvolvimento de ferramentas de promoção de bem-estar emocional. Há uma série de práticas que a empresa pode desenvolver de modo a cuidar dos impactos da pandemia, tanto nas pessoas quanto nas relações de trabalho.

Fazer rodas de conversa com as equipes sobre saúde mental é uma atividade que tem efeitos interessantes porque possibilita o fortalecimento da empatia e a sensação de acolhimento, bem como palestras sobre o tema podem instrumentalizar os colaboradores para identificar seu próprio estado emocional e buscar a partir disso o cuidado necessário.

Promover no ambiente de trabalho momentos coletivos de prática de ioga e meditação também é uma ferramenta de cuidado importante porque contribui sobremaneira na redução de sintomas de estresse e ansiedade. Além disso, financiar o acompanhamento psicológico dos colaboradores e estimular que se busque por este tipo de serviço também é importante.

O terceiro ponto, correlato aos dois anteriores, é a revisão das práticas e políticas institucionais. Este último ponto é estruturante para que o ambiente de trabalho seja de fato um espaço de promoção de bem-estar, porque mesmo com atenção ao estado emocional dos colaboradores e desenvolvendo ferramentas de promoção de saúde mental, se a rotina de trabalho é exaustiva, se a remuneração é baixa, se as relações de hierarquia são autoritárias e com pouco diálogo com a base, o ambiente de trabalho pode criar ou intensificar problemas emocionais ao invés de ajudar a amenizá-los.

Neste sentido, é fundamental que as organizações revejam seu modo de funcionamento para fazer os ajustes necessários de acordo com a realidade atual que vivenciamos. Redução da carga horária semanal, folgas, flexibilidade nos prazos de entrega sempre que possível, aumento da participação nos lucros, entre outros, são políticas institucionais fundamentais para a preservação e a promoção de saúde mental tanto dos indivíduos quanto da própria organização como um todo.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o adoecimento em saúde mental será o principal problema de saúde deste século e precisamos desde já desenvolver e implementar as mudanças necessárias para reduzir os danos que este tempo produz e para prevenir uma epidemia de doenças mentais. Que cada organização assuma seu compromisso social e histórico de cuidado para com a saúde mental dos colaboradores.