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Nuno Cobra Jr

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A atividade física autotélica pode salvar a sua vida!

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Nuno Cobra Jr Nuno Cobra Jr.

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista Ítalo Ferreira. Preparador físico e mental, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro O Músculo da Alma ? a Chave para a Sabedoria Corporal, Nuno defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Nuno Cobra Jr.

Colunista do VivaBem

16/12/2021 04h00

A palavra "autotélico" tem origem do grego, desmembrando o sentido, "auto" refere-se a si mesmo, e "telos" significa meta. Usamos esse termo para definir uma atividade que tem um fim em si mesma, não com a expectativa de um benefício futuro e, sim, porque a atividade proposta torna-se a própria recompensa, proporcionando um engajamento voluntário, estimulante e prazeroso ao participante.

O treinamento autotélico é um dos maiores segredos da nossa metodologia. Peguei emprestado esse termo da psicologia comportamental e o adaptei ao treinamento físico, a disciplina que mais carece desse princípio fundamental atualmente. Afinal, a atividade corporal é o único lugar no universo conhecido a negar a lei da moderação, transformando essa experiência em algo radical e doloroso, proporcionando ao aluno um extremo sofrimento físico e mental.

Dessa forma, a principal motivação do aluno é exotélica (quando a atividade tem apenas motivações externas), o foco passa a ser apenas os resultados futuros —perder o pneuzinho na barriga ou aumentar o tamanho dos músculos—, convidando o aluno a naturalizar a dor, engolir o sofrimento e seguir adiante se quiser alcançar bons resultados estéticos no treinamento.

Na maioria das vezes, o que fazemos é uma mistura de motivações internas e externas. Os cirurgiões são um bom exemplo desse princípio: quando iniciam na profissão, as motivações são externas, por exemplo, ajudar as pessoas, ganhar dinheiro e obter reconhecimento social.

No entanto, com o tempo, essa atividade se revela um desafio que exige grande maestria e concentração, transformando essa tarefa em uma fonte genuína de fruição e prazer intrínseco. Por envolver extremos riscos e extremas recompensas, essa atividade torna-se um vício para alguns profissionais, ou seja, com o tempo, a tarefa em si torna-se a própria recompensa, gerando uma síndrome de abstinência, como uma droga.

Assim, a experiência autotélica se revela como um elemento de diferenciação profissional, separando os profissionais medianos, aqueles que apenas cumprem tarefas técnicas e "batem o ponto", dos profissionais criativos e extremamente dedicados que, envolvidos pela paixão de realizar o que fazem, levam a maestria profissional a um outro patamar.

Como transpor esse conceito para a atividade física?

Acabei me tornando um especialista em reverter quadros de aversão ou ódio ao treinamento físico, algo cada vez mais comum nos dias de hoje, devido ao amplo domínio do universo fitness. As técnicas de biofeedback que uso são ridiculamente simples, como costumam ser as coisas funcionais e naturais.

Aos poucos, passo a passo, o profissional consciente busca desvelar e apresentar ao aluno o verdadeiro propósito e o sentido primordial da atividade corporal, desfazendo antigos condicionamentos. O principal lema é: se a atividade física não é um dos melhores momentos do seu dia, alguma coisa está fora de lugar.

Para acessar os princípios fundamentais de um treinamento físico saudável e eficiente, algo estrutural nessa estratégia, veja o meu artigo anterior: "O maior segredo do treinamento físico permanece inacessível aos alunos".

Uma coisa é você ir ao parque caminhar porque precisa cuidar da sua saúde ou ficar mais magro, ou seja, você se vê obrigado a realizar essa tarefa chata; aí, o tempo não vai passar e você vai ficar completamente entediado. Outra coisa é você ir ao parque pensando na caminhada como uma forma de terapia, como uma chance única de estar consigo mesmo, algo tão raro e tão necessário na rotina caótica e massacrante do mundo moderno. A atividade passa a ser algo muito especial e prazeroso, um espaço só seu de silêncio e contemplação.

Você pode pensar nesse momento como uma forma de expressão da sua criatividade. Quando caminhamos, aumentamos em cinco vezes a circulação sanguínea e a oxigenação em nosso cérebro, fazendo do processo de pensar algo muito mais rico e intenso. Isso vai nos trazer mais insights e soluções aos nossos problemas e questões do dia a dia. Caminhar é a melhor forma de pensar.
No entanto, para muitas pessoas, caminhar ou fazer qualquer tipo de atividade física torna-se algo terrível, um castigo doloroso e desagradável, a qual elas irão tentar fugir e evitar ao máximo, mesmo que de forma inconsciente. Por que isso acontece?

Bom! Esse é um tema extremamente complexo. Em meu livro: "O Músculo da Alma, a Chave Para a Sabedoria Corporal", busco dar conta dos fatores envolvidos nessa dificuldade.

Para resumir, esse "trauma institucionalizado" tem origem no primeiro contato das crianças com a atividade corporal e continua por toda a vida, perpetuado pelos modelos hegemônicos de treinamento. Essa mentalidade já faz parte do inconsciente coletivo, como podemos constatar em depoimentos como esse:

"Tenho dificuldade em perder peso há muitos anos. Outro dia, fui fazer uma consulta ao médico e, ao final, ele me disse:
'Vou te sugerir uma boa estratégia, o ideal seria você comprar uma esteira. É muito mais prático. Recomendo que você treine todos os dias. Eu também não gosto, é um sacrifício, eu sei que é muito chato fazer atividade física, mas é um mal necessário. Eu entro na esteira xingando e saio chorando.' (risos)"
Angélica Lopes, 44 anos, dona de casa

Se um médico bem formado diz isso, imagina o que pensa um leigo.

"Mudar a forma como entendemos a atividade corporal não é urgente, é uma questão de sobrevivência

Você já deve estar cansado de ver aquelas listas quilométricas mostrando os males do sedentarismo. De A a Z, do Alzheimer, passando pela depressão e o diabetes, tudo o que você imaginar está intimamente relacionado à atividade física, um pilar fundamental da nossa saúde física e mental.

A forma como você irá envelhecer depende, em grande parte, do quão ativo fisicamente você foi em sua vida e o quão ativo você se manterá.

Durante milhões de anos, a atividade física esteve inserida à vida cotidiana de forma natural. Há apenas 100 anos, uma pessoa caminhava em média de 6 km a 7 km diariamente, visto que não havia carros e outras facilidades modernas.

Só de ir até a escola e voltar, meu pai caminhava 5 km todos os dias. Naquela época, imaginar a necessidade de uma academia de ginástica seria uma piada, já que a vida oferecia desafios físicos naturais intensos na lida diária, seja na faxina, seja outras tarefas. Até a década de 1940, pré era tecnológica, tudo era feito "no braço. "

A maior revisão científica feita na Europa sobre o sedentarismo mostra que o número de mortes causados pelo verdadeiro "mal do século" já é quase o dobro dos óbitos provocados pela obesidade. Detalhe: a obesidade também é, em grande parte, um fruto do sedentarismo.

O aumento vertiginoso de todas as doenças não é apenas algo circunstancial

Obviamente, esse aumento assustador é multifatorial, porém, ele tem nome e sobrenome.

Com certeza, a crítica falta de movimento da era digital é um dos temas que mais impactam a saúde pública atual. Hoje, se deixar, uma pessoa passará o dia todo sentada, digitando, seja para se pedir suas refeições, seja qualquer outra coisa.

Os desequilíbrios corporais que vivemos decorrem de fatores físicos, mentais e genéticos. Ao contrário do que se imaginava, os aspectos fisiológicos, disparados pelos nossos hábitos diários, ocupam um lugar de destaque nessa equação.

A própria ansiedade, aquilo que alguns apressadamente definem como o mal do século, está subordinada ao sedentarismo, um fator determinante que a precede, fomenta e impulsiona. Em sua raiz mais remota, a palavra ansiedade tem origem na expressão egípcia "sopro da vida", associando esse mal a um funcionamento insatisfatório do sistema cardiorrespiratório, como a respiração curta e os batimentos cardíacos acelerados.

Quando usada corretamente, a atividade física pode atuar como o mais potente ansiolítico existente no mercado, mesmo o comer compulsivo está associado a desequilíbrios regulatórios causados pela falta desse "remédio natural"

Pois é, ao ficar inativo, parece que nada muda em seu corpo, no entanto a atividade física regula o seu apetite, o seu sono, a quantidade de açúcar em seu sangue e quase tudo o que você imaginar.

Parece incrível constatar que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, e, mesmo assim, as políticas públicas de combate ao sedentarismo ainda não estão nem engatinhando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL