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Saúde mental na educação: três dicas para o retorno às aulas presenciais

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Lucas Veiga

Lucas Veiga

Lucas é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense.

Colunista do VivaBem

21/09/2021 04h00

O retorno às aulas presenciais tem trazido algumas preocupações para diretores e professores, em especial no que se refere aos impactos que tanto tempo de isolamento social podem ter produzido na saúde mental dos estudantes.

Para além dos desafios com o cumprimento dos protocolos de segurança, como uso de máscara e distanciamento, a pandemia é uma experiência traumática para todos e o efeito dela na saúde mental das pessoas se torna cada vez mais visível.

Estudantes que, porventura, perderam familiares, presenciaram ou vivenciaram situações de violência doméstica, que tiveram de lidar com o aumento da vulnerabilidade econômica, dentre outras situações, podem apresentar sintomas tais como dificuldade de socialização, irritabilidade, dificuldade de concentração, dores de cabeça constantes e ansiedade.

A volta às aulas presenciais, dessa vez, é completamente diferente de quando a escola retorna às atividades após um período de férias. O retorno atual está marcado por uma experiência coletiva complexa e dolorosa e os efeitos dessa experiência, inevitavelmente, comparecerão no espaço escolar.

O que a escola pode fazer diante disso?

Certamente, não há fórmulas prontas e definitivas para lidar com essa questão, mas sugiro a seguir três dicas que a escola pode implementar para fazer do retorno às atividades presenciais uma experiência prazerosa e de acolhimento para todos.

Ampliação da escuta: vai ser muito importante, a partir de agora, a escola ouvir as situações presentes no cotidiano, tendo em consideração o tempo pandêmico em que vivemos. Os conflitos não poderão ser escutados como questão individual dos atores envolvidos, mas também como efeito do retorno à sociabilidade após um longo período de aulas virtuais. Além disso, será fundamental a escola estar sensível para escutar quando o próprio modo de funcionamento da instituição pode estar causando ou intensificando problemas com alunos e funcionários. Talvez determinadas atividades ou certa rigidez com algumas questões precisem ser modificadas para o bem-estar da comunidade escolar.

Rodas de conversa: desenvolver rodas de conversa com pequenos grupos de alunos e funcionários pode ser uma atividade muito interessante para a elaboração coletiva das perdas que a pandemia provocou. Colocar em palavras as experiências, nomear os afetos que se fazem presentes são práticas de cuidado fundamentais para a promoção de saúde mental. Como foi para vocês esse tempo em casa? Como vocês estão se sentindo? Como está a família? São algumas perguntas disparadoras que podem compor as rodas de conversa, aumentando a empatia entre o grupo, a escuta e o compromisso de enfrentarmos juntos os desafios que agora estão postos.

Mural da alegria: o mural da alegria é um espaço onde estudantes e funcionários são convidados a escrever, colocar uma foto ou desenhar algo que fizeram durante o período de isolamento social e que foi prazeroso. Tem gente que aprendeu a tocar um instrumento, a cozinhar determinado prato, fez um curso interessante, gostou de assistir a tais filmes ou a tais séries, leu livros, aprendeu novos jogos, enfim, várias atividades que trouxeram bem-estar apesar do contexto em que vivemos. O mural da alegria, ou o nome que a escola queira dar, é uma troca muito interessante e fortalecedora dos laços entre os participantes.

Sabemos que os desafios com a volta às aulas presenciais são muitos, mas com ampliação da escuta, rodas de conversa e atividades conectadas com a criação, como o mural da alegria, a escola pode se tornar um importante espaço de elaboração, acolhimento e promoção de bem-estar emocional para toda comunidade escolar.

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