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Anticorpos: antiga alternativa às vacinas que pode combater um novo vírus

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Ana Maria Moro

Ana Maria Moro

Ana Maria Moro é bióloga, pesquisadora no Instituto Butantan, pós-doutorada em biologia celular pela Università degli Studi di Torino (Itália) e professora orientadora de doutorado nos programas de biotecnologia e imunologia da USP (Universidade de São Paulo)

05/04/2020 17h55

A pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2) está desafiando de uma forma que só parecia possível em romances de ficção científica as estruturas sanitárias, econômicas, sociais e governamentais do mundo todo. A ciência busca soluções para barrar a pandemia, seja na triagem de medicamentos já existentes, seja no desenvolvendo vacinas. Mas há outras possibilidades.

Nosso sistema imune tem capacidade imensa de responder aos estímulos mais variados, mas não tem resposta pronta para estímulos novos. A memória imunológica depende de ter havido um contato prévio. É assim que funciona na vacinação. A inoculação de uma versão atenuada ou não infectante de um vírus ensina o sistema imune a identificar o verdadeiro agente infeccioso quando se defrontar com ele.

Sendo novo, o vírus causador da covid-19 encontra terreno fértil para se expandir. A resposta imunológica ao vírus depende da resposta imune imediata (inata) e também da resposta específica, com a produção de anticorpos, que neutralizam os vírus e podem amenizar a doença.

Mas nem todos respondem da mesma forma diante de uma infecção, pois além de fatores individuais, sabe-se que a resposta imunológica decai com o avanço da idade. Os idosos possuem memória imunológica, mas sua capacidade de responder ao estímulo infeccioso novo é diminuída. Doenças crônicas também causam prejuízo aos mecanismos imunológicos, conferindo maior vulnerabilidade ao vírus.

Uma opção terapêutica consagrada que está sendo considerada para tratar pacientes com risco de desenvolver a síndrome respiratória (a forma grave da covid-19) são os anticorpos presentes nos soros. Esse método é usado desde o século 19, quando foi constatado que o soro de pessoas curadas de tétano e difteria podia ser administrado para curar outros doentes.

O uso de anticorpos enseja uma resposta imediata do organismo, sendo usado no caso de acidentes por toxinas ou animais venenosos, como é o caso do soro antiofídico. Quando mais cedo iniciar o tratamento com anticorpos, melhores os resultados, brecando o agente invasor antes que atinja grande concentração ou tenha causado danos.

No caso da covid-19, é possível a obtenção dos anticorpos a partir do plasma de pessoas curadas naturalmente. Tal opção já foi aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration), o órgão federal americano (equivalente à nossa Anvisa — Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A mesma estratégia está sendo considerada no Estado de São Paulo.

Diante dos casos graves de covid-19, é natural pensar no uso de anticorpos específicos (chamados anticorpos monoclonais humanos), como os desenvolvidos no Instituto Butantan, no âmbito do nosso projeto temático da Fapesp —Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo. Assim como acontece com uma vacina de covid-19, o desenvolvimento de anticorpos monoclonais em laboratório não é imediato e não seria possível ter opções imediatamente disponíveis para o controle desta pandemia.

Que sirva de exemplo o uso de anticorpos monoclonais contra o vírus Zika, cuja pesquisa foi iniciada na epidemia em 2015, encontra-se em estágio avançado, mas ainda sem produto aprovado. Outro exemplo aconteceu na epidemia do vírus Ébola na África ocidental, entre 2013 e 2016, quando anticorpos monoclonais foram utilizados em alguns pacientes em risco de morte, em caráter humanitário — e os salvaram.

Nos Estados Unidos, o pesquisador brasileiro Michel Nussenzweig, da Universidade Rockefeller, está recrutando doadores curados de covid-19 para identificar os anticorpos neutralizantes. Nós também entramos num projeto colaborativo com a USP (Universidade de São Paulo) com a mesma finalidade.

Enquanto os anticorpos monoclonais não vêm, pode-se usar o sangue de pessoas curadas da covid-19. Esse mesmo sangue serve de ponto de partida para identificar os anticorpos neutralizantes, obter sua sequência genética e assim gerar os anticorpos monoclonais mais rapidamente. Tais resultados podem estar disponíveis, com sorte, em menos de 12 meses.

**Este texto não reflete necessariamente a opinião do UOL.

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