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Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Doutor, minha libido foi para o Alasca! O que eu faço?

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Arthur Guerra

Arthur Guerra

Arthur Guerra é professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

06/07/2020 09h47

Em tempos de covid-19, nós, médicos, temos visto um cenário devastador em vários sentidos, em especial no universo psíquico. Se já vínhamos testemunhando isso em conversas com nossos pacientes, o quadro materializou-se em números com a pesquisa realizada entre 24 de abril e 8 de maio pela Fiocruz, em parceria com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Além do impacto econômico óbvio da pandemia na renda da maioria dos brasileiros, os efeitos dela na saúde mental foram imensos: 40% disseram se sentir mais deprimidos e 54%, frequentemente ansiosos. O estudo apontou, ainda, ter havido aumento de 18% no consumo de álcool nesse período.

Fica claro que o estado de ânimo dos brasileiros não anda nada bem. Isso tem afetado a vida sexual de todos nós. A questão interessante acerca da libido em tempos de pandemia é que ela parece variar bastante. Ainda não há muitos dados consolidados sobre essa questão, mas é possível inferir isso a partir da minha vivência como psiquiatra, da conversa com colegas e amigos, além da leitura de pesquisas —friso, ainda limitadas.

Em maio, em correspondência publicada pela prestigiosa revista Nature, pesquisadores italianos descobriram que, naquele país, mais de 40% das pessoas que responderam a uma pesquisa online relataram aumento do desejo sexual durante a quarentena, quando comparadas a uma linha de base previamente definida. Acontece que o aumento do desejo não se traduziu em maior frequência de relações sexuais.

Além disso, eles verificaram ter havido redução da satisfação sexual —mais da metade dos ouvidos descreveu completa ausência de satisfação sexual, comparado aos quase 8% que relataram isso antes da quarentena.

Permito-me tirar algumas conclusões a partir dessas pesquisas. Há muitas evidências de que diferentes pessoas respondem de modo díspar a uma mesma situação. Isso vale para a libido. Para alguns, quando a ansiedade cresce, a libido aumenta. O sexo, nesse caso, vira quase uma ferramenta para lidar com o estresse. Outros, no entanto, sentem-se desestimulados para manter relações sexuais.

Nessa situação extraordinária que vivemos, é impossível afirmar qual desses comportamentos tem prevalecido. No meu dia a dia, o que tenho testemunhado é um cenário de "terra arrasada", até porque depressão e ansiedade são fatores conhecidos que contribuem para a perda do interesse sexual, particularmente nas mulheres.

Outro ponto que destaco é a angústia que a imensa maioria tem enfrentado por não saber que mundo vai emergir do pós-coronavírus. O momento pelo qual passamos é como estar dirigindo em uma estrada e entrar em um túnel repleto de neblina.

Ao sairmos dele, será que o tempo estará melhor ou a neblina terá piorado e correremos o risco de bater o carro? Ninguém sabe. Essa incerteza não é estimulante do ponto de vista sexual.

Se você está sentindo que o seu desejo sexual anda em baixa, não se culpe, nem culpe o seu parceiro ou parceira. Sexo é um impulso natural, assim como é a fome, portanto ele é mediado pelos nossos pensamentos e pelos estímulos externos.

Sem dúvida, vamos sair dessa pandemia e vamos para um "novo normal". Nesse cenário, nem tudo será novo. Se você está preocupado com sua libido, um pouco de calma, por favor. Em pouco tempo, ela retornará a patamares anteriores. Talvez não seja uma explosão de hormônios, mas, certamente, algo melhor que o momento pelo qual hoje passamos.

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