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Nuno Cobra Jr

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Para ter mais resultado você não pode se preocupar com o resultado

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Imagem: iStock
Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

03/06/2021 04h00

Depois de 37 anos cuidando do treinamento físico e mental de grandes atletas, como Ítalo Ferreira, atual campeão mundial de surfe profissional, hoje consigo elaborar e formular alguns conceitos.

Nos últimos anos, reparei que alguns desses conceitos também se aplicam à perda de peso. Analisando os aspectos psicológicos, percebemos que quanto mais tensa e preocupada for a sua relação com o emagrecimento, menos resultado você terá.

Com os atletas ocorre um processo similar. Se você parar para pensar, faz muito sentido: afinal, como o talento de um atleta pode fluir com naturalidade se a sua mente está tensa, distraída, fixa ao resultado, perturbando e atrapalhando a concentração urgente que deveria tomar toda a sua atenção?

Costumo dizer aos meus alunos que se prender ao resultado significa competir com uma "mochila pesada nas costas". Dispa-se de todo o peso desnecessário disparado pela preocupação e pela tensão mental, em diversos setores da sua vida, seja no trabalho, seja na dieta.

Só a entrega apaixonada e descompromissada irá nos permitir atingir o auge da nossa performance.

Isso também vale para o treinamento físico.

Não treine com o foco no resultado, divirta-se treinando e, como uma consequência natural, ganhe, como um bônus, um corpo equilibrado e definido. Não coloque a carroça na frente dos bois. A saúde, aquilo que é mais importante, deve vir primeiro.

Esse é o novo paradoxo: quanto menos preocupado com o resultado, mais resultado você terá. Ao contrário do que nos ensinaram, o foco no resultado pode ser o pior inimigo da sua saúde, funcionando como o motor por trás da porcentagem obscena de desistências no treinamento físico

O que acontece quando juntamos a pressa a uma expectativa irreal?

Se o resultado não se revela, de acordo com as promessas fantasiosas do marketing do treinamento, o aluno desiste.

Deveríamos estimular o aluno a tirar o foco daquilo que não é o mais importante, a estética corporal, e colocá-lo naquilo que é essencial: a sua saúde corporal.

As dicas desvirtuadas e desviantes

Uma estratégia que busque acelerar a perda de peso não pode ser saudável e produtiva, não estimulando o aluno a desenvolver a moderação e o equilíbrio, aquilo que seria a melhor forma de retomar ao peso ideal, no médio e longo prazo.

Esse é o principal dilema dos nutricionistas, se eles não aceleram a perda de peso, satisfazendo as expectativas do cliente, o risco de perdê-lo se acentua. No entanto, se eles estimulam a perda de peso acelerada, o risco do cliente engordar novamente é enorme, inviabilizando uma perda de peso sustentável e definitiva.

Outro dia, li uma matéria escrita por uma nutricionista famosa, ensinando a combater o efeito platô. Se arriscando em uma área que não domina, ela dava uma dica muito "básica" —o raciocínio é usual, porém equivocado: se a perda de peso parou, aumente a carga de exercícios e o gasto calórico.

Para isso, ela propunha substituir a caminhada de 30 minutos por uma corrida de 30 minutos. Seria tudo muito razoável se não fosse uma total insanidade.

A corrida é uma atividade de alto impacto articular, principalmente para quem está acima do peso, dessa forma a transição da caminhada para a corrida deve ser feita de forma gradual e extremamente cuidadosa, podendo demandar um ano ou mais, dependendo do perfil do aluno.

Não deveríamos combater o efeito platô na dieta

A mentalidade atual causa um efeito colateral adverso: aumentar e hiperdimensionar a paranoia do foco no resultado, tencionando algo que poderia ser fluido e natural.

Um bom exemplo é o efeito platô, a fase da dieta em que você para de perder peso, um fator que tem sido considerado um problema a ser vencido. Será que estamos analisando corretamente essa questão? E se a base que sustenta essa teoria estiver incorreta?

A essa altura, depois de várias décadas insistindo em enxergar o efeito platô como um inimigo mortal —e, após milhares de matérias tentando ensinar como combater esse efeito—, venho trazer uma perspectiva nova a essa questão.

Na realidade, o efeito platô é uma pausa estratégica, o seu organismo sempre irá frear a perda de peso, principalmente se ela for rápida. Dessa forma, ele pode ser considerado uma reação natural do seu sistema orgânico, estruturado durante milhões de anos da nossa evolução.

Durante todo esse tempo, ter uma boa reserva de gordura e resistir à perda de peso foi extremamente importante para a sobrevivência e manutenção da vida. Ou seja, não temos como alterar essa realidade evolutiva em menos de alguns séculos.

Existem duas vertentes antagônicas no treinamento físico: aqueles que acreditam que podem ir contra as leis fundamentais da vida, e assim, trapaceando e apelando a recursos extremos, através de um "vale tudo" perigoso, podem moldar o seu corpo, assim como uma massinha de modelar, buscando resultados estéticos acelerados, estimulando, com isso, a paranoia do foco no resultado.

Em contrapartida, surgem os treinadores holísticos e conscientes, defendendo que a melhor estratégia para ter saúde, e, por acréscimo, conquistar bons resultados no treinamento, seria respeitar e obedecer a esses princípios naturais, jogando a favor da natureza.

Você joga contra ou a favor do seu organismo?

É como costumo dizer: não queira fazer a sua realidade orgânica caber nas regras racionalistas de uma mente fantasiosa. Caso você espere o efeito platô passar, pacientemente, você voltará a perder peso, mesmo sem mudar qualquer estratégia, apenas mantendo o que já fazia anteriormente.

Intuitivamente, contrariando o lugar comum, tenho testado com diversos alunos essa teoria que desenvolvi, e ela tem funcionado muito bem.

Na semana passada, uma aluna reclamou que não estava conseguindo atingir as metas traçadas na perda de peso. Sem me contar, ela tinha feito uma programação irreal de perda de peso. Mesmo perdendo mais de 2 kg por mês, ela estava decepcionada. O que fizemos? Mudamos a meta, trazendo-a para a realidade. Como insisti em mostrar a ela, quanto mais lenta e gradual for a perda de peso, sem radicalismos, mais saudável e sustentável ela será.

O sistema platô, como chamo, está presente em diversos mecanismos naturais, como a evolução no desenvolvimento cardiovascular ou muscular. O treinamento também evolui aos saltos, passando por uma fase de estabilização, um platô estratégico de repouso.

Entender o efeito platô, a partir dessa perspectiva, é apaziguador e tranquilizador ao aluno, fazendo ele superar aquela fase na qual 99% dos alunos desistem de suas metas, apenas porque o resultado estagnou por um curto espaço de tempo.

Como digo, essa é a grande vantagem de tirar o foco do resultado, o aluno não desanima e segue em frente. Caso isso se mantenha por um longo período, consequentemente, ao final, os resultados serão muito superiores aos que haviam sido programados.

Nós estamos perdidos, em um mundo invadido por "experts", por todos os lados, e por um excesso de informações tóxicas e desvirtuantes, fica difícil encontrar o caminho da saúde. Como saber para onde ir com tantas opiniões e informações divergentes?
Como recuperar um cérebro dominado e invadido por infotoxinas? Esse será o nosso desafio nas próximas décadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL