PUBLICIDADE

Topo

Nuno Cobra Jr

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem perceber, os dois lados alimentam o ódio ideológico

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista Ítalo Ferreira. Preparador físico e mental, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro O Músculo da Alma – a Chave para a Sabedoria Corporal, Nuno defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

17/06/2021 04h00Atualizada em 24/06/2021 09h42

A escalada da violência só pode se desenvolver quando os dois lados de um conflito sustentam e alimentam esse processo.

Duas pessoas gritando não constroem um diálogo, ao contrário, destroem qualquer possibilidade de se estabelecer uma conversa saudável.

Não é possível combater o ódio e, ao mesmo tempo, estar a serviço dele.

Quando eu era adolescente, meu pai me ensinou uma lição valiosa. Quando um motorista ensandecido encostou o carro ao nosso lado, xingando e gritando ofensas, com extrema agressividade, ele apenas juntou as mãos, em um comprimento amistoso, e, abaixando a cabeça, lhe enviou um sinal de paz. Na mesma hora, desconcertado, o motorista ficou com uma cara de espanto e foi embora, sem ter como seguir com suas ofensas.

Em seguida, meu pai me alertou:

"Filho, nunca brigue com alguém que você não conhece. Muitas pessoas estão infelizes e profundamente raivosas em suas próprias vidas. Dessa forma, essa energia de raiva busca uma válvula de escape, vazando por todos os poros, sendo direcionada a qualquer pessoa que esteja à sua frente. Quando você entra nessa energia de ódio e de raiva, acaba servindo de suporte para que ela cresça e se manifeste."

Um pouco mais tarde, esse conselho se tornaria real e palpável: no Rio de janeiro, um grande amigo meu morreu baleado em uma briga de trânsito. O motorista que o levava, seu melhor amigo, havia comprado briga com um desconhecido.

Eu me recuso a ser um canal para o ódio

Se todos levassem a sério essa afirmação, daríamos um passo gigantesco em direção ao desenvolvimento espiritual, o que, indiretamente, iria colaborar imensamente com a saúde pública, como você verá mais à frente, ao decorrer desse pequeno estudo, um manifesto estimulando a tolerância e a compaixão.

A nossa tribo está doente, estamos em guerra contra nós mesmos. Os duelistas seguem o combate de olhos vendados, sem perceber que a sua reatividade é responsável por mobilizar, estimular e alimentar o seu oponente.

Aquilo que seria o mais importante não é ensinado na escola: a arte de conversar e se relacionar, apesar das diferenças. Ao contrário, a escola, muitas vezes, de forma intensiva, nos expõe à intolerância, ao bullying e à exclusão, reforçando a dificuldade em se relacionar com o outro. Caso o aprendizado da intolerância se repita em casa, e entre os amigos, o cerco está construído.

Atualmente, o resultado dessa ignorância emocional pode ser visto em cada esquina, em cada casa, no mundo todo.

Hoje em dia, com mais maturidade e experiência, a minha visão sobre política é apartidária, filosófica e espiritualista, o que causa grande confusão e estranhamento.

Não discordo das lutas políticas, apenas da forma agressiva e improdutiva como elas se manifestam.

O que sustento é anterior às ideologias, vem antes. É fácil reconhecer o ódio e a intolerância no outro, quero ver ter coragem de reconhecê-los em si mesmo.

Somos todos juízes, odiamos ser julgados, porém estamos julgando tudo e a todos, em tempo integral. Essa é a função desse mecanismo de projeção: aquilo que mais nos incomoda nos outros é exatamente aquilo que está escondido em nós mesmos, mas não podemos olhar e assumir. Por isso, criamos o nosso duplo, aquela figura que irá acolher a nossa própria sombra, nos redimindo e nos inocentando. Assim, de forma inocente, perpetuamos o mal, mesmo sem ter consciência disso.

Hoje em dia, governar ou fazer oposição pela via da agressividade, do grito e do xingamento virou um recurso banalizado, mas não deveria ser assim. Essa postura é incompatível com as exigências dessa função.

O bom combate

Na história da humanidade, existe um conflito entre aqueles que querem manter as tradições e aqueles que buscam transgredi-las.

Ambos têm um papel fundamental, afinal precisamos manter aquilo que já foi testado e aprovado pelas outras gerações, ao mesmo tempo em que precisamos evoluir como espécie e inovar, aumentando as chances de sobrevivência.

