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Distanciamento físico, mas não social

FG Trade/iStock
Imagem: FG Trade/iStock
Anna Sara Levin, Geraldo Lorenzi Filho e José Ricardo Ayres

Anna Sara Levin, Geraldo Lorenzi Filho e José Ricardo Ayres

Anna é professora da FMUSP na área de infectologia; Geraldo é professor de pneumologia da FMUSP e diretor do Laboratório do Sono do InCor, e José Ricardo é médico sanitarista e professor de medicina preventiva da FMUSP.

07/07/2020 10h43

Isolamento social tem sido ouvido frequentemente como tradução do termo "social distancing". Em seu uso coloquial, anterior à pandemia, isolamento social referia-se ao "comportamento pelo qual uma pessoa ou grupo de pessoas, voluntária ou involuntariamente, se afastam de interações e atividades sociais".

Isolamento social pode igualmente ser um sintoma de depressão. Difícil sentença, em especial para nós brasileiros. Vivemos em um país tropical e caloroso por natureza. Adoramos conversar, trocar ideias e, particularmente, discutir.

Se a suspensão dos jogos colocou em quarentena os "técnicos de futebol", logo nos tornamos uma nação de 210 milhões de cientistas sociais, epidemiologistas e médicos. Estamos a debater se a epidemia de fato existe ou é produto da mídia.

Nunca tantos grupos de amigos se falaram tanto nas redes sociais. Nunca assistimos tantos shows. Nunca pais e filhos conviveram tanto dentro de casa. Sem nos darmos conta, o termo isolamento ou distanciamento social erra o alvo, além de nos acertar em cheio ao nos privar de algo que nos é muito caro. A verdade é que em muitos aspectos, vivemos a antítese do distanciamento social.

O quase-mantra "fique em casa" tem tido um papel fundamental para enfrentar a epidemia —aliás, um dos poucos recursos de que dispomos. Mas não podemos esquecer, por exemplo, que parcela significativa das famílias brasileiras vive em comunidades, cortiços e favelas, com seus membros muitas vezes apinhados num único cômodo, evidentemente com dificuldades para seguir as medidas de higiene recomendadas.

Não se pode esquecer, também, de parcela significativa de trabalhadores que não tem podido ficar em casa, por participarem de atividades essenciais, na saúde e fora dela.

O "fique em casa" tampouco nos fornece um mapa de como sair dessa encrenca. Mais cedo ou mais tarde, vamos ter que enfrentar esse leão. Está na hora de trocarmos o termo distanciamento social por distanciamento físico.

Distanciamento físico de quem? Do coronavírus. Não queremos entrar em contato com o vírus, pois não queremos correr o risco de ficar doentes ou, sem nos darmos conta, de espalhar o vírus para outros.

Precisamos de distanciamento físico de todos os seres humanos, mesmo porque não se sabe quem está ou não infectado.

A partir do conceito de distanciamento físico muita coisa se esclarece. A "fábrica de vírus" são os pulmões e o uso de máscara promove o distanciamento físico de uma fábrica potencial de vírus para outra potencial fábrica de vírus. Essa medida é simples e barata, podendo ser estendida a todos, por conta própria ou com o apoio do poder público, como aconteceu com a camisinha no combate à Aids.

Sejamos sinceros, o uso de máscara não é agradável. Mas usar máscara é um gesto de inteligência pessoal e coletiva: protege a todos nós. E é também um sinal de humanidade: prestamos nosso respeito aos que estão sofrendo, e aos que perderam amigos e familiares nessa guerra.

Falar de forma genérica sobre o Brasil, ou sobre estados brasileiros ignora, por sua vez, a distância física entre os municípios. O fato de termos uma política única de controle da epidemia para regiões com situações muito diversas, algumas com hospitais lotados e outras com poucos casos, confunde as pessoas e gera descrença.

O problema é que, embarcado tranquilamente nos pulmões dos assintomáticos, as estradas são o caminho natural do coronavírus. Os paulistanos que levam sua família para passar o final de semana na praia ou no campo não percebem que podem estar levando o vírus para locais com poucas condições de se defender no caso de um surto da epidemia.

Não é à toa que já surgem barricadas em algumas estradas que levam às cidades turísticas. O desastre está anunciado, caso o coronavírus chegue nos morros do litoral norte paulistano ou de Campos de Jordão, onde os recursos de saúde são limitados.

Finalmente, há que se pensar no que significa distanciamento social frente aos desafios políticos que estamos enfrentando. A frustração e o sofrimento têm feito muitos brasileiros saírem às ruas para se manifestar, mesmo antes disso ser recomendável.

Para muitos, o risco do contato físico parece menor do que aquele representado pela vulnerabilidade e violência a que estão submetidos diariamente —situação agravada pela covid-19. Mas é exatamente agora que podemos descobrir novas formas de criar distanciamento físico (temporariamente necessário) sem perder proximidade social (mais que nunca necessária), como já começamos a fazer nos nossos afetos, nas artes, nos estudos, no trabalho, na política.

Não queremos apontar o dedo para os erros. Nessa pandemia tudo é novo, e só não erram os palpiteiros. No entanto, que fique claro, não estamos diante de um mero deslize semântico. Está na hora de mudarmos o nome de distanciamento social para distanciamento físico.

Quando isso deixar de ser visto como mero jogo de palavras vai ficar mais fácil estabelecer critérios para as transformações que nos tragam de volta, ainda que transformados, os pequenos e grandes afazeres e prazeres da vida.

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