A nossa evolução se dá pela fricção entre essas duas forças essenciais. Quando existe escuta, respeito e moderação, a nossa espécie é capaz de conviver em harmonia, dialogando e buscando um consenso entre essas duas vontades.

A paz se faz pelo bom combate, e este não é guiado pelo ódio e pela intolerância, mas sim pelo amor, respeito e compaixão. Se alguém é violento e desequilibrado, isso me revela que tal indivíduo está em profundo sofrimento e confusão.

Tudo o que a violência busca é uma sustentação para sua continuidade e perpetuação.

Quem está brigando não quer parar de brigar, e, no entanto, quando um não quer, dois não brigam.

Quando alguém grita e me ofende, tenho duas opções, reagir na mesma moeda ou ter compaixão por quem me ataca, e, assim, tentando acalmá-lo, ajudá-lo a retomar o seu equilíbrio emocional e voltar à razão. Se adoto a segunda opção, a violência não tem como avançar.

Como bem sabia Gandhi, ao libertar a Índia de séculos de violência e dominação inglesa, ao cessar a reatividade, a violência esmorece, aos poucos, e perde a sua sustentação. Esse é o paradoxo: Só a não-violência pode combater a violência.

Fazer uma oposição responsável é diferente de estimular o ódio, a violência e a guerra. Quando um dos dois lados parar de gritar e agredir, o outro lado perderá, automaticamente, sua motivação e sentido.

Como podemos desativar essa bomba, coletivamente?

No Brasil, assim como em diversas partes do mundo, o extremismo roubou a atenção e o protagonismo, alavancando políticos profissionais, jogadores que têm interesse em alimentar esse jogo, pois isso valida e fortalece a sua posição no tabuleiro.

Veja só que ironia, os inimigos são interdependentes, a sua existência depende da manutenção da luta ao seu principal opositor, mantendo esse fogo aceso e vigoroso.

Assim como duas crianças, esse jogo é baseado no grito, na provocação e na reatividade, alimentando a escalada da violência, do ódio e da intolerância.

Provavelmente, nesse momento, você já esteja engajado nesse jogo perverso, aprendendo a odiar o seu inimigo.

O ser humano tem uma herança tribalista, o mal é sempre projetado para fora do nosso grupo de convivência, fortalecendo diversos mecanismos psicológicos, como a necessidade de acolhimento e pertencimento, ou a certeza apaziguadora de que estamos do lado certo, lutando pelo bem comum, engajando, mobilizando e trazendo sentido à nossa existência.

Quando assumimos uma ideologia ou uma verdade, qualquer ataque a esse princípio é interpretado como uma grave ofensa pessoal. É como se estivessem nos chamando de idiotas e imbecis. Defendemos uma verdade como a nossa própria identidade, por isso reagimos de forma passional e agressiva a esse ataque.

Ao ser capturado em uma bolha ideológica extremista, sem perceber, você passa a fazer parte desse exército digital, tornando-se massa de manobra do ódio ideológico, colaborando com a escalada da violência e da intolerância, independentemente do lado que você escolha.

Após anos de ofensas acusações e xingamentos, o debate político é uma terra arrasada, imobilizada e amordaçada pelo ódio ideológico. Chegou a hora de pacificar essa tribo.

O monstro só pode se mover com a nossa colaboração

O mal sempre está do outro lado, nunca entre os nossos. Mas se o outro lado também tem absoluta certeza disso, afinal, onde está o mal?

Demonizar seu inimigo é desumanizá-lo, o que irá servir como uma justificativa moral para exterminá-lo.

Cada incentivo ao ódio e à demonização gera um ato de violência lá na ponta dessa batalha. O problema é que culpar e demonizar o inimigo é extremamente aderente e sedutor. Além de nos conferir superioridade moral e intelectual, isso nos garante o selo da bondade irretocável, tornando-nos verdadeiros heróis da resistência, ferrenhos defensores do bem comum.

O ódio é o fermento de todas as guerras, ele é altamente estimulante, nos mantendo presos a bolhas que se retroalimentam e se perpetuam.

O fenômeno que vivemos não é novo. Atualmente, ele ocorre em diversos países, levando à desordem social, repartindo a população em dois extremos que, mobilizados pelo ódio ideológico, abominam, demonizam e querem exterminar o seu oponente.

O autoritarismo ideológico é tóxico para a saúde pública, envenenando os princípios fundamentais da democracia, assentados na moderação, no acordo e no diálogo

As nuvens tóxicas levantadas pelas fogueiras do ódio ideológico escurecem o horizonte e servem de combustível para a instalação de regimes totalitários, sejam de direita ou esquerda. O extremismo só tem um fim: a extrema escalada da violência.

Pior ainda, os efeitos deletérios do ódio ideológico prejudicam os dois lados, fazendo mal a quem o lança e a quem o recebe, conduzindo milhões de pessoas à apatia, ao desespero, à descrença e à depressão. O ódio é uma brasa acesa que seguramos apaixonadamente entre as mãos, com a intensão de jogá-la sobre o outro, enquanto ela queima as nossas próprias mãos.

Vale a pena viver em um mundo dominado pelo ódio e pela violência?

O que acontece com um organismo que está em luta contra si mesmo?

Todos carregamos dentro de nós mesmos o bem e o mal, o inseparável par de opostos. Por exemplo, o mal está presente, diariamente, em nossas ações, através de pequenos pecados como a inveja, a ganância, a fofoca, o egoísmo, mas como nos foi ensinado que só podemos carregar o bem, projetamos o mal fora de nós.

Em nosso país, plantamos o ódio e a intolerância e agora estamos colhendo os frutos dessa divisão social.

Como podemos perceber, isso nos levou a uma escalada da violência, inviabilizando o diálogo e a coordenação social.

É curioso, somos capazes de reconhecer o ódio e a intolerância no outro, mas somos incapazes de assumi-lo em nós mesmos.

Para saber se você faz parte desse grupo, basta responder a duas perguntas:

  1. Desejo, ardentemente, a morte lenta e cruel do meu inimigo?
  2. Acredito, piamente, que a morte do meu inimigo será a solução de todos os males?

Caso a sua resposta seja afirmativa, isso significa que você tem projetado o mal no outro, enquanto, na realidade, o mal criou raízes profundas em seu próprio coração.

Só a não-violência pode anular e combater a violência

Espero que a experiência ocorrida no Brasil sirva de exemplo a todos, mostrando como a polarização pode instalar o caos, corroendo o tecido social.

A fixação ideológica pode se tornar uma patologia, um transtorno psíquico que, aos poucos, pode consumir a saúde física e mental de cada indivíduo.

Ao resgatar a integridade, a mente deixa de separar as pessoas em categorias ou partidos, passando a enxergá-las novamente como seres humanos dignos de amor e respeito.

Às opções fixadas pelo discurso atual, convocando todos a aderirem a um lado da briga, proponho diversas outras escolhas e possibilidades, escapando aos polos dominantes.

Sem perceber, você pode ter sido manipulado por lideranças interessadas em desumanizar e demonizar o inimigo, alimentando polaridades que se excluem.

Estamos divididos em um momento em que deveríamos estar unidos.

Nos países que estavam polarizados, como nós, cada lado acolheu um ponto de vista oposto, bélico e competitivo. Isso nos condenou a um limbo, um purgatório, nem lá, nem cá, às vezes, descambando para o inferno.

Me diga, como colher a paz semeando a guerra?

A palestina é aqui! Um lado sobe o tom e o outro lado reage, e isso não tem fim. Na realidade, um lado alimenta e sustenta o ódio do outro. Que os líderes dessa discórdia não aproveitem o momento para ganhar dividendos políticos.

Só é possível jogar um jogo complexo e produtivo quando existe cumplicidade, união e colaboração.

O extremismo ideológico é uma das maiores ameaças que a humanidade enfrenta atualmente. A pandemia surge para evidenciar essa crise, nos convidando a cuidar dessa doença maior causada pelo ódio ideológico, entre tantas outras mazelas históricas.

A polarização não é o remédio, mas o próprio veneno em si.

A vida é um processo de causalidade baseada na ação e reação. Na política não poderia ser diferente, o momento presente é um resultado direto de tudo aquilo que o precede. Ou seja, no fim a responsabilidade é sempre coletiva.

Aqui está a chave: você não pode mudar o outro, mas, ao mudar a si mesmo, em um passe de mágica, o outro muda também.

Não se iguale aquele a quem você combate.

Quando responde a partir do ódio, automaticamente você perde a razão.

Diga não ao discurso que alimenta o ódio!

Diga não ao pensamento que exclui a divergência!

Obs: Compartilhe esse manifesto e ajude a combater o ódio ideológico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL